Marx, pensador do racismo sistêmico

Para alguns opinadores ignorantes, o marxismo nada teria a dizer sobre anti-racismo. Acontece que Marx viu perfeitamente a relação entre discriminação racial e opressão de classe, e que escreveu páginas luminosas sobre a questão. Que Marx compreendeu que o racismo sistêmico inerente ao esclavagismo mercantil era a certidão de nascimento do capitalismo moderno.

Entre as incongruências ultimamente lidas aqui e ali figura a ideia de que seria escandaloso alguém reclamar-se do marxismo quando participa da luta contra o racismo. Com base no argumento de que para Marx o capital não tinha cor, que ele defendia a maioria e não as minorias, que o essencial é a luta de classes e não a raça, e outros argumentos do mesmo calibre.

Exceto que Marx viu perfeitamente a relação entre discriminação racial e opressão de classe, e que escreveu páginas luminosas sobre a questão. Dedicou-lhe até um capítulo inteiro do Capital, o capítulo 31 da Oitava seção do Livro I, no qual descreve a geração do capitalismo moderno a partir do regime colonial e da escravatura nas plantações.

Citaremos daí apenas alguns trechos:
“Os tesouros diretamente extorquidos fora da Europa pelo trabalho forçado dos indígenas reduzidos à escravidão, pela concussão, a pilhagem e o assassínio, retornavam à mãe pátria para aí funcionarem como capital”.

“A descoberta das regiões auríferas e argentíferas da América, a redução dos indígenas à escravidão, o seu afundamento nas minas ou o seu extermínio, os inícios da conquista e da pilhagem nas Índias, a transformação da África em terreno de caça às peles negras, eis os processos idílicos de acumulação primitiva que assinalam a era capitalista na sua aurora”.
“A situação dos indígenas era a mais assustadora nas plantações destinadas apenas ao comércio de exportação, tal como as Índias Ocidentais, e nos países ricos e populosos, como as Índias Orientais e o México, caídas como despojos nas mãos de aventureiros europeus”.

A verdade, como podemos ver, é que Marx compreendeu que o racismo sistêmico inerente ao esclavagismo mercantil era a certidão de nascimento do capitalismo moderno; que este último em breve adotaria a lógica daquilo a que Samir Amin chamará “desenvolvimento desigual”; que uma vez estabelecidas as relações de dependência entre o Norte e o Sul, essa desigualdade iria conferir ao sistema mundial a sua verdadeira estrutura; que se instauraria uma divisão do trabalho entre o centro e a periferia atribuindo à segunda o papel de fornecedor de mão de obra e de matérias-primas a baixo preço; que, gerando uma exploração em cascata, essa hierarquização do mundo perpetuaria as relações de exploração das quais o Ocidente capitalista retiraria a sua prosperidade e cujas sequelas são ainda visíveis.

Marx escreveu também numerosos artigos sobre o colonialismo britânico nas Índias. Num texto publicado pelo New York Daily Tribune em 22 de Julho de 1853, ele sublinhava que, nas colônias, a brutalidade da burguesia europeia, podia desencadear-se sem entraves:
“A profunda hipocrisia e barbárie inerentes à civilização burguesa expõem-se diante de nossos olhos ao passarem da sua terra natal, onde assumem formas respeitáveis, às colônias onde se apresentam sem disfarce”.

Longe de ser indiferente à questão racial, Marx percebeu o seu caráter originário, viu que ela era indissociável da gênese do modo de produção capitalista. Formulou o retrato de uma dominação sem precedentes, que estendeu a toda a terra a lei de bronze do capital, retomando práticas ancestrais de uma violência sem precedentes. Chicoteado, mutilado ou queimado vivo à menor tentativa de rebelião, o escravo negro das colônias era a metáfora de um mundo onde o racismo de Estado justificava todas as transgressões. Representava o ponto extremo de um sistema de exploração mundializado que em breve transformaria os trabalhadores, fosse qual fosse a sua cor, em simples mercadorias destinadas à acumulação de lucro.

“Ao mesmo tempo que a indústria algodoeira introduzia a escravidão infantil na Inglaterra, transformava nos Estados Unidos o tratamento mais ou menos patriarcal dos negros num sistema de exploração mercantil. Em resumo, o pedestal necessário da escravidão dissimulada dos trabalhadores na Europa era a escravidão aberta no Novo Mundo”.

O esclavagismo racial existia efetivamente como tal e Marx tomou-o em consideração na sua análise das relações sociais capitalistas. Não é por acaso que ele cita o esclavagismo de plantação nos Estados Unidos. Sabia que o racismo instituído era um dos fundamentos da assim chamada democracia americana. É por isso que ele tomou publicamente partido pela União contra a Confederação durante a guerra civil, e esse simples fato invalida qualquer interpretação que vise diminuir a questão racial no seu pensamento. Para Marx, que sabia muito bem que Lincoln defendia os interesses da burguesia industrial do Norte, a abolição da escravatura racial no Sul era uma prioridade absoluta.

O que Marx mostra brilhantemente é que o capital instituiu o racismo sistêmico desde o seu início, que é um fato estrutural incontestável, e que é independente das atitudes individuais. Se Marx não fala do nosso tempo, fala bem da que a precede e a sustenta, tanto é verdade, como dizia, que “a tradição dos povos do passado pesa como um pesadelo no cérebro dos vivos”.
Esquecer esta lição é esquecer Marx.

Fonte: https://www.odiario.info/marx-pensador-do-racismo-sistemico/

Imaginarios para salir del desastre

Angela Davis y Naomi Klein conversaron por streaming. Atravesadas por el acontecimiento, reflexionan sobre la oportunidad que la crisis del coronavirus representa para movimientos sociales e izquierdas. Cruzan las instantáneas del presente con otros momentos fundamentales de la historia. Vuelven a pensar otro mundo posible basado en menos represión, más activismo, imaginación y perspectiva feminista.

Naomi Klein y Angela Davis se encontraron en una charla virtual organizada por The Rising Majority: “Coronavirus y construcción de un movimiento opositor”. Hubo más de 200 mil personas escuchando el vivo, en todo el planeta, en todos los horarios e idiomas, pero con una visión de mundo compartida. Hablaron de la crisis global, de la pandemia, de los feminismos, de los trabajos imprescindibles, del racismo, de las personas privadas de su libertad. Atravesadas por el acontecimiento reflexionaron sobre los desafíos que se vienen para los activismos y para la izquierda internacional en un escenario que nos impone la necesidad de desafiar los límites de la imaginación de lo posible.

Angela Davis es activista antirracista, anticapitalista e histórica referente de las luchas afro en los Estados Unidos a gravés de las Panteras Negras. Es autora de Género, raza y clase y ¿Son obsoletas las prisiones? Naomi Klein es activista anticapitalista y ecologista, cineasta y periodista. Escribió No Logo y La doctrina del Shock. Modera la conversación la activista Thenkiwe Mcharris.

THENJIWE MCHARRIS: Esta conversación intenta poner en común visiones transformadoras y nos invita a hablar de los cambios estructurales que necesitamos. ¿Qué nos dice esta crisis sobre el fracaso del capitalismo y sobre el riesgo de que el sistema aplique sus propias soluciones para afrontar el desastre?

NAOMI KLEIN: Esta es una crisis creada por el capitalismo. La pandemia misma es una expresión de nuestra guerra contra la naturaleza, de las enfermedades que vienen desde “lo salvaje” a la esfera humana porque nos estamos metiendo en ese plano de lo salvaje cada vez más. Estamos viendo cómo esta enfermedad se inserta en los sistemas inmunológicos débiles. Pero si tomamos distancia y ampliamos la perspectiva, vemos que nuestro sistema económico, dispuesto y construido en base a la voluntad de sacrificar la vida en beneficio de las ganancias, generó las condiciones previas para que esta crisis sea todavía más profunda, debilitando nuestro sistema inmune colectivo y generando las condiciones para que el virus se desarrolle de forma desenfrenada.

Esto se expresa de muchas maneras: a tavés de los sistemas médicos privados, en la denigración del trabajo de cuidado -al no brindar los equipos de protección adecuados-, y en la denigración de los trabajos de servicio: las personas que producen y entregan alimentos son tratadas como desechables. Todo ésto hace que el virus esté fuera de control. 

Además, tenemos el capitalismo del desastre. Vemos lo mismo de siempre: frente a tanto dolor y necesidad, el oportunismo corporativo no se pregunta cómo aportar soluciones sino cómo puede enriquecerse aún más. Algunos ejemplos son las regulaciones ambientales suspendidas en China y en Estados Unidos en nombre de ayudar a la economía, y el impuesto a la regulación financiera. Esta declaración de intenciones impulsa crisis encubiertas, son ataques explícitos a nuestras democracias ya débiles. Entonces vemos a un Viktor Orban en Hungría, a Jair Bolsonaro en Brasil, a Benjamin Netanyahu en Israel, a Trump en Estados Unidos… Son lo mismo. Todos usan la autoridad para obtener mayor poder de vigilancia. 

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ANGELA DAVIS: Al escucharte, Naomi, pienso en lo que pasa en Palestina, en lo que pasa en Siria y en Kurdistán, pienso en las poblaciones que están expuestas a situaciones de represión como respuesta fallida al Coronavirus.

THENJIWE MCHARRIS: Angela, durante años nos hablaste del sistema carcelario. ¿Podemos pensar la coyuntura desde una perspectiva abolicionista?

ANGELA DAVIS: Al analizar el impacto y los intentos para mitigar el virus, se pensó en la situación de las personas forzadas a mentenerse encerradas. Hubo preocupación por quienes quedaron confinados en cruceros. Pero deberían preocuparnos -y más, incluso- las personas que están en prisión o en centros de detención de inmigrantes. Acá, en Estados Unidos, las personas quedan detenidas por un período de uno a seis meses, no más de un año. Sin embargo, en este contexto, una sentencia de tres meses puede significar la pena de muerte. Aquí muchas organizaciones -Critical Resistance, No New Jails, All Of Us or None, Transgender Gender-Variant & Intersex Justice Project- piden la liberación de prisionerxs. En Estados Unidos hay 2.3 millones de personas tras las rejas. Pedimos, en particular, la liberación de lxs ancianxs. Y considerando que la cárcel acelera el envejecimiento, hablamos de mayores de 50. Las apelaciones también piden la liberación de lxs niñxs que están en institutos para menores. 

Estaba leyendo un artículo de Mike Davisis en la “Jacobin”, donde menciona a la “corona-crisis” como un monstruo alimentado por el capitalismo. Dice que esta pandemia expande el argumento de que el capitalismo global parece biológicamente no sustentable por la ausencia de una infraestructura de salud pública global. Y afirma: “Tal infraestructura nunca existirá si los movimientos sociales no quiebran el poder de las grandes farmacéuticas y del sistema de salud privado”. La mirada abolicionista nos obliga a pensar de manera amplia y a recordar, por ejemplo, a aquellxs que no tienen casa. Incluso si se lleva a cabo la descarcelación de la cantidad de personas tras las rejas, muchxs sólo tendrán las calles como un lugar para refugiarse. Por lo tanto, también tenemos que pensar en el acceso a la vivienda y al alimento. Si Irán pudo liberar a 70 mil prisionerxs, es decir, un tercio de su población de detenidxs, los Estados Unidos deberían poder hacer lo mismo.

THENJIWE MCHARRIS: Esto nos lleva a la siguiente pregunta. ¿Cómo saber qué es posible transformar? ¿Cuánto más tenemos que involucrarnos? 

NAOMI KLEIN: Se necesita de un gran compromiso. Recién estamos en la primera etapa de esta tremenda crisis. Una vez que reconocemos que estamos en una emergencia, el gran compromiso es posible. Ahora, por ejemplo: todos los que estamos compartiendo esta conversación seguramente pasamos nuestras vidas tratando de convencer al mundo de que el status quo nos llevaba al desastre. Estados Unidos no vio esta pandemia como una crisis. Lo dijo FOX News: que las personas mayores y las enfermas debían morir en silencio, en nombre del mercado. La única razón por la que ha habido una movilización de esta escala tiene que ver con los viajes geográficos que hizo virus, y que antes de golpear a Estados Unidos golpeó a sociedades con un tejido social más fuerte. Entonces tuvimos presidentes como el de China, y algunos del sur de Europa, que clausuraron sus economías para salvar vidas, y ésto venció las medidas de Trump que de alguna manera se vio obligado a tomar decisiones similares. La crisis abre el sentido de lo que es posible. 

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Cuando escribí Doctrina del Shock, cité a Milton Friedman: “Solo un procedimiento real de crisis produce un cambio real, y cuando ocurre la crisis depende de las ideas que están por ahí”. Milton Friedman estaba enfocado en tener una infraestructura intelectual de preparación para desastres para la derecha, para las corporaciones, porque entendió que cuando el capitalismo produce su propia crisis y las injusticias del sistema quedan al descubierto, como sucedió durante la Gran Depresión, la izquierda tiene una gran oportunidad. Milton Friedman escribió una carta a Pinochet en los ´70, y le dijo: “Todo salió mal en su país, como en el mío en la década de 30, cuando la gente tuvo la idea de que podían hacer cosas buenas con el dinero de otras personas”. Entonces, en otras palabras, toda la estrategia que están desplegando para moverse tan rápido ante una crisis, para impulsar su lista de deseos es porque tienen miedo de que impulsemos la nuestra, tienen miedo de que exijamos exactamente aquello de lo que Angela ha estado hablando. Que vaciemos las cárceles, que exijamos casas para todxs, que digamos: “Esperá un minuto. ¿Ganaste 6 trillones de dólares? Podríamos tener un buen comienzo de un nuevo acuerdo verde con ese dinero”. Quiero decir, si podés pagarle a la gente para que se quede en casa, podés pagarle a la gente para que se vuelva a entrenar fuera del sector de los combustibles fósiles. Si las corporaciones están de rodillas pidiendo rescates, los sectores más contaminantes del planeta, compañías petroleras, compañías de gas, aerolíneas, compañías automotrices, de cruceros, significa que podemos tomar posesión de estos sectores, podemos bajarles un cambio si están en guerra con la vida en la tierra, podemos cuidar a sus trabajadores. Lo que necesitamos, para citar a mis colegas de The Leap, que es una organización que co-fundé, es patear puertas, abrirlas a la posibilidad radical tan a lo ancho y a lo largo como sea posible. 

En esta crisis nos encuentra en una mejor posición que la de 2008, cuando la economía mundial colapsó y teníamos claro que nos veíamos obligados a pagar para salvar a los banqueros. Ocupamos las plazas y dijimos: “¡No!”. Pero en ese momento no impulsamos nuestras alternativas radicales con el coraje y con la fuerza suficiente. Esto es lo que debemos hacer ahora. Estoy tan inspirada por los trabajadorxs de Amazon, Hole Foods, Instacard, GI y los enfermeros. Todos son trabajadores de la primera línea pero su trabajo es denigrado y, literalmente, tienen que usar bolsas de basura para protegerse del virus. Es que así es como el capitalismo los ve, como basura. Pero ellos están de pie: “No, no somos basura. Nosotros sostenemos al mundo”. Esa es la energía que necesitamos para construir. Tenemos que ejercitar nuestro derecho a parar, a retener esa fuerza de trabajo. Necesitamos abrir la puerta de una patada, ¡y mantenerla abierta! 

THENJIWE MCHARRIS: Debemos ser audaces y tener confianza pero también expandir la ronda de posibilidades en nuestra imaginación. Entonces, ¿cómo avanzamos hacia un mayor nivel de demandas?

NAOMI KLEIN: Es una carrera contra el tiempo porque todavía no vimos sus peores ideas. La gente en Gaza nos dice que son un laboratorio para el resto del mundo. Hoy, en Bombay, fueron diagnosticados los primeros casos de Corona, en un barrio marginal. Eso es preocupante por lo que dice Ángela sobre la imposibilidad de las personas para aislarse cuando no tiene dónde hacerlo. ¿Qué respuesta da un estado carcelario? Sella el barrio pobre, lo convierte en Gaza. Salvo que estemos ahí diciendo: “¡No! Todos tienen derecho a una casa, hay muchos hoteles vacíos”. Creo que veremos peores instantáneas que las que estamos viendo ahora.

THENJIWE MCHARRIS: Y vos, Angela, ¿qué crees que esta crisis nos está pidiendo? 

ANGELA DAVIS: Estoy de acuerdo con Naomi: tenemos que pensar en las similitudes entre la década del 30 y ahora. Muchas personas se dan cuenta que el capitalismo no está preparado para responder a las necesidades de la gente y de otros seres de este planeta. El capitalismo global es responsable de la imposibilidad para abordar esta pandemia. También es responsable del gran número de personas en prisión, del alto costo de la atención médica, la vivienda y la educación. Las personas hoy tenemos la capacidad de darnos cuenta de que no tenía por qué ser así.

La crisis revela la naturaleza del capitalismo racial, el racismo dirigido contra asiático-estadounidenses, por seguir el ejemplo de… ¿cómo se llama el actual ocupante de la Casa Blanca? Estamos reconociendo y tenemos la capacidad de organizarnos contra el racismo de las instituciones, el racismo cotidiano. Y tenemos la capacidad de generar organización feminista, lo que podríamos llamar la organización feminista abolicionista, porque todas estas son cuestiones feministas. El racismo es una cuestión feminista, la falta de vivienda es una cuestión feminista, la abolición de las cárceles es una cuestión feminista. También deberíamos considerar que muchas de las personas que están en el centro de esta crisis, en la primera línea, son mujeres. Y quiero decir una cosa sobre la violencia de género y el abuso infantil: muchas mujeres están siendo forzadas a pasar las 24 horas del día con sus abusadores, siendo incapaces de conectarse con aquellos que han sido sus cuerdas de salvataje.

Deberíamos aprovechar ésto como una oportunidad para generar el tipo de organización que resalte el sentido de la necesidad de solidaridad internacional, y que tenga la capacidad de sacarnos de nuestro adormecimiento, de reconocer que podemos aceptar liderazgos de personas que se organizan en otras partes del mundo. 

(…)

NAOMI KLEIN: Mucho de lo que sé sobre el poder transformador de una crisis lo aprendí viviendo en Argentina, luego de la crisis económica del 2001, cuando tuvieron cinco presidentes en tres semanas y todo colapsó y la gente comenzó a construir algo nuevo en la multitud.  Una de las cosas que presencié y que realmente me cambió fue el movimiento de las fábricas que, siendo abandonadas por sus dueños, eran transformadas en cooperativas de trabajo. Eso es lo que reivindico cuando hablo de solidaridad internacional. También valoro lo que tenemos para aprender del movimiento por la soberanía alimentaria. 

También, hoy hay un nivel de organización digital increíble. Tenemos que defender también el derecho a tener internet, es un bien de uso público pero ahora está en manos de unas pocas grandes corporaciones. Cuando hablamos de respuestas represivas y autoritarias a la crisis eso incluye la capacidad de acallarnos cuando nos organizamos en plataformas de las corporaciones. Luchamos por derechos digitales reales como parte de la transformación que necesitamos. 

Recordemos un par de cosas de las que muchxs de nosotrxs nos estamos dando cuenta. Uno: nos extrañamos, aunque pasamos mucho tiempo frente a las pantallas. Cuando ésto pase, me gustaría pasar más tiempo en comunidad y construir una economía que valore, que eleve y que esté enraizada en la necesidad de cuidarnos entre todxs y cuidar el planeta. Es posible hacerlo, serán necesarias todas las herramientas que hemos mencionado, las huelgas de alquileres, las huelgas de deudas, tal vez incluso una huelga general. No creo que tenga un hashtag, así que tendremos que encontrar formas de organización que Silicon Valley no nos haya traído. Una de las cosas que más difíciles de esta crisis es tener un hijo de siete años y enseñarle a temer a la gente porque todxs tienen gérmenes, y eso es lo contrario a lo que trato de enseñarle.

Fuente: http://revistaanfibia.com/ensayo/imaginarios-salir-del-desastre/

EM DOMBAS FOI CRIADA UMA ORGANIZAÇÃO DE BUSCA DOS DESAPARECIDOS NA GUERRA

Em tempos de guerra, o problema de procurar pessoas desaparecidas tornou-se mais urgente, em Dombass, nas Repúblicas Populares de Donestk e Lugansk e a primeira organização de operações de buscas de desaparecidos foi criada oficialmente. Trata-se da “União Das Mães de Filhos Desaparecidos”  conforme Kristina Kruglenko, Presidente da União, contou à EADaily sobre as tarefas da organização e os problemas mais prementes que está enfrentando atualmente.

“A organização foi fundada em 6 de fevereiro de 2019 – esta é a data oficial do registro. Trabalhamos, é claro, por muito mais tempo. A principal área de trabalho é legal. Também somos o elo entre o Bureau de Medicina Legal (instituto de criminalística)  e os parentes dos desaparecidos. Todos os nossos homens vêm do campo humanitário. Durante todo o conflito armado, cada um de nós realizou algum tipo de trabalho voluntário. Por exemplo, sou participante do Tribunal Popular da Ucrânia, alguns voluntários de nosso pessoal cuidaram de crianças e outros estavam envolvidos em outras áreas humanitárias. Gradualmente, percebemos que havia uma necessidade de procurar pessoas desaparecidas”, disse Kristina Kruglenko.

Atualmente, segundo ela, a organização aceita solicitações de cidadãos desaparecidos da República Popular de Donestk e de outros estados – civis e militares.

“Quando pessoas com uma posição civil ativa se uniam com base em nossa sociedade, enfrentávamos o problema de que os desaparecidos não tinham status. Portanto, havia problemas legais com imóveis, herança e procuração para deixar nosso território com crianças. Tivemos uma mesa-redonda com a Cruz Vermelha, onde o tópico de assistência jurídica foi discutido em detalhes. Inicialmente, quando havia dois, três ou quatro candidatos, as organizações jurídicas nos forneceram assistência gratuita, enquanto o número de candidatos era insignificante. Agora existem mais de 140 candidatos, tanto do DPR, LPR e da Rússia e da Ucrânia. O número pode aumentar. Portanto, começamos a cooperar com o centro de coordenação legal “Guerra e paz” , que atua como consultor jurídico, abordando questões legais relacionadas à busca de pessoas desaparecidas e ao registro de seus documentos “, afirmou Kruglenko.

Segundo ela, os casos são completamente diferentes e as informações dos familiares nem sempre são confiáveis.

“Durante seis meses fizemos um trabalho de buscas. Procuramos oito pessoas, quatro delas foram encontradas vivas, quatro mortas. Duas delas, uma viva e uma morta, foram encontradas no território da Federação Russa, embora seus parentes não soubessem nada sobre a partida deles. No momento, estamos trabalhando apenas no campo de informações; não estamos envolvidos em rastreamento, mas estamos em busca. Estamos tentando estabelecer contato com organizações públicas semelhantes da Ucrânia e da Federação Russa. União Abkhazian de Mães, graças ao chefe do Departamento Republicano de Exame Médico Forense Dmitry Kalashnikov que foi para a Abkhazia. Também participamos de uma conferência em Pyatigorsk organizada pela “Missão de Manutenção da Paz General Lebed”, que existe há mais de 20 anos. Eles estão envolvidos na busca de pessoas desaparecidas, têm uma tremenda experiência, foi uma conferência sobre genética e, a partir daí, trouxemos a ideia de criar passaportes genéticos para familiares de pessoas desaparecidas. Até agora, no entanto, é possível envolver apenas parentes de primeiro grau. O passaporte genético permite identificar uma pessoa após um período de tempo significativo “, afirmou a Presidente da União.

Kristina Kruglenko
Kristina Kruglenko

Fonte:  https://eadaily.com/ru/news/2020/04/24/bez-vesti-propavshie-v-voennoe-vremya-v-dnr-sozdali-poiskovuyu-organizaciyu

Tradução do  russo para o inglês – Andrey Kochetov, da República Popular de Lugansk

Tradução do inglês para o português – Humberto Carvalho

Lila Ripoll

LILA RIPOLL

 (Humberto Carvalho, por ocasião o dia 8 de março.)

  Peço perdão aos poetas do passado e aos do presente, peço perdão aos poetas maiores, como também aos menores, pois vou falar de um poeta, com “P” maiúsculo, estrela de primeira grandeza, que veio, nas asas da Poesia, pousar no Rio Grande, espargindo a pura luminosidade do seu lirismo.

  Trata-se de uma mulher/poeta e uso o verbo no presente, porque, parafraseando Guimarães Rosa, devo dizer que “os poetas não morrem, ficam encantados”.

  Refiro-me à Lila Ripoll. Já em seu nome há sonoridade e ritmo típicos de um verso; diria que seu nome é como “um suspiro ritmado”.

  Essa mulher pequena, aparentava, fisicamente, a fragilidade das açucenas. Por trás das lentes grossas dos óculos, seus grandes olhos escuros, de pupilas incendiadas, miravam horizontes intactos do sonho. Eram “olhos de olhar estrelas”. A testa alta, marcante em seu rosto, como que anunciava sua inteligência, sua capacidade de pensar, sonhar e lutar pelo sonho. De quando em vez, suas mãos esvoaçavam, denunciando sua feminilidade e essa graciosidade inata das mulheres nos gestos que, em Lila, eram, quase sempre, contidos.

  Lila nasceu em 12 de agosto de 1905, na cidade de Quarai, na Região da Campanha. É uma característica geográfica daquela região, poder-se visualizar os campos, sem obstáculos à visão, até os limites das linhas do horizonte, criando uma sensação viva  de liberdade, mas também de solidão.

  Se forem verdadeiras as teorias da influência do meio ambiente sobre os seres humanos, estará explicado o porquê das pessoas daquela região terem a atitude mental de serem abertas à aragem das ideias, como o campo o é em relação aos ventos.

  Por tais razões Lila diz em seu poema “No casarão…”, do livro  “De mãos postas” (ed. Globo, 1938):

“Nasci num casarão velho, de esquina,

Escondido entre salsos pensativos.

E foi lá que a minha alma, ainda menina,

Olhando dia e noite os poentes vivos,

Aprendeu a viajar no pensamento. (…)”

  Aprender a “viajar no pensamento” é abrir-se às ideias, é aprender a sonhar, é predispor-se a conhecer sem preconceitos, sem apriorismos. E a capacidade de sonhar será uma constante nos poemas de Lila como em “Tecedeira” do livro “Poemas e Canções” (ed. Cadernos da Horizonte, 1957):

“(…)

Sou tecedeira de um sonho,

puro, claro, inacabado.

Fia, fia, a tecedeira.

Chega o outono e a primavera.

Dos frutos caem sementes,

das sementes brotam flores.

E o fio interminável,

tece o sonho de uma espera.

(…)

Fia, fia, a tecedeira,

sem saber para quem tece,

com o fio interminável,

uma teia de ternuras.”

  O sonho, a capacidade de sonhar, assume importância trancedental, especialmente para o poeta, sendo essa, talvez, a sua missão – espargir sonhos, como quem espalha sementes. É o que Lila canta em “Cantiga”, do livro “Poemas e Canções” (op. cit.):

“(…)

Que pode sonhar um poeta,

senão repartir venturas?

Poeta, irmão, sonhemos juntos

um mundo sem amarguras.

Sonhemos juntos, plantemos.

A terra está como um fruto

em pleno amadurecer.

Espalhemos nossos versos,

como quem joga sementes,

para a terra devolver.”

  A solidão como decorrência daquela visão telúrica, se manifesta em seus poemas como em “Canção de Esconde, Esconde”, do livro “O Coração Descoberto”(Editorial Vitória Ltda., 1961):

“Solidão brinca comigo

um jogo de esconde, esconde.

Desaparece um momento

e surge não sei de onde.

(…)

Solidão se esconde e volta,

moe a vida, o sonho, o amor.

Ai! jogo de esconde, esconde,

esconde também a dor.”

  Por estes versos, vê-se também que nossa poeta (ela não aceitava a denominação de poetisa, pois a considerava discriminatória) construía seus poemas de forma direta e simples, sem perda do lirismo, do ritmo e da sonoridade.

  Quando a Poesia começou a caracterizar-se por ser uma espécie de extenuante laboratório de enigmas, envoltos em densa nebulosidade de mistérios dirigidos a iniciados em charadas, Lila fazia uma profissão de fé na universalidade da temática poética, podendo, a compreensão dos versos, ser atingida por todos.

  Dessa maneira e por outro ângulo, Lila se expunha, o coração palpitante, como num ofertório, buscando a comunhão das emoções entre os leitores e a poeta, como o faz em “Aqui estou venturosa” do livro “Poemas e Canções” (op. cit.):

“Aqui está o meu corpo,

pleno de vida e de sonho,

apesar da solidão.

Aqui tens a minha alma,

que sofreu mortes e mortes,

mas não perdeu a ilusão.

Aqui está a minha vida,

partida e reconstruída,

sobre pedaços de amor.

Aqui tens o meu suspiro,

leve sopro perfumado,

feito de aroma e de dor.

Aqui tens as minhas palavras,

revestidas de poesia,

de verdade e sentimento.

Aqui estão minhas mãos,

que permaneceram puras,

em meio a todo tormento.

Aqui estão os meus anos,

multiplicados por quatro,

pelas dores que passaram.

Aqui tens tudo o que sou:

um pouco de céu e terra,

pelas leis que me geraram.

Aqui tens tudo o que sou:

espinho e flor, urze e rosa,

noite, dia e madrugada.

Aqui estou venturosa,

por ter sido como sou,

sem mentir pra ser amada!”

  Ademais de poeta, Lila era, também, musicista. Seu instrumento musical era o piano. Foi durante longo período professora estadual de música, entre outros, no Grupo Escolar Venezuela. Em certa época, foi diretora cultural do Sindicato dos Metalúrgicos de Porto Alegre e ali criou, organizou e dirigiu, como maestrina, um coral de operários. Também incursionou pelo teatro, criando uma peça denominada “Um colar de vidro”, de crítica a valores burgueses, encenada, com sucesso em 1958, no Teatro São Pedro. Lamentavelmente, a peça nunca foi editada sob a forma de livro. Também, Lila tinha atividades intelectuais de ordem jornalística, editando e colaborando em revistas de caráter teórico. Recebeu vários prêmios: seu primeiro livro, “Céu Vazio”, recebeu o prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras e em 1951 recebeu o prêmio Pablo Neruda da Paz, por ter sido uma batalhadora exemplar do Movimento pela Paz, na época da “guerra fria”.

  Mas, retornando à obra poética de Lila, deve-se dizer que os temas característicos e recorrentes da poesia de Lila são, basicamente, dor e tristeza. Lila sente a dor de todos os homens, a dor do existir, e por isso a dor é para ela uma espécie de denominador comum a todos.

  Esse igualitarismo do sofrer libertará a mulher e a poeta para converter Lila na militante comunista, na ativista do sonho, do sonho de um mundo melhor, de um existir sem dor, da busca de uma real solidariedade entre os homens.

  Hoje em dia, alguns afirmam que vivemos o fim da história. Com tal assertiva, tais pessoas negam o futuro, a certeza de que é possível construir um mundo melhor, dizendo, em última análise, que nada pode mudar. Assim, querem retirar dos homens a capacidade de sonhar, sonhar um mundo melhor, uma sociedade racional e justa, onde o igualitarismo dos homens não se dê na dor do existir egoístico, mas na igualdade de condições sociais que levará ao prazer de viver. Por isso, nestes tempos sombrios deve-se recordar Lila Ripoll, a mulher/poeta, a tecedeira de sonhos.

  Em 1964 Lila foi presa. Todavia, foi logo libertada porque se encontrava com câncer. No  hospital recebeu de amigos muitas rosas vermelhas e escreveu, referindo-se a sua situação pessoal e certamente à situação que o País estava vivendo :

“(…)

Rodearam-me de rosas

e um frêmito vermelho

sacudiu a quietude.

As rosas, as bandeiras

amotinadas, invadiram

o quarto.

Minha cabeça não consegue

pousar no travesseiro.

Porque elas, as rosas,

as bandeiras amotinadas,

são um toque de levantar”.

  A poeta completou a mulher que foi Lila Ripoll.

  A poeta encantou-se e a mulher faleceu em 7 de fevereiro de 1967.

  Deixou de ser publicada no período da ditadura militar por motivos óbvios, visando, certamente, que o público a esquecesse. As ironias do destino, entretanto, fizeram com que, em vez do esquecimento, hoje, Lila seja lida, comentada, estudada e sempre lembrada com carinho; e todos, tanto os especialistas em literatura, como os simples amantes da poesia, são unânimes em afirmar que Lila é a maior e a melhor poeta do Rio Grande, e estrela de impávida grandeza na literatura nacional.

  Agradeço esta oportunidade que me ofereceram, não para tentar pretensiosamente uma análise, mesmo perfunctória, da obra poética de Lila, mas porque me permite demonstrar, de público, minha profunda admiração pela poeta, pela mulher, pela militante que foi Lila Ripoll. E neste Dia Internacional da Mulher, reconhecendo, como Lila o fazia, a razão de ser das mulheres, nada melhor do que lembrar os seguintes versos de nossa poeta maior:

“(…)

O poeta sonha.

A mulher joga a rosa

sobre o mundo.”

Lênin Presente – 150 anos!

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Vladimir Ylyich Ulianov – Lênin – nasceu aos 22 de abril de 1870, na cidade de Simbirsk, hoje Ulianovsk, Rússia.


Para comemorar o 150º aniversário de Lênin, o Iniciative Communiste (IC), jornal do Pólo de Renascimento comunista em França, entrevistou a Georges Gastaud, professor de filosofia, sindicalista e Secretário-Geral do PRCF (Pólo do Renascimento Comunista na França), demonstrando a atualidade do pensamento e obra de Lênin.
(Tradução: Humberto Carvalho)

IC – Nascido há 150 anos, Lênin ainda é atual para nós?
Sim claro. Lênin foi e continua sendo uma figura de proa da práxis revolucionária, construção política, arte militar, construção econômica, batalha cultural e pensamento teórico; não é elogio, é uma observação. No entanto, como Hegel mostrou, esses homens não envelhecem e são mil vezes mais modernos, inesquecíveis e atuais no sentido pleno da palavra do que jamais serão as “figuras altas” da oligarquia dos nossos tempos da qual, em dez anos, lembraremos tão pouco seus nomes, assim como não conhecemos os nomes dos presidentes da Terceira República ou os sobrenomes dos antigos reis da Austrásia. Para resumir ao extremo (quem quiser saber mais pode pedir o Novo Desafio Leninista, da editora Delga!), eu diria que Lênin é essencial para nós …
Na filosofia:
Desde 1908, Lênin compreendeu que uma grande revolução estava começando a abalar as ciências físicas e estava profundamente interessado nas controvérsias lideradas por Ernst Mach, Henri Poincaré e muitos outros físicos de vanguarda de seu tempo. Dotado de grande sutileza crítica e munido de um profundo domínio das orientações materialistas da epistemologia, Lênin compreendeu que era a forma que estava mudando, não o conteúdo principal das categorias de matéria, energia, etc. Enquanto alguns físicos rejeitaram a nova física emergente ou, inversamente, um Poincaré, por exemplo, derrapou em direção ao imaterialismo e declarou que “a matéria desaparece”, enquanto Ostwald fingiu substituir o “energismo”¹ pelo materialismo filosófico, o bom dialético que era Lênin mostrou excelente postura teórica; ele mostrou que era a concepção puramente mecanicista da matéria que deveria dar lugar a uma concepção mais rica e abrangente, em geral mais dialética da natureza física: uma nova concepção na qual a matéria não seria mais articulada de fora, “metafisicamente”, à energia, ao vácuo, ao espaço-tempo, etc., como ainda era o caso da física inspirada em Newton, mas onde, pelo contrário, os cientistas precisavam entender em profundidade essa frase antecipada de Engels, ele próprio apaixonado por ciências naturais, segundo o qual “não há mais matéria sem movimento do que movimento sem matéria”: em suma, o materialismo deve aprender a ser dialético, a sair de concepções essencialmente estáticas de materialidade (e essencialmente metafísicas, não materialistas, de espaço, tempo, vazio, etc .; da mesma forma, a dialética deve se materializar e romper com suas origens amplamente idealistas de Platão ou hegeliana). Daí o trabalho fundamental que mais tarde Lênin, lendo e anotando a Grande Lógica de Hegel, este livro que os leitores comunistas superficiais sem dúvida chamariam de “abstruso” e que Lênin considerou ser “o mais idealista e o mais materialista” do grande lógico alemão. Assim, Lênin deu o exemplo – sem poder concluir este estudo, dada a fuga da história – de uma prática filosófica de um novo tipo em que a elaboração de categorias lógicas deve constantemente se cruzar com a reflexão sobre a progresso em nosso conhecimento do assunto … e das inovações da prática revolucionária. Os principais livros de referência sobre esse assunto são o Materialismo e Empirocriticismo e os Cadernos Sobre a Dialética de Hegel, textos de estudo que não serão publicados até muito tempo após a morte de Lênin. Quando tomamos conhecimento dos debates teóricos atuais sobre a ontologia das ciências físicas ou cosmológicas, sem falar nos debates teóricos sobre a economia, só podemos ficar impressionados pela modernidade da abordagem leninista, onde a metodologia dialético-materialista convida, ontem e hoje, a não se opor, por exemplo, à “matéria” à “antimatéria” ou à “energia” ao “vácuo quântico” e que se recusa, por exemplo, a confundir “trabalho produtivo” ou ” o proletariado” tomado em sua essência, com tal modo de existência datado da classe trabalhadora ou do trabalho assalariado…
Estamos, portanto, aqui a milhares de quilômetros de distância, da representação atual de Lênin como um “praticante” puro da “teoria” de Marx, como se este não tivesse sido também um grande organizador prático do proletariado (o fundador especialmente da Primeira Internacional!) e como se, ao contrário, Lênin fosse apenas uma espécie de agitador das paixões populares eslavas … Como Engels, que desempenhará um grande papel na formação da Segunda Internacional (cuja degeneração política ocorreu após sua morte) e que era um verdadeiro estudioso, especialmente em antropologia, e uma espécie de novo enciclopédico (você deve ler e reler sua Dialética da Natureza, inédita durante sua vida) Marx e Lênin foram capazes de aplicar plenamente o preceito da unidade dialética da teoria e da prática: toda a prática marxista é fortemente teórica, sob pena de cair no espontaneismo plano e estéril, assim como toda a teoria marxista se confronta organicamente com a ciência, o desenvolvimento cultural e as lutas pela transformação social.
E o fato de comparar esses gigantes do intelecto com os ineptos escribas que foram Mussolini e Hitler no campo da teoria política, mostra toda a tolice da ideologia conhecida como “anti-totalitária”, que desonra o programa oficial de história de nossas faculdades e escolas secundárias, prontas para todas as amálgamas mais ineptas.

Na economia política:

Lênin não era apenas um leitor rigoroso do Capital. De forma notável, Lênin vislumbrou o futuro do capitalismo mundial na era do capitalismo monopolista que evoluiu para o capitalismo monopolista estatal: enquanto Marx e Engels ainda podiam justamente comemorar a dimensão parcialmente progressista do capitalismo liberal e concorrencial de seu tempo, Lenin entendeu que o capitalismo “moderno”, marcado principalmente pela tendência de queda da taxa de lucro prevista por Marx, agora estava massivamente voltado para a constituição de monopólios capitalistas que manipulavam a concorrência, praticando a exportação maciça de capital, organizando a predominância do capital financeiro, generalizando os saques do Oriente – a China na cabeça -, desencadeando lutas inter-imperialistas cruéis pela repartição colonial do mundo, iluminando intermináveis ​​novas guerras imperialistas (as tendências de luta entre blocos imperialistas prevalecem sobre as tréguas entre impérios rivais: estamos a quilômetros da tola “feliz globalização” de Alain Minc ou das teorias esquerdistas de T. Negri sobre “o Império e a multidão”…). O capitalismo-imperialismo é também a restrição insidiosa ou brutal das forças produtivas (pesquisa técnico-científica canalizada principalmente para a busca do lucro máximo) e a ascensão do parasitismo econômico nas metrópoles imperialistas: a partir de 1916, apoiando-se nas obras de Hobson² , Lênin (Imperialismo, fase superior do capitalismo) demonstrou a tendência fundamental das metrópoles imperialistas de deslocalizar a produção industrial para países com baixos custos salariais, de monopolizar os meios técnicos do poder e de influenciar países ricos, reduzindo ao mesmo tempo o impacto social das classes trabalhadoras e camponesas cuja existência social se baseia no trabalho produtivo (agora estamos no meio de uma explosão desse parasitismo com a quebra do euro da indústria na França e com a vertiginosa ascensão das chamadas camadas “bobos”³ que dão o tom nas grandes cidades da França, notadamente Paris, em publicidade, finanças, comunicações etc.).
Tudo isso resultou na idéia, exposta por Lênin no meio da Guerra Mundial de 14/18, de que o imperialismo é a “reação sob todos os pontos de vista”; tanto que a atual fase imperialista do capitalismo se desvia ou nega, conforme o caso, as orientações ainda que parcialmente progressistas da fase liberal-democrática e anti-feudal da história capitalista (movimento das nacionalidades do século XIX). Não é à toa que a atual burguesia macronista demonize, como nunca antes, Robespierre e Jacobinismo, que, no entanto, deram origem à revolução democrático-burguesa em nosso país …

Mas o imperialismo também é a usurpação do sentimento nacional, em si legítimo e inicialmente progressista (pense nos soldados do ano II…), para disfarçar os objetivos predatórios das oligarquias financeiras; e, ao mesmo tempo, é o aumento duplo da força, do poder que se revela através de:
• formas políticas brutais e bárbaras, abertamente antidemocráticas, de dominação oligárquica (o fascismo ainda não foi dito, mas Engels já havia previsto que, mais cedo ou mais tarde, a humanidade deveria escolher entre socialismo e barbárie …); e
• oportunismo social-democrata e reformista, mesmo – em nosso tempo em que os empregadores estão tentando retirar tudo dos trabalhadores, contra o oportunismo contra-reformista à Laurent Berger: porque a exportação de capital e a superexploração das colônias permitem que as oligarquias capitalistas comprem a paz social nas metrópoles, corrompendo as burocracias políticas e sindicais do movimento operário.


Lenin destacou as principais características políticas do capitalismo contemporâneo

Como parte dessa análise do imperialismo, Lenin destacará várias características políticas importantes do capitalismo contemporâneo:
A lei do desenvolvimento desigual que proíbe os imperialismos de harmonizar suas economias e de se unificar duradouramente entre eles, o capitalismo é essencialmente um modo anárquico de existência de produção e troca; essa lei do desenvolvimento desigual leva periodicamente a “promover” certos imperialismos em detrimento de outros, que são periodicamente rebaixados; e isso inexoravelmente empurra os impérios capitalistas a lutar incansavelmente entre si, como também se unem para combater os povos e as emergentes experiências socialistas, como vimos na época da chamada guerra “fria” e como vemos hoje (entre outras coisas) quando a Europa alemã e os EUA, ainda que rivais em termos monetários e comerciais, unem forças contra Cuba e os países da ALBA, ou ambos pressionam seus calcanhares de ferro sobre a cabeça do povo palestino;
Deste ponto de vista, Lenin entendeu muito rapidamente, tanto contra a ala direita do movimento operário representada por Kautsky como contra a ala esquerda representada por Trotsky (e em parte por Rosa Luxemburgo, contra quem Ulyanov – que muito a admirava – escreveu o panfleto Sobre o direito das nações à autodeterminação, que o futuro não estava de maneira alguma nos “Estados Unidos da Europa”, mesmo que fossem proclamados “socialistas”. Essa Europa federal, que certos pacifistas – atraídos na realidade por um supranacionalismo imperial inconsciente – já promovido durante a Primeira Guerra Mundial, não poderia ser uma solução progressiva para a situação desesperadora de um mundo capitalista cada vez mais bárbaro. “O regime capitalista, dirá Lenin, os Estados Unidos da Europa só poderão ser utópicos ou reacionários”.
Utópicos porque, na realidade, eles não harmonizarão as relações entre os estados federados europeus, mas sujeitarão impiedosamente os mais fracos aos mais poderosos deles (veja como Berlim, por exemplo, tratou Atenas, Lisboa ou Madri nos últimos anos, como “PIGS”, ” Porcos”). Ou francamente reacionário, porque essas potências federativas dos Estados Unidos da Europa de natureza capitalista-imperialista (Alemanha, França, Inglaterra …) podem ser, na melhor das hipóteses, apenas um predador de cartel de bandidos e estados ricos, que esmagam conjuntamente o movimento dos trabalhadores e movimentos de libertação colonial: em resumo, os atuais “marxistas” (como Luta Operária⁴ ou NPA⁵ ), ou pior, os atuais pseudo-“marxistas-leninistas” que tanto lidam com a União Europeia quanto com a saida da UE e a deixam como uma colcha de retalhos política, que se opõem à luta por socialismo, à emancipação dos povos da UE, não entenderam absolutamente nada sobre o leninismo.

São eles que, dialeticamente, se recusam a opor o internacionalismo proletário ao direito das nações à autodeterminação: primeiro porque, na era do imperialismo, a exploração descarada das nações colonizadas, inclusive das nações imperialistas submetidas e pilhado por outras, podem ter um significado anti-imperialista total ou parcial. Daí o complemento trazido pela Internacional Comunista ao famoso slogan do Manifesto Comunista: “proletários de todos os países, povos oprimidos do mundo, unam-se!”. Daí também, em outro nível, o fato de os leninistas franceses da década de 1920 estarem certos em combater a exploração francesa do Ruhr, enquanto a Alemanha não deixou de ser um estado imperialista e, também, os comunistas franceses estavam certos em combater a ocupação alemã de seu país, enquanto o Estado francês ocupado permaneceu estruturalmente imperialista. Daí que foram se fundindo demandas populares anti-imperialistas, antifascistas, anti-racistas, possivelmente socialistas, com as aspirações nacionais legítimas do povo que as grandes batalhas comunistas do século XX, de Stalingrado ao Vietnã, passando pela Iugoslávia (libertada pelos partidários comunistas liderados pelo PCY), pela China (a libertação nacional foi pilotada pelo PCC) ou pela África de língua portuguesa (os libertadores de Angola, Moçambique, Guiné- Bissau, Neto, Machel, Cabral eram todos da cultura comunista), todas essas lutas uniram, de uma maneira ou de outra, combate social com combate patriótico. O próprio Lênin disse que compartilhava o “orgulho nacional dos grandes russos” e se declarou apaixonado pela língua de seu país, obviamente distinguindo nacionalismo (e o social-patriotismo imperialista dos reformistas, que é apenas uma variante) do patriotismo popular: porque o nacionalismo imperialista visa a opressão de povos estrangeiros (e minorias nacionais “internas”), enquanto o patriotismo popular visa libertar as pessoas da opressão imperialista; igualdade e solidariedade entre os povos são, portanto, critérios bastante simples para distinguir o patriotismo popular do nacionalismo, colonialismo, racismo e chauvinismo dos imperialistas. E foi assim que Lênin concebeu a constituição de uma União das Repúblicas Socialistas Soviéticas onde a Rússia não seria predominante, onde cada república federada teria o direito de se destacar da Rússia, e tudo isso na perspectiva declarada de fortalecer o campo socialista e nunca como um incentivo aos separatismos nacionais reacionários (como os vimos tristemente proliferar em 1991 durante o colapso da URSS, a separação contra-revolucionária dos países bálticos, dando poder local aos piores nostálgicos de Hitler!)… e como vemos hoje as forças da UE incentivando-os em vários países, incluindo a França, a deslocar os estados-nação e estimular o estabelecimento do que Bruno Le Maire chama de “império europeu”…
Na política propriamente dita, Lênin era, em seus próprios termos levemente irônicos, um “marxista ortodoxo”, o que não significa um teórico simplista, pois a teoria marxista da revolução é rica e articulada dialeticamente. Ao contrário da ciência política contemporânea, que conhece apenas superficialmente “democracias” e “ditaduras”, o marxismo observa um fato patente que todos os trabalhadores militantes experientes conhecem por experiência: o Estado, incluindo o Estado “democrático” não é “neutro”, entronizado “imparcialmente” acima das classes que lutam. Todo estado é democrático de uma certa maneira (para a classe dominante, inclusive nos períodos de escravidão ou feudal onde todos os tipos de “conselhos” existiam e onde o poder absoluto de um nunca era mais que uma ficção) e ditatorial de outra maneira: de centenas de maneiras ele está lá para “subjugar” as classes dominadas. Segue-se que a transição do capitalismo para o socialismo e o comunismo não pode ser suavemente gradual, totalmente pacífica, contínua, insensível, como acreditam os reformistas e o revisionismo moderno (por exemplo, os líderes do PCF, a partir da década de 1980, sempre falam “avançar passo a passo em direção ao socialismo de autogestão” e outras baboseiras para crianças sábias. O poder de uma classe social ou de um grupo de classes sobre outra classe social ou sobre outro grupo de classes não são compartilhados compartilham, segue-se que a transição de um modo de produção para outro só pode ser um tombamento (no sentido de derrubada – NT). Portanto, uma revolução sociopolítica, qualquer que seja sua forma (mais ou menos pacífica, dependendo do caso) será potencialmente mais violenta que as relações de poder nacionais ou internacionais e, acima de tudo, que a resistência da classe social que está sendo despejada será mais desfavorável para ela.
Consequentemente, como Marx já havia apontado em sua análise crítica da Comuna de Paris (Guerra Civil na França), a classe trabalhadora em revolução não pode se contentar em somente recuperar o aparato estatal burguês, incluindo a polícia, o exército, a justiça, o funcionamento institucional e até o que Althusser, seguindo Gramsci, nomeará os aparatos ideológicos do Estado (aparatos religiosos, escola burguesa, mídia como se diria hoje, mas também aparatos publicitários, etc.) são intrinsecamente moldados por e para as demandas de dominação (a classe dominante deve fornecer os serviços públicos essenciais para o funcionamento geral da sociedade e a manutenção de um mínimo de consentimento social, mas mesmo esses requisitos são negligenciados pelo imperativo categórico da dominação). Então você tem que “quebrar o estado burguês”. Isso não significa demitir funcionários públicos – cada passagem dos comunistas para o governo os tornou seguros em seus empregos e liberdades profissionais (estatuto de Thorez, estatuto de Le Pors…) – mas que todos esses aparatos estatais devem ser revolucionados para apropriação das classes trabalhadoras, pois é verdade que, como diria o filósofo comunista francês Georges Politzer, “a nação é o povo”.
Consequentemente, a revolução se funde com, por um lado, a conquista do poder do Estado (que não se reduz à vitória do Partido Comunista nas eleições), por outro, a nacionalização democrática (caminhando para a socialização propriamente dita) dos grandes meios de produção, com o poder dos trabalhadores (o que os clássicos do marxismo chamaram de ditadura do proletariado) e com a revisão do aparato estatal, para que os trabalhadores estejam concretamente em posição de impor decisões que são favoráveis ​​a eles e monitoram sua execução. Também vemos ao mesmo tempo que não há muro chinês separando a revolução socialista e a construção do comunismo o que Lênin apresenta como objetivo a partir da tomada do poder (ver, por exemplo, as famosas Teses de abril de 1917, escritas enquanto Lênin ainda estava no exílio). O comunismo, ou seja, esse objetivo concreto em relação ao qual o socialismo é constantemente levado a superar-se sob o risco de regredir e implica a transição de uma lógica de lucro máximo para uma lógica de satisfação de necessidades sociais, de uma economia de mercado anárquica para uma sociedade planejada democraticamente (Lênin fala da “sociedade de cooperadores civilizados”), de uma distribuição baseada no princípio: “de cada um de acordo com seus meios para cada um de acordo com suas necessidades” (que inspirará o estabelecimento da Seguridade Social, construído por A.Croizat) e de uma sociedade de plano aberto, onde a divisão em classes opostas deixará de ossificar o corpo social e onde “o desenvolvimento de cada um será a condição desenvolvimento para todos ”.

Em uma sociedade como essa, o definhamento do Estado – incluindo o Estado socialista porque ainda é separado da sociedade – não é apenas um alvo distante, é uma tarefa concreta de cada momento e que O Estado e a Revolução (escrito no meio da revolução de 1917!) descreve a lógica implacável. Para dar apenas um exemplo, no meio de um “período especial”, quando a Rússia de Yeltsin se acumpliciava com o imperialismo dos EUA para estrangular Cuba, a liderança comunista do país “colocou o pacote” na educação completamente grátis, com assistência médica totalmente gratuita, com a partilha dos alimentos remanescentes (o país estava de fato sitiado) e com o transporte remanescente: dessa maneira, o objetivo comunista de Cuba permaneceu concretamente vivo para a população enquanto que, economicamente falando, a escassez se instalou e a produção caiu 40%. E, como sabemos, os últimos textos de Lênin, baleado e gravemente enfermo, foram ambos para iniciar a construção do socialismo na URSS (“o socialismo em um país” não é uma invenção maligna de Stalin!) e construir a Internacional Comunista, convocar para coletivizar e proletarizar ao máximo a liderança do partido e do Estado, estabelecer a “Inspeção dos Trabalhadores e Camponeses” (a fim de combater o estatismo e a burocratização), recusar a militarização dos sindicatos e produção que Trotsky propôs, insistir na igualdade das repúblicas federadas da URSS (nesse nível, Lenin se opôs a certas iniciativas de Stalin e Ordjonikidzé) e solicitar um amplo desenvolvimento da iniciativa comunista das massas (A grande iniciativa, Cooperação).
Se a história da URSS posteriormente viu o desenvolvimento do estado, o Exército Vermelho (incluindo sua dimensão profissional) e formas incontestáveis ​​de burocratização (que os sucessores de Lênin denunciaram, lutaram contra … ou que não lutaram contra, vejam, a esse respeito, o capítulo III do meu livro Mondialisation capitaliste et projet communiste, publicado em 1997 pela editora Le Temps des cerises, e intitulado Para uma análise revolucionária da contra-revolução: que não posso desenvolver aqui), esses desenvolvimentos não foram de forma alguma inscritos na matriz teórica do marxismo e leninismo: eles tinham essencialmente a ver com as condições muito severas e tendenciosas em que a primeira experiência histórica de construção de uma sociedade socialista teve que se desdobrar: a União Soviética estava de fato constantemente cercada e ameaçada por um mundo capitalista agressivo que lhe impôs restrições terrivelmente estressantes e distorcidas: intervenção militar de 18 países, das forças imperialistas durante a Guerra Civil de 1917/1921, a invasão exterminadora de Hitler (entre 25 e 30 milhões de mortos!), depois o “equilíbrio à beira do abismo” mantido pelo imperialismo dos EUA, único instigador de todas as guerras e da corrida armamentista nuclear iniciada pelo bombardeio atômico do Japão.
Não é possível para mim aqui, por falta de tempo e espaço, desenvolver uma análise do que aconteceu com as orientações leninistas na URSS e na Internacional Comunista após a morte de Ulyanov, e portanto me contentarei em reafirmar aquilo que eu desenvolvi centenas de vezes em outros lugares: não é por excesso, mas por omissão do leninismo, que a URSS, o campo socialista e o Movimento Comunista Internacional entregaram aos desvios ideológicos cruzados do oportunismo de direita (incluindo, finalmente, o eurocomunismo e o gorbachevismo) e o oportunismo de esquerda (dos quais a cooperação anti-soviética e anti-vietnamita da chamada China maoísta do final da década de 1970 ofereceu um triste exemplo) acabaram sucumbindo ao declínio de 1989/91. Basta dizer aqui que todas as pesquisas realizadas na Rússia desde 1991 mostram que, esmagadoramente, os russos lamentam a perda do socialismo, a experiência dos dois sistemas sociais. Por que os russos seriam piores juízes sobre o assunto, aqueles que experimentaram o socialismo concreto e a restauração capitalista – a superioridade do socialismo (por mais distorcida que tenha sido, essa é outra questão) em relação ao capitalismo; exceto, é claro, a minoria de “novos russos” mimados pelo Ocidente que engoliu a privatização de propriedades e terras públicas?

A necessidade do Partido Comunista e sua eficácia através do centralismo democrático: lições aprendidas por Lênin com a experiência

Um ponto importante na construção teórico-política coerente do leninismo é a teoria do partido. Ao contrário do que é dito por um certo número de “marxianos”, se não marxistas, a teoria bolchevique do partido está alinhada com a concepção marxista clássica do partido comunista.
Marx e Engels partiram do fato óbvio de que os trabalhadores serviam constantemente como bucha de canhão para revoluções burguesas (especialmente na França: durante a revolução democrática burguesa, em 1830, em 1848 …), que eles se deixavam, heroicamente, matar pela República “social”, apesar disso, uma vez que a fração republicana da burguesia se instalou no poder, ela se voltou regularmente contra o proletariado que massacrou não menos massivamente (pense nos milhares de trabalhadores mortos baleados em junho de 1848 pelo general “republicano” Cavaignac). Para que isso não fosse mais o caso, era necessário criar um partido operário independente de qualquer burguesia e de qualquer pequena burguesia.
Na época de Marx, ainda estávamos no processo de reagrupar todos os segmentos existentes do movimento trabalhista ainda difusos e dispersos. Mas, muito rapidamente, o próprio Marx deu-se conta do quanto, por exemplo, o anarquismo, herdeiro de Proudhon e ossificado por Bakunin, poderia se tornar um fermento contínuo de decomposição e derrota, dividindo e desorganizando o movimento operário bastando cultivar a indisciplina e o culto ao grande senhor do “eu-eu” quando ele está à sua frente, não apenas o grande patronato, mas um aparato estatal armado e organizado de maneira superior.
Essa necessidade de organizar-se de maneira mais sólida será uma das razões, especialmente após o esmagamento da Comuna, para organizar a Segunda Internacional na qual o marxismo começou a prevalecer decisivamente sobre o anarquismo, especialmente na Alemanha. Mas, desde seu início a Segunda Internacional, contemporânea com a ascensão ao poder do imperialismo, o que facilitou a ascensão do oportunismo no movimento operário, deu sinais de submissão ao parlamentarismo burguês e sabemos o que aconteceu, quando em 1914, o socialismo afundou em todos os lugares, exceto na Rússia e na Bulgária, com a união sagrada de cada partido “socialista” com o imperialismo de “seu” país.
É dessa consideração fundamental, e não se sabe qual é o “autoritarismo” visceral, que deriva a teoria do centralismo democrático, cujas referências iniciais são, além disso, menos “marxistas” e “leninistas” do que jacobinos e “girondinos”. De fato, durante a Revolução Francesa, foi a esquerda burguesa, perto dos sans culottes⁶ parisienses (o setor mais popular e combativo da revolução), que defendeu o centralismo democrático (a idéia de uma república única); e indivisível, cuja lei era a mesma para todos em todo o território) contra a ala direita dos Girondinos, da grande burguesia provincial que desconfiava do proletariado parisiense e queria preservar o domínio da rica burguesia no nível provincial.
Mas, ainda mais profundamente, a necessidade de centralismo democrático surgiu da observação de que a classe proletária não poderia se tornar intelectual e praticamente independente da burguesia e da pequena burguesia sem adquirir um partido fortemente organizado, ancorado no mundo do trabalho, cimentado pela análise científica da realidade (portanto crítica dos estratos burgueses que monopolizam o “debate público”).
De fato, uma observação fundamental do marxismo – cada uma das quais mede as notícias diariamente para o triste espetáculo do surto da mídia que estamos passando – é declarada na Ideologia Alemã, onde é corretamente observado que “em qualquer sociedade dividida em classes sociais, pensamentos dominantes são os pensamentos da classe dominante, porque a classe que possui os meios materiais de produção também possui os meios de produção espiritual ”. Tanto que o partido da classe trabalhadora não pode ser um conglomerado amorfo de tendências díspares, elegendo suas lideranças e fixando suas orientações de acordo com as modas e a imagem de seus líderes que a mídia forja nas mãos da burguesia (“primária”) do PS, por exemplo: se for esse o caso, é a burguesia que terá um bom jogo de fazer chover e fazer bom tempo nos chamados partidos dos trabalhadores, como vimos há mais de 100 anos nos partidos “Socialistas”, onde os “currais” disputavam o aparelho sob a arbitragem interessada da mídia.

Para que a classe trabalhadora domine em seu próprio partido, em seu sindicato de classe, em suas atividades de lazer, isto é, seja o MESTRE EM SUA CASA, ou seja, livre, intelectualmente independente e em condições de dirigir a sociedade, ela deve adquirir uma teoria revolucionária que expresse suas análises, seus objetivos de classe e sua filosofia de existência: esta é a famosa frase de Lenin “não há movimento revolucionário sem teoria revolucionária” ( O que fazer? 1902). E obviamente também é necessário que dentro do partido não sejam os “grandes eleitos” – e através deles as instituições burguesas -, os líderes autoproclamados, os tribunos por um dia, os queridinhos da mídia, que faça a chuva e o bom tempo, mas os CONGRESSOS do partido apresentando as perguntas francamente, maioria contra minoria, as direções eleitas sendo colegiadas, os órgãos do partido dependentes do referido partido, os sindicatos dependendo apenas das finanças e mandatos de seus membros (e não, por exemplo, subsídios da União Europeia via Confederação Europeia de Sindicatos!). Isso permite, além disso, que a disciplina da ação funcione e as decisões tomadas a serem aplicadas por todos, incluindo a minoria, mesmo que seja para ser revisada no próximo congresso se novos elementos aparecerem.
É por isso que, se partimos de seu conceito com base na natureza das coisas, e não de quem sabe o que é “bonapartismo operário”, como muitos livros escolares dizem tolamente, o centralismo democrático é um princípio de liberdade e autonomia para a classe trabalhadora que pode, tanto em seu pensamento autônomo quanto em sua ação disciplinada e concentrada contra o inimigo de classe, deixar de ser uma massa de manobra para as classes dominantes e se tornar um ASSUNTO CONSCIENTE de sua história e o de seu país, ou mesmo de toda a humanidade, através da construção de uma Internacional Comunista democraticamente centralizada. Assim, apesar das aparências, os bolcheviques (“partidários da maioria” em russo) mobilizaram um entusiasmo extraordinário nas classes populares da Rússia e depois em todo o mundo; porque, pela primeira vez, os trabalhadores e os camponeses tiveram o sentimento justificado pelas PRÁTICAS de que finalmente dispunham de um PARTIDO DELES, UM SINDICATO DELES, um meio de existirem juntos como um poderoso e magnífico NÓS, formidável e indestrutível onde sempre “os comunistas fizeram o que disseram e disseram o que fizeram”. O que foi confirmado em geral, apesar das inevitáveis ​​revoltas da história, as imensas vitórias de 17 de outubro de 1945 (a URSS foi, de longe, o principal vencedor militar do Reich), de 1949 (Pequim), desde 1975 (Saigon), etc.; para não mencionar, em uma escala mais modesta, os avanços emancipatórios (parciais, mas revigorantes) da Frente Popular Francesa ou as grandes conquistas de 1945, realizadas por Thorez, Duclos, Croizat, Paul, Valônia, etc. Enquanto sob o nome de “liberdade de crítica”, de intermináveis ​​conversas, o partido pequeno-burguês do “menchevique” Martov não trouxe à classe trabalhadora a independência política que buscava, mas subordinação ao contador revolução e imperialismo. Isso foi confirmado por toda a história da social-democracia ocidental, depois pela reunião vergonhosa dos eurocomunistas ocidentais (líderes do PCI, PCE e, infelizmente, o PCF nas décadas de 1970/80/90) para “Construção” européia, “reunificação” alemã, contra-revolução na URSS. Nesse espírito de capitulação vestido com “inovações teóricas”, Enrico Berlinguer (líder do PC italiano) chegou ao ponto de prometer que um governo com participação comunista não sairia … da OTAN!
Vamos resumir: inseparável da ancoragem nas lutas proletárias e na teoria científica de Marx, o centralismo democrático é apenas secundariamente uma questão de disciplina e boa organização: primeiro, é o meio para a classe dominada romper as cadeias da dominação espiritual burguesa e poder marchar “contra a corrente”, contra a ideologia dominante; indispensável para que o partido da vanguarda seja capaz de frustrar as armadilhas impostas pelo adversário, de antecipar, de se recuperar de derrotas, a fim de unir toda a nação e toda a humanidade industriosa por trás da classe proletária e vencer com o tempo o formidável inimigo mortal da humanidade que é o imperialismo.


Conceito político leninista em oposição a um obreirismo estreito, de modo que a classe trabalhadora esteja no centro
Consequentemente, não há obreirismo estreito na concepção política leninista. Porque Lênin, sendo dialético, nunca opôs a construção severa e exigente do Partido Comunista, contra a formação de amplas frentes populares, democráticas e pacíficas, destinadas a isolar o principal adversário. O leninismo, diferentemente da caricatura da dogmática sectária, não é de modo algum o ataque frontal imediato e permanente dos batalhões de trabalhadores contra todas as cidadelas capitalistas, como se estivéssemos sempre às vésperas de agredir o Palácio de Inverno. Tal é a infeliz obra do trotskismo que, desde o início do século, subestimou a aliança de trabalhadores e camponeses russos, essenciais para derrubar o czarismo e estabelecer uma república democrática, desde que essa luta democrática fosse liderada pelo proletariado, e não subcontratado por ele (tal era a posição dominante menchevique) ao partido burguês “constitucional- democrático” (os “cadetes” / KD nas iniciais russas). Nem subordinação à ala esquerda da burguesia sob o disfarce de “ampla união anti-czar”, nem ao isolamento que levasse ao esmagamento do proletariado. É por isso que o leninismo não é um sectarismo da classe trabalhadora, nem uma máquina para rejeitar o voto dos trabalhadores contra os partidos da esquerda burguesa, como faz o atual Partido da Esquerda Europeia, este pilar esquerdo da Europa Maastrichtiana. Em resumo, o leninismo nos ensina a construir um partido de classe sólido, teoricamente educado e altamente organizado, capaz de unificar solidamente sua classe, de vinculá-la ao sindicalismo de luta e a todas as correntes de vanguarda da sociedade (incluindo científica, artística, cultural em sentido amplo), não para isolar os proletários, mas para colocá-los no centro do problema político nacional e mundial, para permitir que, país por país, “se tornem a nação” (como já convidava o Manifesto Comunista) e globalmente, para se tornar o que Marx chamou de“ humanidade social ”. Identificado e organizado não para recuar, mas federalizar sua classe, uni-la a todos os outros estratos anti-oligárquicos, liderar a luta contra o grande capital e direcioná-la para o socialismo-comunismo, conquistar a liderança de cada nação sem restringir os outros estratos populares (os temas gramscianos da hegemonia cultural não rompem de maneira alguma o leninismo. Vejam o artigo de Lênin intitulado Sobre o Significado do Materialismo Militante, vejam também seus inúmeros escritos sobre arte e literatura, e mais, a prática extraordinariamente flexível e inventiva da construção cultural, que foi a de Anatoly Lounatcharski, o primeiro comissário do povo para a educação pública, mas fazendo-os trabalhar em conjunto com o objetivo o mais progressista possível: esta é a perspectiva construtiva e potencialmente sempre vitoriosa do leninismo.
É apenas para ver o quanto os atuais “movimentismos” e outros “espontaneismos”, todos animados por uma polêmica implícita contra Lênin, não “mantêm distância”: falta de ferramentas marxistas e verdadeira democracia interna sujeitando a minoria à maioria (em aplicação do princípio da igualdade: um homem, um voto), eles regularmente se deixam desviar por suas correntes mais européias. Na França e em outros lugares, não é o movimento espontâneo das massas que mais falta; mas verdadeiros partidos de vanguarda democraticamente ligados às massas. Incluindo o movimento espontâneo das massas que o leninismo nunca rejeitou desde que o objetivo da insurreição bolchevique de 1917 era entregar todo o poder aos sovietes dos trabalhadores e camponeses. Modesta confirmação francesa e atual: ao contrário de outros, incluindo os pretensos “movimentistas” que fizeram tudo ao contrário sobre o assunto, os leninistas da PRCF apoiaram imediatamente os “coletes amarelos” sem a pretensão de lhes dar aulas, tentando aprender com a experiência deles que trouxeram traz a experiência do movimento operário organizado…


Conclusão
Ainda há mil coisas a dizer e posso ver o quão rápido e incompleto é este artigo, mas atualmente não tenho tempo e espaço para ir além. Também me permito mais uma vez, de maneira indecorosa, referir o leitor que quer ir mais longe ao meu livro O Novo Desafio Leninista, ou ao O Ensaio ou aos dois últimos capítulos do Iluminismo Comum, um tratado sobre filosofia geral à luz materialismo dialético (Delga, nova edição, 2020, último volume intitulado “Fim(s) da história”). Por fim, convido, em particular, os visitantes do site Iniciativa Comunista a não fazerem de Lênin uma leitura atemporal e a comparar a leitura de suas Obras completas, em particular a das obras mencionadas neste artigo, a lembrar que Lenin definiu o espírito do marxismo como “análise concreta de uma situação concreta” e, nesse espírito, tomar nota da resolução que a 5ª conferência nacional da PRCF adotou sobre questões contemporâneas em junho passado: cabe a eles confrontar este texto com realidades em movimento, se a ambição da PRCF de ajudar a reconstruir uma organização de vanguarda corresponde ou não a uma realidade.

1 Refere-se a Friedrich Wilhelm Ostwald, tido como pai da Físico-Quimica, Prêmio Nobel de 1908 em Química, escreveu “A Energia”, onde propõe que todos os fenômenos, naturais, psicológicos, sociais, etc. poderiam ser entendidos como transformações da energia. NT

2 John Atkinson Hobson, economista inglês, escreveu sobre o imperialismo e, de certa forma, influenciou Lênin e Keynes. NT

3 “Bobos” – expressão francesa para designar um grupo social que posa como esquerdista, equivalente a nossa expressão “socialista de salão”. NT

4 Luta Operária (Lutte Ouvrière) é o nome pelo qual se conhece o partido trotskysta francês Union Communiste (União Comunista). NT

5 NPA abreviatura de Noveau Parti Anticapitaliste (Novo Partido Anticapitalista) criado pela LCR (LigaComunista Revolucionária), trotskysta, membro da IV Internacional, extinto em 2009).NT

6 Sans cullote (sem culotes) expressão para designar a parte trabalhadora e pobre da população que não usava cullotes, uma espécie de calça usada pela nobreza e burguesia.

Fonte: https://www.initiative-communiste.fr/articles/culture-debats/pour-son-150e-anniversaire-lenine-plus-actuel-que-jamais-des-enseignements-au-nouveau-defi-leniniste-par-georges-gastaud/

Mobilização histórica. Dezembro de 2019 superior a 1995! Os números #Grevede5dedezembro #GreveGeral

Marselha – 16h. Trens, metrôs, ônibus, RER parado (trens regionais), 7 de 8 refinarias em greve renovável, 3/4 professores universitários e de escolas secundárias em greve, metade das escolas primárias fechadas, 1 terço dos funcionários públicos em greve, milhares de greves no setor privado … A greve é geral em 5 de dezembro. Ao meio-dia, a SNCF (Société Nationale des Chemins de fer Français = Sociedade Nacional dos Caminhos de Ferro Francesa) e a RATP (Régie Autonome des Transports Parisiens = Empresa Pública Autônoma dos Transportes Parisienses) anunciaram a continuação da greve até segunda-feira inclusive. Martinez, o líder da CGT, afirma “a greve continua”.
E nas ruas as manifestações são enormes, apesar das dificuldades de transporte.
Os números: mais de um milhão de manifestantes!
Segundo nossa contagem parcial em 58 cidades da França, havia pelo menos 1.160.000 manifestantes nas ruas em 5 de dezembro. a contagem completa da CGT conta 1,5 milhão de manifestantes.

  1. Paris : 250 000
  2. Marseille : 180 000 manifestants
  3. Toulouse 100 000
  4. Bordeaux : 50 000
  5. Lille : 40 000
  6. Lyon : 40 000
  7. Rouen 40 000
  8. Limoge 30 000
  9. Nantes : 30 000
  10. Grenoble : 30 000
  11. Le Havre : 25 000
  12. Caen : 20 000
  13. Montpellier 20 000 *
  14. Clermont Ferrand :30 000
  15. Rennes 15 000
  16. Avignon 15000
  17. Perpignan : 13 000
  18. Toulon 15 000
  19. Pau 14 000
  20. Nice 15 000
  21. Brest 15 000
  22. Bayonne : 10 00
  23. Lorient : 10 000
  24. Niort 10 000
  25. Metz 10 000
  26. Strasbourg 10 000
  27. Quimper 10000
  28. Dijon 10000
  29. La Rochelle 10 000
  30. Angers 9200
  31. Besançon 9 000
  32. Amiens 8000
  33. Chateauroux 8000
  34. Périgueux 7500
  35. Tarbes 7 000
  36. Angoulème 7000
  37. Valence 6 500 *
  38. Montauban 6 000
  39. Bézier 5500
  40. Nancy 5000
  41. Compiègne 5000
  42. Saint Denis La Réunion 5000
  43. Arras 4 000
  44. Auch 4 000
  45. Albi 4 000
  46. Carcassonne 4 000
  47. Morlaix 4000
  48. Boulogne sur mer 3500
  49. Troyes 3000
  50. Sète 3000
  51. Vichy 2 500
  52. Gueret : 2500
  53. Mulhouse 2500*
  54. Calais 2 100
  55. Douai 2000
  56. Draguignan 2 000
  57. Montélimar 1700*
  58. Creil 1500
  59. Abbeville 800
  60. Brignoles 700
  61. Muret 500

*cifras da prefeitura
Estimativa parcial e independente do Le Nombre Jaune (O número amarelo, organização que faz estatísticas sobre manifestações públicas): 1 143 450 (de manifestantes).
PRCF (Polo de Renascimento Comunista em França) claramente visível em Paris, circulando na TV BFM.

No jornal das 20H da França 2, todos poderão ver os cartazes da PRCF pedindo para interromper a reforma previdenciária por pontos, apresentados pela PRCF Ile de France. É o resultado (referindo-se aos cartazes) de uma montagem militante maciça.

A presença organizada e sólida da PRCF Ile-de-France também marcou preença na tela da TV BFM na tarde de 5 de dezembro. Não podemos falhar com os camaradas do canal de notícias continuas, as bandeiras vermelhas com os símbolos do PRCF e a faixa vermelha pedindo “toodos juntos ao mesmo tempo”.


Reportagem fotográfica no evento em Marselha
O desfile dos manifestantes começou a se unir no antigo porto da prefeitura e começou a marcha. O cortejo tinha uma extensão de mais de 5 km.


Fonte: https://www.initiative-communiste.fr/articles/luttes/mobilisation-historique-decembre-2019-plus-haut-que-1995-les-chiffres-grevedu5decembre-grevegenerale/
Tradução: Os Internacionalistas

A CRISE NA BOLÍVIA

Por Humberto Carvalho

Depois de uma era de governos progressistas na América Latina (Lula no Brasil, Cristina Kirchner na Argentina, Jose Mujica no Uruguai, etc.), o imperialismo norte-americano entendeu indispensável a recolonização da América do Sul e colocá-la sob o tacão imperialista. Essa recolonização não foi feita de uma vez só, realizou-se aos poucos, não utilizando tropas americanas e também quase não se valendo de militares dos países em que ocorreram golpes. Usaram as instituições civis para os golpes, numa verdadeira lawfare que, como se sabe, é a utilização das leis dos países objeto de golpes como instrumento de guerra.
Aconteceu, então, um golpe de estado em Honduras, com a deposição do Presidente Manuel Zelaya no ano de 2009, por uma lawfare que resultou em seu impeachment.
A seguir, houve a deposição do Presidente Fernando Lugo do Paraguay em 2012. Seu processo de impeachment durou menos de 36 horas.
Depois, foi a vez do Brasil com o processo de impeachment da Presidente Dilma Russeff, em 2016. Pela lei brasileira as irregularidades contábeis cuja prática era a base da acusação contra Dilma não constituem crime de responsabilidade capaz de ensejar um impeachment. Mas, a lawfare se impôs. Então, foi um golpe e não um remédio constitucional como proclamado pela direita brasileira.
Não ocorreu golpe contra a Presidente Cristina Kirchner, na Argentina, porque nas eleições de 2015, seu Partido Justicialista (Peronista) se dividiu, permitindo a vitória do neoliberal Maurício Macri. Imediatamente, Obama, então Presidente dos EUA, apontou Macri como líder da América do Sul.
Em maio de 2018, elegeu-se Presidente do Chile, o também neoliberal Sebastian Piñera.
No Brasil, em 7 de abril de 2018, o ex- Presidente Lula foi preso, em virtude de condenação num processo sem provas, para afastá-lo da candidatura à Presidência nas eleições que ocorreram em outubro e novembro de 2018.
Nessas eleições, em segundo turno, foi vitorioso o fascista Jair Bolsonaro utilizando as mesmas técnicas (como fake news, etc.) que foram utilizadas nas eleições de Trump.
Bolsonaro usou, ainda, o mesmo conselheiro eleitoral de Trump nas eleições brasileiras. Quando assumiu a Presidência, Bolsonaro viajou aos EUA , onde ficou caracterizada a sua submissão vergonhosa aos americanos.

É preciso lembrar, ainda, as tentativas de deposição do Presidente Maduro, da Venezuela, realizadas por Juan Guaidó, com o respaldo do imperialismo e seus agentes como os governos de Bolsonaro do Brasil, de Ivan Duque Marquez da Colômbia, de Sebastián Piñera do Chile, de Mario Abdo Benitez do Paraguai que, nos inícios de 2019, estavam resolvidos a invadir, militarmente, a Venezuela e depor o Presidente Maduro.
Isto não ocorreu devido a garantia da Rússia de dar suporte militar em caso de invasão da Venezuela e do apoio do povo venezuelano ao seu Presidente.
O imperialismo não contava, entretanto, com a eleição de um progressista, Andrés Lopes Obrador, no México, que ficou temporariamente isolado, diante das vitórias eleitorais das elites reacionárias em diversos países da América Latina, com o suporte yankee.
Recentemente, no Uruguai a Frente Ampla foi derrotada nas eleições presidenciais. Por uma margem de 35 mil votos ganhou o conservador Lacalle que já prometeu uma mudança total nas relações do Uruguai com a Venezuela.
Dessa maneira, o cerco imperialista e das direitas na América do sul se fechou, encurralando as forças progressistas no continente.
Mas, preciso voltar à Argentina porque, no meu modo de ver, a Argentina é uma das peças chaves para se entender a crise da Bolívia.
O governo de Maurício Macri, com suas políticas neoliberais, fracassou redondamente.
A dívida externa argentina aumentou, comprometendo grande parcela de seu PIB; a pobreza e a miséria chegaram a patamares inimagináveis para um país opulento, com grandes recursos naturais; o peso, moeda nacional da Argentina, foi desvalorizado como nunca antes tinha ocorrido; Macri se submeteu aos ditames do FMI e levou a economia argentina ao caos, com a desindustrialização e o desemprego.
Nessas circunstâncias, nas eleições presidenciais de 2019, o Partido Justicialista se uniu, por obra de Cristina Kirchner, e obteve uma estrondosa vitória sobre Macri, já no primeiro turno das eleições presidenciais, elegendo o progressista Alberto Fernandez para a Presidência e Cristina Kirchner para a Vice-Presidência.
É nessa vitória que reside uma das chaves para se entender o que acontece na Bolívia. O imperialismo precisa isolar a Argentina (segundo os imperialistas, um péssimo exemplo para a América do Sul). A vitória eleitoral de Evo Morales não deixaria a Argentina isolada, contando ainda com a Venezuela, México e Cuba. O novo governo argentino assumirá suas funções em 10 de dezembro deste ano. E certamente se aproximará da Rússia e da China para sair do caos econômico deixado por Macri. Então, os EUA precisam isolar a Argentina e para isso precisavam derrubar Evo Morales.
A outra chave para se entender o golpe na Bolívia é o lítio, uma das grandes riquezas minerais do país.

A Bolívia, desde os tempos coloniais, é um país onde a mineração tem uma expressiva presença na economia boliviana.
As políticas de Evo Morales entraram em conflito com as empresas multinacionais de mineração. A suspensão de contratos onerosos para o país e o esforço por um controle desse setor econômico levaram a Bolívia a inúmeros processos de arbitragem internacional.
Em 2008, depois de uma tentativa frustrada de golpe, a Bolívia expulsou o embaixador americano, Philip Goldberg, e em 2013, expulsou a USAID (Agencia Americana para o Desenvolvimento Internacional). Assim, caiu vertiginosamente a “ajuda” americana à Bolívia, com exceção ao ano de 2015, coincidindo com os meses que antecederam o referendo constitucional de fevereiro de 2016.
O lítio, como se sabe, é um metal alcalino estratégico para o desenvolvimento tecnológico. E é uma alternativa energética para os meios de transporte. Segundo estudos da empresa americana SRK as reservas de lítio na Bolívia estão em torno de 70% das reservas mundiais. Essas reservas se concentram no Departamento (oblast) de Potosí que faz fronteira com o Chile e a Argentina. E nessa tríplice fronteira estariam 85% das reservas mundiais de lítio. Daí o interesse econômico do imperialismo em controlar essa região.
Embora tenha sido criada uma empresa estatal boliviana para desenvolver a indústria do lítio, grandes inversões de capitais são necessárias. Então, em condições paritárias, a Bolívia fez um acordo com a empresa ACI Systems Alemanha (ACISA) para desenvolver a indústria. Também, fez um acordo com as empresa chinesas TBEA Group e a YLB para extração do lítio. O acordo coma China desagradou ao imperialismo yankee.
Vistas essas questões chaves podemos entender os motivos políticos e econômicos do interesse do EUA num golpe de estado na Bolívia porque o governo de Evo Morales era um obstáculo à voracidade do imperialismo.
A direita boliviana, os governos reacionários da América do Sul e o imperialismo insistem em dizer que Evo Morales renunciou e então o que aconteceu na Bolívia não teria sido um “coup d´état”.
A definição de golpe de estado é a destituição forçada de um chefe de estado. Evo Morales foi forçado pelo exército e pelas forças policiais a renunciar sob pena de uma guerra interna sangrenta e do risco de Evo perder a própria vida. Então, o que ocorreu foi um golpe de estado e não uma simples renúncia. O que prova, também, a ocorrência de um golpe foram as sucessivas renúncias do Vice-Presidente, do Presidente da Câmara e do Presidente do Senado que seriam os sucessores previstos na constituição boliviana em caso de vacância da presidência de Evo Morales. Todos foram forçados a renunciar.

A Bolívia tinha um crescimento econômico superior a 5% ao ano, nos últimos tempos.
O ciclo, que já foi chamado de “milagre econômico boliviano”, começou em 2006, quando Evo Morales chegou ao poder.
Uma das primeiras e principais medidas de Evo Morales foi a nacionalização do petróleo e do gás natural. Parte das empresas privadas foi transferida para as mãos do Estado. As multinacionais tiveram que renegociar os contratos com a estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos para continuarem operando no país e passaram a pagar mais para explorar jazidas.
Multinacionais, empresas privadas e estatais convivem na Bolívia em um modelo de crescimento ancorado na exploração dos recursos do setor de óleo e gás — que, para alguns, vem dando sinais de esgotamento.
A onda do boom de commodities que sustentou o crescimento de parte da América Latina até a crise financeira de 2008 também passou pela Bolívia e trouxe uma melhoria sem precedentes nas condições de vida de milhões de bolivianos.
Esse período de bonança da economia boliviana foi aproveitado, através de uma política fiscal expansionista, para financiar as políticas de transferência de renda e os programas que reduziram a miséria no país quase pela metade. O percentual da população abaixo da linha de pobreza na Bolívia caiu de 63% para 35% entre 2005 e 2018, de acordo com o Banco Mundial.
Apesar desses avanços sociais e econômicos que beneficiaram o país e o povo, ocorreu o golpe.
A crise atual da Bolívia se verificou em dois momentos distintos. O primeiro deles foi a contestação, pela oposição, dos resultados nas eleições presidenciais deste ano, onde Evo foi vitorioso. A oposição dizia ter ocorrido fraude nos resultados e exigia a presença da OEA (Organização dos Estados Americanos) para fiscalizar a recontagem dos votos, a auditoria das eleições. Evo, confiante na inexistência de fraude, aceitou a presença da OEA para esses fins. A OEA, subordinada ao imperialismo americano, afirmou a existência de fraude eleitoral, como era de se esperar. Iniciaram-se, então, conflitos entre as forças do governo de Evo e a militância da oposição que não foram reprimidos de forma violenta. Via-se em vídeos desse período a presença apaziguadora das forças de segurança, enquanto as forças da oposição buscavam a violência e o vandalismo.
Nesse clima de extrema violência, por parte da oposição, dominando as ruas das principais cidades da Bolívia, o general Williams Kaliman, comandante das Forças Armadas da Bolívia, exigiu a renúncia de Evo Morales e dos seus sucessores previstos constitucionalmente. Para evitar derramamento de sangue e garantir sua sobrevivência, Evo renunciou e teve de exilar-se no México.
Kaliman, em 2003, fez o curso de Comando e Estado Maior na Escola das Américas/WHINSEC do exercito americano. Também, foi adido militar na embaixada da Bolívia nos Estados Unidos. Segundo a Wikipedia, Kaliman recebeu um milhão de dólares e um visto de residência permanente nos EUA através do Encarregado de Negócios da Embaixada dos EUA em La Paz, capital da Bolívia, sr. Bruce Willianson.

72 horas após o golpe, Kaliman se transferiu para os EUA, abandonando a Bolívia.
Após as renúncias do Vice- Presidente e dos Presidentes do parlamento, contrariando a constituição boliviana, a segunda secretária do senado boliviano, senadora Jeanine Áñez se auto proclamou Presidente da República. Introduziu de imediato a bíblia no parlamento, misturando política e religião. E passou a perseguir os seguidores de Evo e a controlar o ingresso de estrangeiros que poderiam apoiar as manifestações pro-Evo.
O segundo momento da situação da Bolívia consiste na reação, em especial da população indígena, contra o golpe. Em marcha acelerada pelas estradas, milhares de indígenas tomaram de assalto as ruas de La Paz e entraram em choques com as forças de segurança que reprimiu as manifestações com requintada violência. Ocorreram, então, dezenas de mortes, assassinatos, centenas de pessoas foram feridas, inumeras prisões ilegais, tortura, enfim, toda uma gama de barbárie característica do fascismo.
A considerar, ainda, que atuou no golpe da Bolívia a força de um racismo cultivado como ódio contra a população indígena.
Alvaro García Linera, Vice- Presidente de Evo, denunciou em artigo publicado em jornal argentino que as raízes do golpe de Estado na Bolívia, que forçou Evo Morales a renunciar possuem referências racistas, em especial contra os povos indígenas do país.
Linera ainda ressaltou que todos os 18 mortos e 120 feridos a bala, até então, são indígenas.
O vice de Morales sustenta que o motim policial veio no exato momento em que forças populares passaram a se mobilizar para resistir ao golpe, também recuperando o controle territorial das cidades “com a presença de trabalhadores, mineiros, camponeses, indígenas e colonos urbanos”.
Os confrontos das forças de segurança do atual governo de Jeanine Añez com as massas que se manifestaram contra o golpe fez com que Jeanine anunciasse, para breve, eleições na Bolívia. No entanto, a candidatura de Evo está proibida por lei.
O anúncio das futuras eleições amenizou a reação das massas bolivianas que estão, ainda, vigilantes para que se realizem eleições livres.

Andrey Kotchetov fala do protagonismo sindical na República Popular de Lugansk

Entrevistado é secretário-geral da Federação dos Sindicatos de território que declarou independência da Ucrânia

Katia Marko e Fabiana Reinholz

Brasil de Fato | Porto Alegre (RS)

O Brasil de Fato conversou com Andrey em sua vinda a Porto Alegre para falar da luta do seu povo - Créditos: Fotos: Marcelo Ferreira
O Brasil de Fato conversou com Andrey em sua vinda a Porto Alegre para falar da luta do seu povo / Fotos: Marcelo Ferreira

Em 2014, Donetsk e Lugansk, províncias ao leste da Ucrânia, declaram independência do país, a primeira no dia 7, a segunda no dia 27 de abril, tornando-se Repúblicas Populares. Após referendo em que mais 80% da população afirmou sua intenção de não fazer mais parte do país, a independência veio em 12 de maio. A partir de então, as repúblicas, que ficam cerca de 700 quilômetros de Kiev, capital da Ucrânia, foram marcadas por bombardeios e conflitos.

“Conviviam vários povos, várias nacionalidades nessa região, e até o fim de 2014 não havia problema nenhum, todo mundo vivia bem, tranquilo, em paz, não se falava em nacionalismo, mas depois do golpe do estado de 2015, o governo ucraniano, esse novo que assumiu, que é nazista, começou a falar que a Ucrânia é só para os ucranianos. Então foi impossível conviver com esse tipo de mentalidade. Assim mesmo, ninguém pensava em guerra contra o governo central, mesmo com essa ameaça ‘nacionalista’. Achamos que poderíamos conviver, que iam nos respeitar, nos deixar quietos”, afirma Andrey Kotchetov, secretário-geral da Federação dos Sindicatos da República Popular de Lugansk, esteve semana passada em Porto Alegre e conversou com o Brasil de Fato RS.

De acordo com ele, o golpe de 2015 teve apoio dos Estados Unidos, que há anos mira a região. “Grupos nazistas chegaram ao poder no governo central da Ucrânia. Desde 25 anos para cá, praticamente depois da dissolução da antiga União Soviética, os Estados Unidos aproveitaram essa brecha para colocar muito dinheiro e ajudar os grupos de extrema-direita a recuperar o poder”.

Antes da ascensão do partido de extrema-direita, Donetsk e Lugansk, que fazem fronteira com a Rússia, tinham uma população de oito milhões. Com o golpe, veio o bloqueio e as bombas, e a população, em busca de novas alternativas, caiu quase pela metade. Além de expor a situação atual da região, Andrey falou também sobre a importância do movimento sindical no processo de independência. Seguindo a máxima da Karl Marx, “trabalhadores do mundo, uni-vos!”, a Federação congrega 38 sindicatos de diversas categorias.

A conversa com Andrey, que fez a sua segunda visita ao país – a primeira foi em 2015, em São Paulo, no Congresso das Federações Internacionais de Sindicatos – foi acompanhada por Luciano Vieira, médico da saúde da família; Nubem Medeiros, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); e Cláudio Luís Caminha de Souza Ribeiro, maestro e antropólogo, que foi o tradutor da conversa.

A seguir a entrevista completa:

Brasil de Fato RS: Andrey, gostaria que nos contasse um pouco a história da onde tu vens e toda a questão da independência e os ataques da Ucrânia.

Andrey Kotchetov: Vim da República Popular de Lugansk, que está situada ao lado leste da Ucrânia. Até antes de 2015, estávamos bem, felizes, e a Ucrânia a nossa mãe. Era um país ótimo e bonito e cheio de paz. Mas em 2015, houve um golpe de estado na capital da Ucrânia, Kiev, e grupos nazistas chegaram ao poder. Desde 25 anos para cá, praticamente depois da dissolução da antiga União Soviética, os Estados Unidos aproveitaram essa brecha para colocar muito dinheiro e ajudar os grupos de extrema-direita a recuperar o poder.

O principal propósito dessa apropriação, invasão colonial norte-americana no território ucraniano, foi reescrever a história do país do jeito que eles queriam. Para a população dos dois países que se separaram, Lugansk e Donetsk, foi impossível aceitar essa nova forma de governo e essa tentativa de reescrever a história.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o povo russo perdeu 27 milhões de pessoas, incluídas nessa cifra cidadãos e cidadãs da Ucrânia. Os avós, bisavós e mesmo os pais dessas pessoas que hoje estão aqui também foram mortos nesse pacote da Segunda Guerra. Com toda essa história, com essa carga de pessoas que lutaram contra o nazismo, contra o eixo, eles não poderiam aceitar que agora nos Estados Unidos e a direita ucraniana reescrevessem a história quase desconhecendo o que aconteceu. Esse grupo que se infiltrou, que queria reescrever a história, começou a acusar dizendo que entre esses 27 milhões de pessoas estavam incluídas a maldade dos comunistas e a crueldade do governo soviético.

O leste da Ucrânia é uma região multiétnica, onde vivem várias pessoas de diversas nacionalidades. A região de onde venho foi muito industrializada durante o período da União Soviética e convidamos muitas pessoas que quisessem ir, já que estava se desenvolvendo. Então muitas nacionalidades estão vivendo nessa região de Donbass. Até o fim de 2014, não havia problema nenhum, todo mundo vivia bem, tranquilo, em paz, não se falava em nacionalismo, mas depois do golpe do estado de 2015, o governo ucraniano, esse novo que assumiu, que é nazista, começou a falar que a Ucrânia é só para os ucranianos. Então foi impossível conviver com esse tipo de mentalidade. Assim mesmo, ninguém pensava em guerra contra o governo central, mesmo com essa ameaça “nacionalista”. Achamos que poderíamos conviver, que iam nos respeitar, nos deixar quietos.

Organizamos um referendo nacional nas duas províncias, Lugansk e Donetsk, para ver se as pessoas queriam ou não conviver com o nazismo do governo central. Cerca de 80% das pessoas disseram “não, não queremos conviver com o nazismo”. Então a partir desse referendo, pedimos para o governo central para sermos considerados como uma nova Federação, não afinada com o governo central.

É bom lembrar que foi tudo democrático, antes desse referendo, houve protestos, as pessoas estavam mostrando sua desaprovação ao regime. Como apareceu esse desgosto com o governo central, realizamos esse referendo, não foi imposto. Novos líderes do povo apareceram nesse momento, e foram eles que propuseram o referendo, que, como falei, foi muito democrático.

“Foi tudo democrático, antes desse referendo, houve protestos, as pessoas estavam mostrando sua desaprovação ao regime”

A partir desse referendo, o governo central cortou o diálogo e começou a bombardear essa região. Helicópteros sobrevoaram a capital da República Popular de Donetsk e lançaram bombas em 27 de maio de 2015. Em 2 de junho, o mesmo grupo do governo central bombardeou a sede central da administração da República Popular de Lugansk.

Existem vídeos no YouTube que mostram os primeiros momentos desse bombardeio, que matou, de saída, 80 pessoas. O que tu achas que a mídia ucraniana publicou a respeito desse episódio?

Eles disseram em claro e bom tom para o mundo inteiro que essa explosão foi o problema em um ar-condicionado. Além do exército da própria Ucrânia – imagine toda a alta Ucrânia e duas províncias pequenas – a oligarquia poderosa organizou e financiou batalhões especiais para lutar contra nós. Muitos soldados da Ucrânia não queriam matar “irmãos”. Então para conter essa pequena rebelião, a própria oligarquia (pessoal da grana) contratava batalhões especiais para suprir essa possível vontade de não ferir irmãos.

Antes do ataque de 2015, tínhamos uma população de oito milhões de pessoas (somando as duas repúblicas). Atualmente temos cerca de quatro milhões e meio. Os outros três milhões e meio que deixaram as duas repúblicas, uma parte foi para Ucrânia e a outra parte para a Rússia, fugindo da guerra, das bombas. Como a partir desse momento o governo terminou o diálogo, eles fizeram um bloqueio, as pessoas passaram a perder os empregos, não tinham mais dinheiro.

Os que ficaram, que não fugiram, começaram a construir um novo momento. Começamos a reconstruir o parlamento, reconstruir as vidas. Mas Kiev continua a dizer que não existe guerra nenhuma, que não existe guerra civil. E eles continuam atacando, não o tempo inteiro, mas armam ataques programados, em um dia destroem um edifício, passam uns dias derrubam uma estátua. Automaticamente todos aqueles que não se afinam com a ordem central são considerados terroristas, então fomos considerados como região terrorista.

Então, para o mundo inteiro, se conseguiu passar essa imagem de que o governo central da Ucrânia estava lutando contra terroristas e não pessoas civis como nós. De 2015 para cá, mas de 10 mil pessoas foram mortas pelo governo central. Depois dos últimos cinco anos, eles disseram que estariam lutando contra o exército russo, fizeram investigações e ninguém descobriu sobre a existência de exército russo, mas o governo continua afirmando isso. E o ex-presidente Petro Poroshenko foi para Europa dizer que eles estavam defendendo a Europa do ataque russo. E não é isso, pelo contrário.

“Governo terminou o diálogo, eles fizeram um bloqueio, as pessoas passaram a perder os empregos, não tinham mais dinheiro”

BdFRS: Fale sobre a organização sindical nas repúblicas populares.

Andrey: Meu cargo é de secretário-geral de uma parte da secretário-geral da Federação dos Sindicatos. Essa parte se chama Sindicato para Inovação do Desenvolvimento. Esse sindicato trata de projetos inovadores, representa cinco mil pessoas. Ao mesmo tempo, sou membro da Federação que reúne todos os sindicatos da República Popular de Lugansk. O Sindicato que integro reúne várias categorias, vários campos de atividade. Apesar de estarmos todos juntos nisso, fica difícil especificar quem está em projetos inovadores e quem não está ainda.

Em 2014, um colega e eu escrevemos o Estatuto. Nessa Federação que engloba todos os sindicatos, propusemos que ficássemos todos dentro do mesmo guarda-chuva, e o artigo 1 diz que é proibido sindicatos independentes, porque isso divide, não soma. E a tática do outro lado sempre foi o contrário, dividir para governar.

Dentro da Federação tem 38 sindicatos que reúne categorias como agricultura, cultura, metalúrgicos, mineiros e assim por diante, todos dentro da Federação.

Um exemplo simples, como disse Marx: “trabalhadores do mundo, uni-vos”. Esse foi o slogam da União Soviética e os imperialistas continuam com medo dessa frase. Não fizemos nada de novo, essa foi uma experiência anteriormente praticada.

BdFRS: E qual a força da Federação na sociedade?

Andrey: Pergunta interessante. Antes dessa guerra, e acho que até por isso ela aconteceu, o governo central da Ucrânia tinha recebido uma ordem do governo americano de destruir todos os sindicatos. Era, na verdade, um “recadinho” para que as pessoas se organizassem em sindicatos independentes, para dar uma ideia de democracia, quando na verdade era para dividir o movimento. Então eles diziam que essa era uma maneira de democratizar e aí então, com essa ordem, começaram a surgir grande número de sindicatos. Eles queriam que se esfacelasse, que se destruísse o movimento sindical realmente forte. Então muitos desses chamados líderes sindicais acabaram sendo, na verdade, representantes do comércio, banqueiros, cuja única tarefa era dizer “pague os sindicatos”. Quando houve esse bloqueio e a invasão, os líderes sindicais que estavam ligados a esse movimento de desfacelamento fugiram para a Ucrânia junto com os banqueiros.

O povo atualmente respeita muito a Federação, e esse movimento que conseguimos construir de união dos sindicatos ficou bem visto pela população, pela transparência dos 38 sindicatos que estão dentro da Federação. Tanto que 14 líderes desses sindicatos estão dentro do parlamento, são deputados. A Federação, a partir dessa concepção sindical e da participação da sociedade, pode-se dizer que está sendo fundamental na execução das próprias leis que a sociedade vai usufruir. Está partindo dos trabalhadores então as decisões do que se vai se cumprir na nação.

“Está partindo dos trabalhadores então as decisões do que se vai se cumprir na nação”

BdFRS: Com o fim da União Soviética, a população não passou simplesmente a ser capitalista. Como foi essa transição? E esse sentimento ainda está muito vivo?

Andrey: Foi como um conto de fadas, uma ilusão, quando o governo de Mikhail Gorbachev (último líder da União Soviética) disse “agora cada um de vocês poderá ser muito rico, terão muito trabalho, e ficarão felizes da vida com dinheiro, agora vamos organizar o sistema capitalista e todo mundo vai ficar muito rico”. Na verdade, isso foi uma grande falsidade, porque sabemos que o capitalismo deixou muita gente pobre, mas infelizmente muitas pessoas ainda acreditam em conto de fadas.

Agora, todo mundo está dizendo “estamos até aqui (saturados) com o capitalismo” e realmente estão sentindo falta da União Soviética. Claro que na antiga União Soviética era difícil, por exemplo, uma família comprar um carro, mas era possível. Agora é muito fácil fazer isso, só que você fica pagando na verdade, o grande mercado.

Um exemplo simples de como o povo está se dando conta é o caso dos Países do Báltico (Estônia, Letônia e Lituânia). Os capitalistas do oeste não precisaram ser convidados pelos exércitos desses países. Eles apenas constroem grandes supermercados para vender refrigeradores, televisores, freezer, e aí colocam bancos nesses supermercados. Então quando as pessoas simples, pobres, entram nesses grandes supermercados e veem aqueles produtos, querem comprar tudo. “Se vocês quiserem comprar, nós financiamos, podem usar o sistema, simplesmente hipotequem suas terras ou seus bens, que a gente financia”, dizem os bancos. Depois de 20 anos, esses Países Bálticos ficaram chocados porque descobriram que, por causa disso, os donos das terras dos Países Bálticos eram ingleses, alemães, suíços etc e não mais as pessoas da terra.

E aí os socialistas desse lugar disseram: “estamos sob uma ocupação suave, porque não tem tanque”. Então o pessoal começou a ver a importância da União Soviética, está sentindo falta de algumas coisas. Estão sentido falta dessa paz mundial porque na União Soviética todas as nações que conviviam ali dentro estavam bem. Por exemplo, quando eu servi no exército russo, tinha um grupo de diferentes pessoas. O grupo tinha 34 pessoas, sendo 15 de diferentes nacionalidades como Cazaquistão, Uzbequistão, Armênia, Ucrânia. Inclusive, mesmo depois de tudo que aconteceu, continuamos mantendo contato. Como a gente não vai sentir falta disso?

O pessoal que vivia então no tempo da União Soviética, cada ano tinha dias livres, durante 22 dias, tinham medicina livre, sem pagamento, quando as mulheres davam à luz, podiam ficar três anos recebendo pagamento do governo. Então as pessoas começaram a se lembrar disso e estão sentindo falta do velho Stalin. Por quê? Porque Stalin disse, depois da Segunda Guerra Mundial, que o mundo anglo-saxónico seria o inimigo para sempre, que quando o dinheiro norte-americano entrasse dentro da Federação Russa, nos tornaríamos escravos do sistema financeiro ocidental. E o interesse do imperialismo era dividir a Rússia, não deixá-la junta e sugar a riqueza de cada pedaço de terra. E agora estão se dando conta que isso era verdade. O Stalin falou isso há 70 anos atrás e as pessoas estão vendo que era verdade, que ele tinha razão.

BdFRS: Estamos vendo isso no mundo, Brasil, América Latina em ebulição, parece que estamos vivendo uma nova Guerra Fria.

Andrey: Queria relembrar que não foi o Stalin que começou a guerra fria. Foi o Winston Churchill, na famosa palestra de Fulton (Missouri, Estados Unidos, em 1946), que disse que temos que colocar um muro de ferro em frente à União Soviética. A mesma coisa que estão dizendo agora do Vladimir Putin, que é um monstro, cruel. Eles diziam as mesmas palavras de Stalin, agora serve para o Putin, nada mudou.

BdFRS: Gostaria que tu falasse da influência da igreja, principalmente a neopentecostal, se lá tem influência como se observa em outros lugares do mundo.

Andrey: A religião tradicional é a Igreja Ortodoxa, e ela é muito conservadora. Essa igreja faz orações diárias, grandes círculos, sempre modificando a oração. Também tem muçulmanos ortodoxos e judeus. Lá está proibida a organização de novas igrejas norte-americanas, porque eles sabem que através dessas igrejas, com as quais entra muito dinheiro e organização, se dominam as pessoas, controlam as pessoas. Então por isso que não tem esse movimento como aqui no ocidente, dessas igrejas.

Cláudio Luís Caminha de Souza Ribeiro: Um ano atrás, na Bolívia, o governo de Evo Morales baixou uma lei que não permitia doutrinação de mais nenhuma igreja, e vocês viram quem fez o golpe no país.

Andrey: Isso aconteceu na Chechênia, há alguns anos atrás, onde foi municiado o movimento muçulmano super extremista.

BdFRS: Como tu enxergas a máxima: Socialismo ou Barbárie, da Rosa de Luxemburgo?

Andrey: Não é possível comparar. A grande diferença justamente é que como cidadãs e cidadãos, nascidos nesse espírito soviético, sentimos que o governo realmente se importa com as pessoas. Quanto mais eu convivo com a chamada democracia do oeste, mais eu me aproximo do socialismo.

BdFRS: Falando um pouco a visita à Porto Alegre, quem a organizou, qual o objetivo?

Andrey: Essa pergunta meus amigos podem responder.

Cláudio Luís Caminha de Souza Ribeiro: Quem organizou a visita foram a Fundação Dinarco Reis, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) que através da sua célula internacionalista convidou o Andrey, e tivemos o apoio da Associação dos Pós-Graduandos Gaúchos (APGs), do Sindicato dos Servidores de Nível Superior do Poder Executivo do Estado do Rio Grande do Sul (Sintergs), da Assembleia Legislativa, através da figura do ex-deputado Pedro Ruas, da Associação dos Servidores da UFRGS e UFSCPA (Assufrgs), do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), da Federação dos Empregados no Comércio de Bens e Serviços do RGS (Fecosul), e da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB).

Cláudio foi o tradutor da entrevista

O Andrey veio compartilhar com trabalhadoras e trabalhadoras dessas e de outras entidades o protagonismo do movimento sindical em um governo de coalizão e a experiência da República Popular de Lugansk. E conhecer a realidade do Sul do Brasil.

Nubem, Humberto Carvalho e eu estivemos ano passado em Lugansk, como observadores internacionais do processo eleitoral de lá. E conhecemos as universidades, estivemos em várias cidades, fizemos conferências. Nossa impressão foi a melhor possível, fomos recebidos com grande carinho, fraternidade, solidariedade, com uma agenda bem movimentada. Visitamos museus, vimos cidades destruídas, bombas intactas fincadas na terra, monumento às pessoas falecidas, sobretudo as crianças, mortas nos bombardeios.

Edição: Marcelo Ferreira

A SURPREENDENTE LONGA MARCHA DA REPÚBLICA POPULAR DA CHINA

Se nos questionarmos quais são as revoluções mais importantes na história da libertação dos povos, certamente teremos a Revolução Francesa (1789), a Revolução Russa (1917) nas primeiras colocações e, em terceiro lugar, a Revolução Chinesa que culminou na proclamação da República Popular da China em 1º de outubro de 1949, há 70 anos, e continua.
Este ano, também se comemora os 100 anos da criação, em 1919, da IIIª Internacional, obra de Lênin que vislumbrou a necessidade da luta contra o imperialismo e o colonialismo, unificando trabalhadores e povos oprimidos. A esse respeito, é bom lembrar um trecho do texto de Ho Chi Min, por ocasião dos funerais de Lênin, publicado no Pravda, em 27 de janeiro de 1924: “…este grande líder, depois de haver libertado seu próprio povo, desejou libertar outros povos. Ele convocou os povos para colaborarem com os asiáticos e com os africanos para libertá-los do jugo de seus agressores estrangeiros, de todas as potências ocupantes, dos Governadores Gerais, etc. E para atingir esta meta, ele delineou um programa definitivo”.
Foi Lênin quem asseverou o direito inalienável à autodeterminação das nações oprimidas e conclamou os povos oprimidos a se levantarem contra o jugo do colonialismo e do imperialismo. Desse modo, os movimentos de libertação nacional, desde então, passaram a contar com o apoio decidido do primeiro Estado socialista e dos jovens partidos comunistas que foram se formando, inclusive nos países imperialistas.
A revolução chinesa se caracterizou por ser antiimperialista, contra o colonialismo, de libertação nacional e socialista.
Não pretendo aqui fazer um relato da Revolução Chinesa, complexa, longa, com muitas etapas marcantes na História, como a Longa Marcha. Mas, sim, dizer que essa Marcha prossegue. Iniciada com um exército proletário e de camponeses em luta contra os “nacionalistas” de Chiang Kai Shek e dos senhores da guerra, trazendo esperança e liberdade entre os pobres e os trabalhadores à medida que avançavam, transformou-se, hoje, na marcha para fazer da China a maior potência econômica do Mundo.
Não podemos esquecer o que era a China, antes da Revolução: composta por 90% dos agricultores famintos, a população tinha o padrão de vida mais baixo do planeta. Era inferior ao da antiga África britânica e subsaariana da Índia. Nesta terra onde a vida estava pendurada por um fio, a expectativa de vida era entre 36 e 40 anos. Abandonada à ignorância, apesar da riqueza de uma civilização de mil anos, 80% da população chinesa era analfabeta.

Hoje, a economia chinesa responde por 18% do PIB global em paridade de poder de compra e superou a economia dos EUA. A China é a principal potência exportadora do mundo. Sua força industrial é duas vezes a dos Estados Unidos e quatro vezes a do Japão.
Esse desenvolvimento econômico melhorou drasticamente as condições de vida do
povo chinês. A expectativa de vida aumentou de 40 para 64 anos sob Mao (de 1950 para 1975) e agora se aproxima de 77 anos (contra 82 na França, 80 em Cuba, 79 nos EUA e 68 na Índia) . A taxa de mortalidade infantil é de 7% contra 30% na Índia e 6% nos Estados Unidos. O analfabetismo está praticamente erradicado.
Ainda mais significativo, a taxa de pobreza, de acordo com o Banco Mundial, passou de 95% em 1980 para 17% em 2010 e 3,1% em 2017. Xi Jinping prometeu sua erradicação até 2020.
A China de Mao se beneficiou primeiro da assistência da URSS, mas foi interrompida em 1960 durante o cisma sino-soviético. Foi para resolver esse problema crucial que Deng Xiaoping organizou em 1979 a abertura gradual da economia chinesa ao capital externo: em troca dos lucros obtidos na China, as empresas estrangeiras realizariam transferências de tecnologia para as empresas chinesas.
Como órgão governante do país desde 1949, o Partido Comunista Chinês sabe que o menor desvio da linha de bem-estar coletivo seria mal compreendido e provocaria sua queda. Acostumados a pensar que a democracia se baseia no ritual eleitoral, os ocidentais não entendem esse sistema. Além disso, eles nem vêem que sua “democracia” acomoda uma designação de presidente pelos bancos, enquanto na China os bancos obedecem ao presidente.
Para impulsionar o desenvolvimento do país, os comunistas chineses construíram uma economia mista impulsionada por um estado forte. Seu principal objetivo é o crescimento, apoiado desde as reformas de 1979 na modernização das empresas estatais que dominam os principais setores, construindo um setor privado forte, e a transferência de tecnologia de países mais avançados. Ao contrário do que às vezes é dito, foi o próprio Mao Tse Tung quem iniciou esse processo em 1972, quando restabeleceu as relações com os Estados Unidos.
Nenhum país capitalista alcançou o elevado nível de desenvolvimento, em 70 anos, da China. E isso é um feito grandioso do Partido Comunista Chinês.
Muitos falam que a China é um país capitalista, de estado, ou não, que mistura mercado e socialismo e por aí vai…
Mas, esquecem que, na Rússia Soviética, após a Guerra Civil, em 1921, Lênin aplicou a NEP (Nova Política Econômica), com traços capitalistas, para a formação de um capital social inicial que seria utilizado na construção do socialismo. Um censo de 1897 afirmava que a população russa era de 128 200 000 habitantes. Era preciso alimentar essa população. A NEP findou com o Iº Plano Quinquenal, em 1928, visando uma rápida industrialização da já URSS (que foi fundada em 1922).

Vejo o atual período de crescimento da China, como uma espécie de NEP chinesa para alimentar uma população de 1.394.550.000 habitantes. E devido a esse bilionário número, talvez a “NEP” chinesa tenha de durar mais tempo do que a soviética.
A experiência histórica da República Popular da China é única: é o sucesso de uma
estratégia de saída do subdesenvolvimento em uma escala sem precedentes e sob a
liderança exclusiva de um partido comunista, no rumo do socialismo.

Humberto Carvalho