Ucrânia: o colaborador dos nazistas – Stepan Bandera – foi homenageado em Kiev com a cumplicidade da União Europeia, que se recusa a votar a resolução condenando o nazismo na ONU

O ano começou mal na Ucrânia, onde em breve será aprovada uma lei que permitirá às regiões da Ucrânia armar milícias “nacionalistas”, apesar de o país ter um exército nacional! Um exército, é verdade, equipado pela NATO, largamente financiado pela União Europeia e treinado pelos Estados Unidos, que colocou assim os seus soldados em solo ucraniano. Esta notícia é ainda mais preocupante quando consideramos as atividades dessas milícias abertamente nostálgicas do Terceiro Reich e seus colaboradores ucranianos, terríveis e sinistros executores da Shoah (holocausto) e das repressões sangrentas.

Stepan Bandera era o líder da OUN (Organização dos Nacionalistas Ucranianos) , uma organização de extrema direita e seu braço armado (UPA – Exército Insurgente da Ucrânia) que colaborou ativamente com os nazistas e lutou contra o Armia Krajowa  (Exército Nacional, o mais importante setor da resistência polonesa ao nazismo) da Polônia, os guerrilheiros que resistiam na Iugoslávia com Tito e o Exército Vermelho na Ucrânia, Bielo-Rússia e Polônia. A UPA é responsável pela morte de dezenas de milhares de pessoas, principalmente mulheres e crianças da Polônia, Galícia e Volyn em uma terrível campanha de limpeza étnica. E ela também participou do genocídio dos judeus. Protegido pelo Ocidente, Bandera refugiou-se em Munique, onde foi assassinado em 1959. Rússia, Polônia, Israel e muitos outros países consideram Bandera um criminoso de guerra.

Enquanto os países da União Europeia se recusam a votar a resolução da ONU condenando o nazismo, na Ucrânia – como nos países bálticos – a União Europeia continua a apoiar a reabilitação dos nazistas e … a criminalizar, através de um virulento anticomunismo, os libertadores da Europa do fascismo, como o Exército Vermelho. Não é só em Kiev que os neonazistas desfilam nas ruas acobertado pelo silêncio cúmplice da União Europeia que salpica milhões de subsídios ao regime que foi instaurado através do golpe de Estado da Euromaidan. Este é também o caso dos Estados Bálticos. Na Polônia, são os memoriais de guerra do Exército Vermelho que estão sendo demolidos! E se os países da UE se recusam a votar a favor da resolução da ONU condenando o nazismo, o Parlamento Europeu em 2019 adotou uma resolução criminalizando … o comunismo, sendo que foram as foças comunistas que libertaram a Europa  do nazismo.

QUADRO DE VOTAÇÃO DA RESOLUÇÃO DA ONU

Fonte: https://www.initiative-communiste.fr/articles/europe-capital/ukraine-le-colabo-des-nazis-stepan-bandera-honore-a-kiev-avec-la-complicite-de-lunion-europeenne-qui-refuse-de-voter-la-resolution-condamnant-le-nazisme-a-lonu/

Lições do ataque ao Capitólio dos EUA

Por Phil Wilayto

O que aconteceu em 6 de janeiro, no Capitólio dos EUA, não foi um “protesto de partidários de Trump” e, sim, uma violenta tomada do Congresso por uma multidão fascista. E, embora cinco pessoas morressem e houvesse mais de 50 prisões, é óbvio para o grande público que esses infratores da lei, em sua maioria brancos, foram tratados de maneira muito diferente do que seriam se fossem negros ou outras pessoas de cor.

Você pode chamar isso de tentativa de golpe. Mas, não era um sinal de fascismo iminente. Foi uma multidão incitada por um egomaníaco enlouquecido por se tornar o único presidente em exercício em quase 30 anos a ser derrotado em uma eleição.

 Por que isso é importante dizer? Porque precisamos saber o que estamos enfrentando para que possamos estar preparados para lidar com isso.

 Não estamos na mesma situação hoje nos Estados Unidos. No meio de uma pandemia perigosa que levou a uma crise econômica para milhões e uma primavera e verão de rebeliões sustentadas contra assassinatos policiais e racismo sistêmico, a raiva generalizada contra o sistema foi desviada com sucesso para uma luta eleitoral entre os dois partidos do mais poderoso país capitalista. E porque a elite governante decidiu que era hora de Trump partir.

Donald Trump foi autorizado a se tornar presidente e permanecer no poder por quatro anos porque ele foi capaz de cortar impostos para os ricos, desregulamentar os negócios, reverter ganhos sociais e supervisionar um mercado de ações em disparada, o que resultou em muitos ricos se tornando muito mais ricos.

 Nem toda a elite ficou feliz com tudo o que Trump fez, mas os muito ricos podem viver com crianças imigrantes deixadas sozinhas em gaiolas, com a constante deterioração do meio ambiente, com a mudança climática acelerada e com o agravamento da opressão racial. Eles têm vivido com coisas muito piores desde a fundação da colônia da Virgínia em 1607.

 O que eles não podiam tolerar era a erosão constante do domínio dos Estados Unidos em escala mundial. A crescente hostilidade à China por todos os setores da classe dominante ocorre porque aquele país, que tem um controle estatal significativo sobre setores importantes da economia, está fazendo uma aposta séria pelo domínio econômico mundial, e Trump tem permitido que isso aconteça. Os EUA não são mais vistos como líderes em tecnologia, finanças e até saúde. Sua única reivindicação séria de “liderança” é como potência militar, embora esteja agora abandonando a guerra mais longa de sua história porque não conseguiu derrotar um inimigo reacionário mas determinado no Afeganistão, o 16º país mais pobre do mundo.

 Assim, a classe dominante surgiu com uma alternativa segura, uma figura do establishment que há muito provou seu compromisso com a defesa e expansão do Império Americano – Joe Biden. No longo prazo, isso é mais importante para o 1%  dos ricos do que cortes de impostos e lucros de curto prazo. A transição foi ameaçada por causa das profundas divisões no país, mas até mesmo Trump agora se comprometeu com uma “transição pacífica de poder” em 20 de janeiro, dia da posse.

 Então, como tudo isso se relaciona com a ação da multidão em 6 de janeiro em Washington, D.C.?

 O que precisamos saber  é se existiu qualquer apoio para um golpe real ou mesmo simbólico por parte de algum setor da classe dominante, como seria evidenciado pelo envolvimento de qualquer seção significativa da polícia ou dos militares. Se esse envolvimento existiu, não ficou evidente.

 Sim, a polícia do Capitólio se mostrou terrivelmente despreparada para o ataque, muito provavelmente porque eles não viram os fascistas declarados tão ameaçadores quanto os protestos anteriores do Black Lives Matter. Sim, houve relatos de policiais individuais tirando selfies com membros da turba e abrindo barreiras para permitir que eles entrassem no Capitólio. Mas quando a Guarda Nacional de D.C. foi ativada e juntou-se a centenas de soldados estaduais da Virgínia, Maryland e até mesmo de Nova Jersey para ajudar a polícia do Capitólio a remover a multidão, eles responderam. Policiais lutaram com membros da multidão, um dos quais foi morto a tiros. Três outras pessoas morreram devido ao que foi descrito como condições médicas. Um policial morreu devido aos ferimentos sofridos no confronto.

 É importante observar isso porque os policiais e os militares recebem ordens de seus superiores e, evidentemente, não havia apoio de alto nível para o ataque ao Congresso.

 E desde esses eventos, houve condenações ao ataque de todo o espectro político. Sete dos 13 senadores que antes haviam dito que contestariam os votos eleitorais de um punhado de estados retiraram seu apoio a esse esforço. Os senadores Ted Cruz (Republicano-Texas) e Josh Hawley (Republicano-Montana), líderes dos rebeldes do senado, tuitaram condenações da ação da turba violenta.

 Entre os líderes empresariais, a National Association of Manufacturers que representa as principais empresas da Fortune 500 como a Exxon e a Toyota, pediu a destituição do presidente Trump com base na 25ª Emenda, que permite a remoção de um presidente em exercício considerado incapaz de executar as funções do cargo. Nenhuma parcela significativa da classe dominante apoiou a violenta invasão do Capitólio.

 Mas, não estou dizendo que a ação da multidão invasora não foi extremamente séria, perigosa e sem precedentes. Em Washington D.C., e em capitais estaduais de todo o país, milhares de direitistas se manifestaram para se opor ao que é chamado de processo e instituições democráticas. Na Capital do país, centenas de pessoas mostraram-se dispostas a confrontar fisicamente os policiais, infringindo abertamente a lei, correndo o risco de prisão e até de morte para promover sua agenda, concretizar suas intenções.

 E é importante notar que, enquanto sete dos 13 senadores dos EUA abandonaram seu desafio aos votos eleitorais de alguns estados, seis mantiveram sua oposição. Isso não significa apenas que eles estavam favorecendo uma base reacionária de eleitores. Isso também significa que eles não estavam preocupados em perder o apoio financeiro dos interesses corporativos que os financiam em grande parte, o que significa que há setores da classe dominante que, embora não necessariamente apoiassem as ações da máfia invasora, ainda continuaram a apoiar o que era essencialmente a versão legal da tentativa da multidão de derrubar a eleição presidencial.

 Desta vez, polícia, guarda nacional e militares se opuseram à ação. Não podemos presumir que  sempre ocorrerá isso.

 O que deveria nos preocupar mais é que agora sabemos – se precisávamos de mais provas depois de Charlottesville – que há um movimento fascista crescente neste país que se opõe violentamente a tudo que um movimento progressista representa. Esse movimento fascista tentou se consolidar no comício “Unite the Right” (Unir a Direita) de agosto de 2017, mas sofreu um grande revés quando anti-racistas, principalmente jovens, saíram para se opor a ele. Essa contra-mobilização foi crítica, uma vez que a polícia local, municipal e estadual e a Guarda Nacional da Virgínia tinham ordens de se retirar (obrigado, governador Terry McAuliffe.) E, ao contrário dos protestos do Black Lives Matter neste verão, era correto para a juventude branca assumir a liderança no combate aos fascistas. (Os Defensores estão orgulhosos de ter estado no meio desses confrontos.)

 Mas esse movimento de direita desde então se recuperou, cresceu e se expandiu para além das organizações abertamente fascistas para incluir milhares de indivíduos em grande parte não afiliados, eufemisticamente chamados de “apoiadores de Trump”. Esses homens predominantemente brancos podem ter algumas queixas legítimas contra as políticas anti-neoliberalismo da classe trabalhadora do Partido Democrata, mas eles são levados à violência principalmente por sua própria hostilidade de supremacia branca à comunidade negra, imigrantes, pessoas LGBTQ, mulheres e os Esquerda. Eles estão aqui, estão crescendo em número e a polícia nem sempre estará disposta – ou inclinada – a impedi-los de atacar seus alvos.

 Em resposta aos eventos do dia 6 de janeiro, houve muitos comentários nas redes sociais, sugerindo que este foi um confronto entre civis reacionários e policiais reacionários e sem grande preocupação para a comunidade negra. Esta é uma conclusão perigosa de se chegar.

 A ascensão dos nazistas ao poder na Alemanha é associada costumeiramente ao Holocausto, que tirou a vida de seis milhões de judeus – um terço dos judeus europeus. Mas os judeus não foram os únicos alvos dos nazistas, nem foram os primeiros. O primeiro alvo era o Partido Comunista Alemão, que na época era o maior partido comunista do mundo, fora da União Soviética, fato que aterrorizava a classe dominante.

 Dei-me conta dessas verdades de maneira muito gráfica alguns anos atrás, quando minha esposa, Ana Edwards, e eu visitamos o Memorial e Museu Auschwitz-Birkenau, administrado pelo governo, na Polônia. Mesmo sob o regime populista reacionário do Partido da Justiça e da Justiça federal, as placas e sinalizações deixavam claro que os comunistas foram os primeiros a ser presos, encarcerados em campos de concentração como Auschwitz e torturados, trabalharam até a morte ou simplesmente assassinados. Os judeus que pensavam que a repressão permaneceria meramente política seriam tragicamente corrigidos.

 De forma semelhante, os fascistas que se reuniram em Charlottesville em 2017 alegaram que estavam defendendo o “Patrimônio do Sul” e se opondo aos antifascistas. Mas quando a manifestação foi finalmente encerrada pelos policiais (o plano de McAuliffe evidentemente era deixar as coisas sairem do controle para que a manifestação pudesse ser suprimida sem que a cidade ou estado fosse processado pelos fundamentos da Primeira Emenda), eles se reagruparam para marchar sobre um Conjunto Habitacional para  pretos. Ouvindo os relatos desses planos, anti-racistas, incluindo os Defensores, se mobilizaram para bloqueá-los. Isso é o que Heather Heyer estava fazendo naquele cruzamento quando foi fatalmente atropelada por um carro dirigido por um dos fascistas. Ela morreu defendendo a comunidade negra, fato que nunca recebeu o devido reconhecimento.

 Em suma, embora seu inimigo declarado possam ser os antifascistas, anarquistas e comunistas, os fascistas de hoje são fundamentalmente supremacistas brancos com muito medo de serem “substituídos” pelas mudanças demográficas projetadas para tornar os Estados Unidos um país de maioria negra por volta de 2040.

 Então, que conclusões podemos tirar de tudo isso? Quais são as consequências práticas? Porque não é suficiente apenas analisar a situação – precisamos decidir o que fazer.

 Os tempos de hoje clamam por uma esquerda organizada que levante muitas questões e seja  anti-imperialista para  que possa desenvolver e promover um programa para unir todos os trabalhadores e comunidades de diferente etnias, um programa que enfatize a solidariedade de classe enquanto promove o direito à autodeterminação de todos os povos oprimidos. E esse movimento deve ter a capacidade de se defender fisicamente das ameaças dos fascistas. Lamentavelmente, até agora, o nosso lado tem sido lamentavelmente inadequado nesse aspecto.

 Não falta coragem ao nosso pessoal. Faltam-nos números, organização, recursos e um programa unificado. Durante  décadas adotamos e elevamos a tática da não-violência ao nível de um princípio moral imperioso. Isso, efetivamente, desarmou grandes setores do movimento progressista a ponto de alguns ativistas acreditarem que defender a si mesmos e a suas comunidades significa “afundar-se ao nível” da direita. Anos promovendo a ideia de que os democratas poderiam ser um baluarte contra a direita enfraqueceram o entendimento de que a verdadeira defesa nossa só pode vir de um movimento independente. E a ascensão do complexo sem fins lucrativos, com sua dependência de financiadores liberais ligados aos democratas, contribuiu para o fim da consciência anti-guerra e anti-imperialista que era uma marca dos movimentos militantes raciais independentes, multifacetados que lideraram as lutas históricas das décadas de 1930 e 1960.

 Portanto, ao examinarmos os eventos de 6 de janeiro, não devemos tirar a conclusão de que estamos à beira de uma vitória fascista. Mas também não devemos ignorar a ameaça real e crescente de um movimento fascista genuíno.

Muito dependerá do surgimento de um líder carismático que possa realmente unir a direita. Esse poderia ser Trump, se ele decidir seguir esse caminho em vez de apenas voltar a ser um empresário corrupto e venal. Pessoalmente, acho que o discurso movido pelo medo de uma acusação, que ele fez em 7 de janeiro, condenando sua multidão leal por “se infiltrar” no Capitólio provavelmente acabou com suas chances de se tornar o Fuhrer americano.

 De qualquer forma, mais dependerá de uma seção significativa da classe dominante decidir que uma força paramilitar extra-legal é necessária para suprimir uma rebelião negra ou geral da classe trabalhadora ameaçadoras. Alguns dependerão dessas seções dispostas a financiar tal movimento. Foi assim que organizações fascistas surgiram na Ucrânia antes, durante e depois do golpe de direita, apoiado pelos EUA em 2014, que supostamente defendia a democracia, mas resultou em um governo mais que autoritário. (https://odessasolidaritycampaign.org).

Mas, quer isso se desenvolva ou não, o que está claro é que a esquerda precisa ampliar muito sua influência, bem como sua capacidade prática de se defender, defeder seus eventos e suas organizações e a comunidade em geral dos lutadores de rua de direita que agora não podemos negar que existem.

 Ignorar essa ameaça é contribuir para nossa própria derrota.

 Phil Wilayto é co-fundador da Virginia Defenders for Freedom, Justice & Equality, editor do jornal The Virginia Defender e coordenador da campanha antifascista Odessa Solidarity Campaign. Ele pode ser contatado em virginiadefendernews@gmail.com.

 Tradução: Humberto Carvalho

Sob os escombros, as digitais de um responsável

O internacionalistas.org  agradece a gentileza do prof. José Luís Fiori em autorizar a publicação deste artigo, como também agradece, penhoradamente, as intervenções dos professores Mauro Luis Iasi e Maria Mello de Malta.

Por José Luís Fiori(Professor titular do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional (IE/UFRJ), e do Programa de Pós-Graduação em Bioética e Ética Aplicada (PPGBIOS/UFRJ), Coordenador do GP do CNPQ, “Poder Global e Geopolítica do Capitalismo”, e do Laboratório de “Ética e Poder Global”, do NUBEIA/ UFRJ; pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis,  INEEP).

“Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do país e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais?”

Gal Eduardo Villas Boas, in Animus, Consultor Jurídico 11/11/2018 [1]

A soma dos fatos e dos números não deixa lugar a dúvidas que a resposta do governo brasileiro à pandemia do coronavírus foi absolutamente desastrosa, quando não criminosa; e seu plano de vacinação massiva da população é um caos, quando não um engodo. Já são 7,5 milhões de brasileiros infectados e cerca de 200 mil morreram até agora, e as autoridades seguem batendo cabeça diariamente, como se fossem um bando de palhaços irresponsáveis e debochados. E apesar de tudo isso, o general Eduardo Pazuello segue ministro da Saúde, sem entender de pandemias, nem de planejamento, nem de logística. Simplesmente porque ele é apenas mais uma nulidade de um governo que não existe, que não tem nenhum objetivo nem estratégia, e que não é capaz de formular políticas públicas que tenham início, meio e fim.

Por isso, o fracasso frente à pandemia se repete monotonamente em todos os planos e áreas de ação de um governo que se contenta em assistir, com ar de galhofa, à desintegração física e moral da sociedade brasileira, enquanto estimula a divisão, o ódio e a violência entre os próprios cidadãos. É o mesmo descaso e omissão com a vida que este governo vem mantendo frente ao avanço da devastação ecológica da Floresta Amazônica, da Região do Cerrado e do Pantanal, com números que vêm provocando um levante mundial contra o Brasil.

Basta olhar os números para dimensionar o tamanho do desastre, começando pela economia, que já estava estagnada desde antes da pandemia. A previsão do PIB brasileiro para ao ano de 2020 é de uma queda de cerca de 5%, embora o PIB brasileiro já viesse caindo em 2018 e em 2019, quando cresceu apenas 1,1%. Mas o que é mais importante, a taxa de investimento da economia, que foi de 20,9% em 2013, caiu para 15,4% em 2019 e deve cair muito mais no ano de 2020, segundo todas previsões das principais agências financeiras nacionais e internacionais. Para piorar o quadro de desmonte, a saída de capitais do país, que havia sido de R$ 44,9 bilhões em 2019 – a maior desde 2006 –, quase dobrou em 2020, passando para R$ 87,5 bilhões de reais e sinalizando uma desconfiança e aversão crescente dos investidores internacionais com relação ao governo do senhor Bolsonaro e seu ministro Paulo Guedes, apesar de suas festejadas reformas trabalhista e previdenciária.

Por isso mesmo, em 2019 o Brasil foi simplesmente excluído do Índice Global de Confiança para Investimento Estrangeiro publicado pela A. T. Kearney, consultoria norte-americana que traz o nome dos 25 países mais atraentes do mundo para os investidores estrangeiros, o mesmo índice segundo o qual o Brasil ocupava a 3ª posição nos anos 2012/2013. Paralelamente, a participação da indústria no PIB nacional, que era de 17,8% em 2004, caiu para 11% em 2019, e deve cair ainda mais em 2020/2021; e o desemprego, que era de 4,7% em 2014, subiu para 14,3% em 2020, e deve seguir subindo no próximo ano.

A indústria brasileira está enfrentando escassez de matéria-prima e, segundo o DIEESE, o país já acumula, em 2020, uma taxa de inflação de 12,14% no preço dos alimentos que afetam mais diretamente o consumo das famílias mais pobres. De outro ângulo, os especialistas estão prevendo um apagão elétrico para o ano de 2021, como já aconteceu no estado do Amapá. E agora, no final de 2020, o Brasil está com déficit energético e importa energia do Uruguai e da Argentina, o que explica a Bandeira Vermelha 2 que começará a pesar no bolso dos consumidores em 2021. Ainda com relação ao estado da infraestrutura do país, a Confederação Nacional dos Transportes vem advertindo que o estado geral das rodovias brasileiras piorou em 2019, e 59% da malha rodoviária pavimentada apresentam hoje sérios problemas de manutenção e circulação. Por fim, como consequência inevitável dessa destruição física, a economia brasileira sofreu uma das maiores reversões de sua história moderna, deixando de ser a 6ª ou 7ª maior do mundo, na década de 2010, para passar ser a 12ª em 2020, devendo cair ainda mais, para o 13º lugar, em 2021, segundo previsão do Centre for Economics and Business Research publicada pelo jornal The Straits Times, de Singapura.

As consequências sociais desta destruição econômica eram previsíveis e inevitáveis: mesmo antes da pandemia, em 2019, 170 mil brasileiros voltaram para o estado de pobreza extrema, onde já viviam aproximadamente 13,8 milhões, número que deverá crescer exponencialmente depois que terminar o “auxílio emergencial”, aumentando ainda mais a taxa de desemprego em 2021. A nova realidade criada pelo fanatismo ultraliberal do senhor Guedes já apareceu imediatamente retratada no novo ranking mundial das Nações Unidas, o IDH, que mede a “qualidade de vida” das populações, no qual o Brasil caiu cinco posições, passando de 79º para 84º lugar entre 2018 e 2020. No mesmo período, o Brasil passou a ser o país com a segunda maior concentração de renda do mundo, atrás apenas do Qatar, e o oitavo mais desigual do mundo, atrás apenas de sete países africanos.

Por fim, é impossível completar este balanço dos escombros deste governo sem falar da destruição da imagem internacional do Brasil, conduzida de forma explícita e aleivosa pelo palerma bíblico e delirante que ocupa a chancelaria. Aquele mesmo que comandou a tragicômica “invasão humanitária” da Venezuela em 2019, à frente do seu fracassado Grupo de Lima; o mesmo que fracassou na sua tentativa de imitar os Estados Unidos e promover uma mudança de governo e de regime na Bolívia, através de um golpe de Estado; o mesmo que já comprou briga com pelo menos 11 países da comunidade internacional que eram antigos parceiros do Brasil; o mesmo que se lançou numa guerra beatífica contra a China, o maior parceiro econômico internacional do Brasil; o mesmo que conseguiu derrotar, em poucas semanas, duas candidaturas brasileiras em organismos internacionais; o mesmo que conseguiu que o Brasil fosse excluído da Conferência Internacional sobre o Clima realizada pela ONU em dezembro de 2020; e por fim, o mesmo que celebrou com seus subordinados do Itamaraty, o fato de o Brasil ter sido transformado, na sua gestão, num “pária internacional”. Algo verdadeiramente sem precedentes e que dispensa qualquer tipo de comentário adicional vindo da parte de um rapagão deslumbrado que foi nomeado praticamente por John Bolton e Mike Pompeo, a dupla de “falcões” que comandou durante alguns meses, em conjunto, a política externa do governo de Donald Trump.

Ao final do segundo ano deste governo, compreende-se imediatamente por que a maioria dos que participaram do golpe de Estado de 2016, e que depois apoiaram o governo do senhor Bolsonaro, estejam abandonando o barco e passando para a oposição. Os jovens “cruzados curitibanos”, tendo cumprido a missão que lhes foi encomendada e depois dos seus cinco minutos de celebridade, estão fugindo ou voltando para o seu anonimato, enquanto afundam na lama da sua própria corrupção. A grande imprensa conservadora mudou e hoje dedica-se a atacar o governo diariamente, enquanto os partidos tradicionais de centro e centro-direita, que estiveram juntos com o senhor Bolsonaro desde o golpe de 2016, agora se afastam e tentam construir um bloco parlamentar de oposição. E até mesmo o “mercado” parece cada vez mais insatisfeito com o seu ministro da Economia, que já foi comemorado em outros tempos como a Joana d’Arc da revolução ultraliberal no Brasil. Assim, neste momento o governo só conta com o apoio político do submundo fisiológico do Congresso Nacional, que a imprensa chama delicadamente de “centrão”, o mesmo mundo em que o senhor Bolsonaro vegetou durante 28 anos no mais absoluto anonimato, em nove partidos diferentes. Esse grupo parlamentar sempre esteve e estará pendurado em qualquer governo que lhe ofereça vantagens, mas nunca teve nem terá capacidade autônoma de constituir ou sustentar um governo por sua própria conta. Por isso, depois de dois anos dessa desgraceira, existe uma pergunta que não quer calar: como se sustenta, afinal, este governo mambembe, apesar da destruição que vai deixando pelo caminho?

Já foi mais difícil, mas hoje a resposta está absolutamente clara, porque na medida em que os demais sócios relevantes foram se afastando, o que sobrou de fato foi um simulacro de governo militar, absolutamente mambembe. Basta olhar para os números, uma vez que todos sabem que o próprio presidente e seu vice são militares, um capitão e o outro general da reserva. Mas além deles, 11 dos atuais 23 ministros do governo também são militares, e o próprio ministro da Saúde é uma general da ativa, todos à frente de um verdadeiro exército composto por 6.157 oficiais da ativa e da reserva que ocupam postos-chave em vários níveis do governo. Segundo dados extraoficiais, são 4.450 do Exército, 3.920 da Aeronáutica e 76 da Marinha, número que talvez seja até maior do que o dos militantes oficiais do PSDB e do PT que ocuparam postos governamentais durante seus governos em décadas passadas.

Por isso, depois de dois anos fica difícil tapar o céu com a peneira e tentar separar as FFAA do senhor Bolsonaro, não apenas pela extensão e pelo grau de envolvimento pessoal dos militares instalados dentro do Palácio da Alvorada, mas também pelo nível e intensidade dos contatos e reuniões regulares mantidas durante estes dois anos entre generais e oficiais da reserva e da ativa, dentro e fora do governo, sobretudo entre os altos escalões das duas instituições. Depois de tudo isso, seria como querer separar dois ovos de uma mesma gemada.

Isto posto, o fracasso deste governo deverá atingir pesadamente o prestígio e a credibilidade das FFAA brasileiras, colocando uma pá de cal sobre o mito da superioridade técnica e moral dos militares com relação ao comum dos mortais. Agora está ficando absolutamente claro, e de uma vez por todas, que os militares não foram treinados para governar. Uma coisa são seus manuais de geopolítica e exercícios de ginástica e de guerra, outra coisa inteiramente diferente são os conhecimentos e a experiência acumulada indispensável para a formulação de qualquer tipo de política pública, ainda mais para se propor a governar um país com o tamanho e a complexidade do Brasil.

Além disso, também ficou claro na história recente que a presunção da superioridade moral dos militares é apenas um mito, porque os militares são tão humanos e corruptíveis quanto todos os demais homo sapiens. Basta lembrar o episódio recente da solicitação irregular, por parte de centenas de militares, da “ajuda emergencial” destinada às pessoas mais pobres, na primeira fase da pandemia no Brasil. Estima-se que foram mais de 50 mil casos de irregularidades denunciadas pelo Tribunal de Contas da União e que tiveram que devolver o auxílio aos cofres públicos. Mas mesmo depois da devolução dos valores adquiridos irregularmente, o que esse episódio ensina é que não existe nenhuma razão para acreditar que os soldados estejam acima de qualquer suspeita e que sejam inteiramente infensos às “tentações mundanas”.

Aliás, não existe caso mais exemplar do fracasso desta crença na superioridade do juízo militar do que o que se passou com o próprio ex-Comandante em Chefe das Forças Armadas brasileiras que, autoconvencido de sua “genialidade estratégica” e de sua grande “sabedoria moral”, decidiu avalizar em nome das FFFA, e tutelar pessoalmente a operação que levou à presidência do país um psicopata agressivo, tosco e desprezível, cercado por um bando de patifes sem nenhum princípio moral, e de verdadeiros bufões ideológicos, que em conjunto fazem de conta que governam Brasil, há dois anos. Que sirva de exemplo para que não se repitam estas pessoas que se consideram superiores e iluminadas, com direito a decidir em nome da sociedade, usem farda, toga, batina ou pijama.

No século XX, os militares deram uma contribuição importante para a industrialização da economia brasileira, mas também contribuíram de forma decisiva para a construção de uma sociedade extremamente desigual, violenta e autoritária. E castraram toda uma geração progressista que poderia ter contribuído para o avanço do sistema democrático instalado em 1946. Assim mesmo, agora no século XXI, a nova geração de militares, bastante mais medíocre, está se dedicando a destruir o que de melhor haviam feito no século passado.

No século XX, os militares deram uma contribuição importante para a industrialização da economia brasileira, mas também contribuíram de forma decisiva para a construção de uma sociedade extremamente desigual, violenta e autoritária. E castraram toda uma geração progressista que poderia ter contribuído para o avanço do sistema democrático instalado em 1946. Assim mesmo, agora no século XXI, a nova geração de militares, bastante mais medíocre, está se dedicando a destruir o que de melhor haviam feito no século passado.

Por tudo e com tudo, parece que está chegando a hora de a sociedade brasileira se desfazer desses “mitos salvadores” e devolver seus militares a seus quartéis e suas funções constitucionais. Assumir de uma vez por todas, com coragem e com suas próprias mãos, a responsabilidade de construir um novo país que tenha a sua cara, e que seja feito à sua imagem e semelhança, com seus grandes defeitos, mas também com suas grandes virtudes. Que seja um país altivo e soberano, mais justo e menos violento, que respeite as diferenças e todas as crenças, e que volte a ser mais humano, mais fraterno e mais divertido. E que o Brasil volte a ser aceito, admirado e respeitado pelo resto do mundo. Estes pelo menos são meus votos para o ano de 2021.

31 de dezembro de 2020

Em homenagem ao meu grande amigo Luiz Alberto Gomes de Souza, que faleceu no dia 30 de dezembro de 2020, e que foi um grande guerreiro na luta contra a ditadura militar e contra desigualdade a a injustiça da sociedade brasileira.

[1] Declaração do Gal Eduardo Villas Boas, feita no dia 3 de abril de 2018, véspera do julgamento do pedido de habeas corpus impetrado pela defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foi lida na época como uma pressão explícita do ex-Comandante em Chefe das FFAA sobre o STF, a favor da condenação do ex-presidente e pela sua exclusão da disputa presidencial de 2018.

A FEDERAÇÃO SINDICAL MUNDIAL (FSM) LANÇA CAMPANHA PELA LIBERTAÇÃO DE CRIANÇAS PALESTINAS DETIDAS EM PRISÕES DO GOVERNO DE ISRAEL

Com mais de 100 milhões de sindicalistas em todo o mundo, a Federação Mundial de Sindicatos está comprometida com a paz. Em 1º  de janeiro de 2021, lançou uma campanha internacional pela libertação, em especial, de 155 crianças palestinas aprisionadas pelo governo israelense.

A FSM pede, também, a libertação de 4.500 prisioneiros politicos palestinos, entre esses, estão mulheres, pessoas de idade avançada, bem como pessoas doentes.

Em 6 de janeiro, a FSM enviou um memorando ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha na Palestina, pedindo a libertaçao imediata dos prisioneiros palestinos, especialmente crianças, pedindo sua libertação imediata e proteção de seus direitos. Foram realizadas manifestações de solidariedade em três cidades na Palestina e no Líbano em frente aos escritórios da Cruz Vermelha.

 A FSM apela a todos os sindicatos ativistas, membros e amigos da FSM em todo o mundo, para organizar manifestações em janeiro de 2021, em frente aos escritórios da Cruz Vermelha de seus respectivos países, para enviar memorandos à Cruz Vermelha de apoio à campanha. Pede, ainda, que footografem seus eventos e depois enviem essas fotos para os escritórios centrais da FSM.

 Vamos unir nossos esforços e nossas vozes para defender a liberdade e os direitos das crianças palestinas, para defender os interesses do povo palestino, dos trabalhadores de todos os países, contra qualquer injustiça e ação criminosa contra os trabalhadores e suas famílias.

 Que ninguém fique sozinho nas suas lutas!
 

 VOCÊ PODE MANDAR SEU APOIO A ESSA CAMPANHA ATRAVÉS DOS COMENTÁRIOS, PARA NOSSO BLOG, QUE O REMETEREMOS PARA A FSM.

 

Réquiem por uma utopia defunta

O internacionalistas.org  agradece a gentileza do prof. José Luís Fiori em autorizar a publicação deste artigo, como também agradece, penhoradamente, as intervenções dos professores Mauro Luis Iasi e Maria Mello de Malta.

Por José Luís Fiori(Professor titular do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional (IE/UFRJ), e do Programa de Pós-Graduação em Bioética e Ética Aplicada (PPGBIOS/UFRJ), Coordenador do GP do CNPQ, “Poder Global e Geopolítica do Capitalismo”, e do Laboratório de “Ética e Poder Global”, do NUBEIA/ UFRJ; pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis,  INEEP).

I’m not even here to persuade you
that the liberal international order
is necessarily all bad.
I´m just here to persuade you that it´s over

Niall Ferguson. The end of the liberal order
London: Oneworld Book, 2017, p. 6

Tudo começou na madrugada do dia 10 de novembro de 1989, quando se abriram os portões que dividiam a cidade de Berlim. Depois, como se fosse um castelo de cartas, caíram os regimes comunistas da Europa Central, dissolveu-se o Pacto de Varsóvia, reunificou-se a Alemanha, e desintegrou-se a União Soviética. E o fim da Guerra Fria foi comemorado com se fosse a vitória definitiva da “democracia”, do “livre mercado”, e de uma nova “ordem ética internacional”, orientada pela tábua dos “direitos humanos”.

Trinta anos depois, entretanto, o panorama mundial mudou radicalmente. A velha “geopolítica das nações” voltou a ser a bússola do sistema mundial; o nacionalismo econômico voltou a ser praticado pelas grandes potências; e os grandes “objetivos humanitários” dos anos 1990 foram relegados a um segundo plano da agenda internacional. Nesses 30 anos, o mundo assistiu à vertiginosa ascensão econômica da China, à reconstrução do poder militar da Rússia e ao declínio do poder global da União Europeia (UE).

Mas o mais surpreendente de tudo aconteceu no final deste período, quando os Estados Unidos se afastaram de seus antigos aliados europeus e voltaram-se contra os valores e as instituições da ordem “liberal e humanitária” que eles mesmos haviam criado, depois do fim da Guerra Fria. E todos se perguntam como foi que o mundo deu uma cambalhota tão grande, para frente e para trás, em tão pouco tempo ? E o que passará sgora com o mundo, depois das eleições presidenciais norte-americanas, de novembro de 2020?

Já se falou muito do papel que teve a globalização econômica e seus efeitos perversos, no desencanto com a “ordem liberal” dos 90: por que provocou um aumento geométrico da desigualdade entre os países, as classes e os indivíduos; e por que ficou associada a uma sucessão de crises econômicas localizadas que culminaram na grande crise financeira de 2008, que contagiou a economia mundial – a partir dos Estados Unidos – pelas veias abertas pela desregulamentação dos mercados globalizados. Mas existe um outro lado deste processo de autodestruição que em geral é menos mencionado, porque envolve um aspecto essencial da forma em que foi exercida a liderança mundial dos Estados Unidos, durante esses 30 anos.

A Guerra Fria terminou sem nenhum tipo de “acordo de paz”, e depois da dissolução da União Soviética, as potências vitoriosas não definiram entre si uma nova “constituição” para o mundo. Antes mesmo que se pudesse colocar em pauta esse problema, a vitória arrasadora dos Estados Unidos na Guerra do Golfo acabou impondo a vontade americana como princípio ordenador do “novo mundo”. Por isso pode-se dizer que o “bombardeio teledirigido” do Iraque, em 1991, cumpriu papel análogo ao do bombardeio atômico de Hiroshima e Nagasaki, em 1945: foi a hora em que se definiu – simultaneamente – uma nova “ética internacional” e um novo “poder soberano”, responsável – a partir daquele momento – pela arbitragem do “bem” e do “mal”, do “justo” e do “injusto” no sistema internacional. Com a grande diferença que, em 1991 – ao contrário de 1945 – não existia no sistema mundial nenhuma outra potência capaz de questionar os desígnios unilaterais dos EUA. Foram 42 dias de ataques aéreos contínuos, seguidos de uma invasão terrestre rápida e contundente, com poucas centenas de baixas americanas e cerca de 150 mil mortos iraquianos. A mesma forma de guerra “à distância”, que depois foi utilizada na Iugoslávia, em 1998, e também nas “intervenções humanitárias” da OTAN na Bósnia em 1995, e no Kosovo em 1999.

Muitos perceberam que a vitória americana na Guerra do Golfo havia consagrado uma nova “ordem ética” e um novo “poder soberano”, com capacidade de impor e arbitrar o novo sistema de valores em todo o mundo. Mas nem todos perceberam que esta nova ordem trazia consigo contradições e tendências próprias de um poder global quase absoluto, sem limites capazes de impedir seu desvio na direção da arbitrariedade, da arrogância e do fascismo1, encobertas pela euforia da vitória e pela adesão entusiástica à nova ideologia da globalização liberal. Em particular durante a administração de Bill Clinton, que passou para a história como o período em que os Estados Unidos teriam utilizado seu poder econômico e força militar em defesa da democracia, da paz, da liberdade dos mercados e dos direitos humanos. Na prática, o governo de Bill Clinton seguiu os mesmos passos do governo de George Bush (pai), os dois igualmente convencidos de que o século XXI seria um “século americano”, e que o “mundo necessitava dos Estados Unidos”, como costumava repetir Magdeleine Albright, sua secretária de Estado. Tanto foi assim que, durante os oito anos de seus dois mandatos, a administração Clinton manteve um ativismo militar permanente ao lado de sua retórica “globalista” e “humanitarista”. Nesse período, segundo Andrew Bacevitch, “os Estados Unidos se envolveram em 48 ações militares, muito mais do que em toda a Guerra Fria”,2 incluindo suas “intervenções humanitárias” na Somália em 1992-1993; na Macedônia em 1993; no Haiti em 1994; na Bósnia-Herzegovina em 1995; no Sudão em 1998; na Iugoslávia em 1999; no Kosovo em 1999; e no Timor Oriental, também em 1999. Como observou Chalmer Johnson, importante analista internacional norte-americano:

[…] entre 1989 e 2002 ocorreu uma revolução nas relações da América do Norte com o resto do mundo. No início desse período, a condução da política externa norte-americana era basicamente uma operação civil. Por volta de 2002, tudo isto mudou e os Estados Unidos já não tinham mais uma política externa; eles tinham um império militar. Durante o período de pouco mais do que uma década (anos 1990), nasceu um vasto complexo de interesses e projetos que eu chamo de “império” e que consiste em bases navais permanentes, guarnições, bases aéreas, postos de espionagem e enclaves estratégicos em todos os continentes do globo.3

Para não falar da ocupação americana quase instantânea dos territórios que haviam estado sob influência soviética até 1991 – começando por Letônia, Estônia e Lituânia, seguindo por Ucrânia e Bielorrússia, os Balcãs, o Cáucaso e chegando até a Ásia Central e o Paquistão. A mesma lógica expansiva e de ocupação que explica a rapidez com que os EUA levaram à frente seu projeto de ampliação da OTAN, mesmo contra o voto dos europeus, em alguns casos, construindo na década de 90 um verdadeiro “cordão sanitário” que separava a Alemanha da Rússia, e a Rússia da China, de tal maneira que no final dos anos 90, a nova “ordem pacífica, liberal, e humanitária” já havia permitido que os Estados Unidos construíssem uma verdadeira infraestrutura de dominação militar global.

Quando se lê desta forma a história, entende-se melhor como foi que o projeto de “hegemonia humanitária” dos anos 90 transformou-se tão rapidamente num projeto imperial explícito durante o governo de George W. Bush, em particular depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Porque na prática foram os “atentados” e a imediata declaração da “guerra universal ao terrorismo” que permitiram a George W. Bush colocar sobre a mesa de maneira direta e franca o projeto de construção do “século americano”. A nova doutrina estratégica americana se propunha a combater um “inimigo terrorista” que podia ser qualquer pessoa ou grupo, dentro ou fora dos Estados Unidos. Tratava-se de um inimigo universal e ubíquo, ou seja, quem quer que fosse considerado pelo governo americano como uma ameaça à sua segurança nacional, podendo ser atacado e destruído em qualquer lugar que estivesse, por cima do direito à soberania nacional dos povos. Por isso, quem aceitasse participar dessa guerra ao lado dos Estados Unidos aceitava também transferir-lhe uma soberania que o tornava automaticamente um poder global de tipo imperial, numa guerra que não teria limite e que seria cada vez mais extensa e permanente. Na verdade, a mensagem era uma só, e não estava destinada apenas aos grupos terroristas: os EUA estavam decididos a manter sua dianteira tecnológica e militar com relação a todas as demais potências do sistema. Uma distância que desse aos americanos o poder de arbitrar isoladamente a hora e o lugar em que seus adversários reais, potenciais ou imaginários, devessem ser “contidos” através de ataques militares diretos. É desnecessário sublinhar, por óbvio, que nesse novo contexto as ideias de soberania e democracia, e de defesa dos direitos humanos, perderam relevância ou foram praticamente esquecidas, sendo utilizadas apenas de forma ocasional e oportunística para encobrir guerras e intervenções feitas em nome dos interesses estratégicos dos EUA e de seus aliados mais próximos.

Isto explica por que a resistência ao poder americano acabou renascendo de dentro do próprio núcleo das velhas grandes potências do sistema interestatal, e da Rússia, em particular, no campo militar. Um momento decisivo dessa história aconteceu na Geórgia, em 2008, quando o poder imperial dos EUA e da OTAN – que se propunha a incorporar o país – encontrou seu primeiro limite depois do fim da Guerra Fria. A chamada “Guerra da Geórgia” foi muito rápida e talvez até passasse despercebida na história do século XXI, se não tivesse acontecido o inesperado: a intervenção das Forças Armadas da Rússia, que em poucas horas cercaram o território, numa demonstração contundente de que a Rússia havia decidido colocar um limite à expansão das tropas da OTAN para o Leste, vetando a incorporação da Geórgia como novo Estado-membro da organização. Foi exatamente naquele momento que a Rússia demonstrou, pela primeira vez, sua decisão e capacidade militar de opor-se ou de vetar o arbítrio unilateral dos EUA, dentro da nova ordem mundial do século XXI. Mais à frente, em 2015, a Rússia deu um novo passo nessa mesma direção, quando interveio na Guerra da Síria, sem consultas prévias e sem subordinação a nenhum outro comando que não fosse o de suas próprias Forças Armadas. Com sua intervenção militar na Síria, a Rússia já não estava se propondo apenas a vetar decisões e inciativas estratégicas dos EUA e da OTAN; impôs pelas armas seu direito de também arbitrar e intervir nos conflitos internacionais, mesmo que fosse contra os mesmos inimigos, e a partir dos mesmos valores defendidos por europeus e norte-americanos. E esta foi a grande novidade que mudou o rumo dos acontecimentos mundiais, ao questionar a “Pax americana”’ a partir dos mesmos princípios, e através dos mesmos métodos dos norte-americanos.

Do nosso ponto de vista, foi a surpresa e a gravidade desse “desafio” que levaram os Estados Unidos de Donald Trump a atacar com tamanha violência o seu próprio projeto “liberal, pacifista e humanitário” da década de 1990,4 abrindo mão do seu “messianismo moral” e trocando suas convicções liberais, e humanitárias, pela defesa pura e simples do seu próprio “interesse nacional”.

Se Donald Trump for derrotado nas eleições presidenciais de novembro de 2020, e se os democratas elegerem Joe Biden como novo presidente norte-americano, é muito provável que se proponham a refazer as alianças tradicionais e a imagem cosmopolita e multilateral da política externa norte-americana. Mas os cristais já foram quebrados, e uma coisa é absolutamente certa: a utopia liberal e humanitária dos anos 90 está morta.

1 “Se a Guerra do Golfo definiu o novo ‘princípio do limite’ dentro do sistema mundial, ela não resolveu uma outra questão fundamental: ela não esclareceu qual será o ‘limite deste princípio’. E neste caso, não está errado pensar que esta nova ‘Guerra Pérsica’ não conduza a humanidade a um novo patamar civilizatório com a universalização da ética cosmopolita criada pela Europa iluminista, senão que, pelo contrário, se transforme na antessala de uma nova era marcada pela força, o medo e o retrocesso político-ideológico dentro da própria coalizão que saiu vitoriosa desta guerra” (Fiori, J. L. A “Guerra Pérsica”: uma guerra ética. Cadernos de Conjuntura, n. 8. Rio de Janeiro: Instituto de Economia Industrial/UFRJ, 1991, p. 5).

2 Bacevich, A. American Empire. Massachusetts: Harvard University Press, 2002, p. 143 (tradução nossa).

3 Johnson, C. The Sorrows of Empire. New York: Metropolitan Books, 2004, p. 22-23 (tradução nossa).

4 Fiori, J. L. Babel Syndrome and the New Security Doctrine of the United States. Journal of Humanitarian Affairs, v. 1, n. 1, p. 42-5, 2019.

EM MEMÓRIA DE ALEXANDER ZAKHARCHENKO

Por Humberto Carvalho

Em 31 de agosto de 2018, vítima de uma bomba instalada no restaurante Separ, no centro de Donestk, por um grupo neonazista ucraniano, morreu o Major-General Alexander Vladimirovich Zakharchenko, entre outras doze vítimas. Apesar do título pomposo de Major-General, Zakharchenko não queria ser militar, mas os acontecimentos históricos ocorridos durante sua curta vida levaram-no, inexoravelmente, à carreira das armas e da política.

Zakharchenko nasceu  em 26 de junho de 1976 na cidade de Donestk que, à época, pertencia à Ucrânia socialista que integrava a União Soviética.

Na União Soviética, afora a dos astronautas,  não havia profissão mais honrosa do que a dos mineiros. Desde menino, Zakharchenko sonhava em trabalhar em minas, seguindo o exemplo de seu pai. Graduou-se numa escola técnica e foi trabalhar como eletricista-mecânico de minas.

O salário de um mineiro, na URSS, permitia a compra de um “Zhiguli” (marca de automóvel russo que, exportado, tomava o nome de Lada), viagens de turismo, frequentar restaurantes… O que não ocorre no capitalismo. Por tais razões, entre outras, Zakharchenko tinha orgulho de ser um cidadão soviético, onde o trabalhador não era visto como uma mercadoria, mas como o centro do poder. Por seus estudos de História, Zakharchenko sabia que os grandes inimigos dos trabalhadores e do socialismo eram os fascistas e os nazistas.

Em reconhecimento ao seu trabalho e às qualidades de líder, Zakharchencko foi nomeado diretor-chefe da filial de Donestk da organização “Oplot”, sediada em Carcóvia, que fabricava os famosos tanques de guerra ucranianos T-84 Oplot. Zakharchenko casou-se com Natália e o casal teve quatro filhos, o último nascido em 2015. A vida parecia leve para Alexander Zakharchenko.

Mas o destino de Zakharchenko estava selado. Com a traição de Gorbachev e Yeltsen, desintegrou-se a União Soviética. A Ucrânia se separou da URSS. E em 2014, os herdeiros de Stepan Bandera, o nazista ucraniano, deram um golpe na Ucrânia e assumiram o poder. Então, seguindo o “verboten” de Hitler, implantou-se o ucraniano “заборонено” (pronuncia-se zaboroneno), ambos significando “proibido”. O plutocrata Poroshenko e o partido neonazista, herdeiro de Stepan Bandera, o Svoboda, proibiram tudo o que dizia respeito à União Soviética, inclusive jornais, livros, escritos em russo.

A reação ao neonazismo não tardou e, ainda em 2014, Donetsk e Lugansk tornaram-se independentes e repúblicas populares. Inevitavelmente, estourou uma guerra entre a Ucrânia neonazista e Donbass, região formada pelas repúblicas populares de Donestk e Lugansk. A guerra continua, cada vez mais sangrenta, e esse conflito pode gerar uma guerra mundial.

No século passado, a República Espanhola foi o primeiro país a lutar, com armas, contra o fascismo e o nazismo. As Repúblicas Populares de Donestk e Lugansk são os primeiros países, neste século, a lutarem, com armas, contra o neofascismo e o neonazismo. O tempo dirá que isso é uma honra, apesar do sacrifício.

Zakharchenko criou e liderou a milícia de Donestk, recebendo várias condecorações. Foi-lhe conferido, então, o cargo de Major-General. Participou de batalhas, onde foi ferido várias vezes e recebeu a medalha Estrela Dourada de Herói da República Popular de Donestk, entre outras

Em 8 de agosto de 2014, Zakharchenko tornou-se Presidente do Conselho de Ministros do Supremo Conselho da República Popular de Donestk. Liderando o povo de Donestk e sua milícia na luta pela independência e contra o neonazismo, uma bomba ceifou sua vida de herói de Donbass.

Através de sua vida e de sua morte, Zakharchenko provou sua dedicação e seu amor ao povo, ao socialismo e à liberdade. Glória eterna ao herói Alexander Vladimirovich Zakharchenko!

ENTREVISTA COM PIOTR NIKOLAEVICH SIMONENKO,SECRETÁRIO GERAL DO PARTIDO COMUNISTA DA UCRÂNIAE COM ADAM MARTYNIOUK, SEGUNDO SECRETÁRIO NACIONAL , REALIZADA EM 14 DE DEZEMBRO DE 2020 POR AYMERIC MONVILLE, PARA O INICIATIVE COMMUNISTE.

Tradução: Humberto Carvalho

Aymeric Monville: Temos o prazer de falar com Piotr Simonenko, Secretário Nacional do Partido Comunista da Ucrânia. Bom dia, estamos honrados com este encontro, obrigado por sua disponibilidade. Nós, franceses, temos um grande respeito pelos comunistas ucranianos, especialmente nesta difícil situação. Vamos traduzir e publicar esta entrevista em francês. Na França, todos estão cientes das duras repressões anticomunistas em seu país, do que aconteceu na Casa dos Sindicatos 1 , das ameaças que vocês mesmos enfrentam. Você poderia falar sobre a situação atual na Ucrânia, para o público francês e francófono, pelo menos desde 2014 ou mesmo antes?

1  Refere-se ao incêndio provocado por neonazistas no edifício dos sindicatos, em Odessa, em março de 2014.Morreram carbonizados mais de 30 sindicalistas. O Google, no Brasil, retirou os vídeos do incêndio sob o pretexto de “ofensa a grupos” (neonazistas). Mas, você pode ver aqui (versão russa) https://www.youtube.com/watch?v=f7duBZFfTs4

Piotr Simonenko: Dou as boas-vindas a todos os nossos amigos e camaradas da França, especialmente dentro do movimento comunista. E, claro, compartilho a necessidade de trocar informações, para que possamos identificar corretamente os objetivos estratégicos e táticos da unificação do movimento comunista na luta contra as forças da reação.

E, em resposta à sua pergunta, gostaria de enfatizar que o período de reação na Ucrânia começou após o colapso da União Soviética. Quero dizer, essa reação é essencialmente uma tentativa da classe burguesa emergente e dos oligarcas de destruir politicamente o movimento comunista na Ucrânia, ou seja, o Partido Comunista da Ucrânia.

A partir de 1991, após o golpe de estado anti-socialista, iniciou-se uma reação crescente com o objetivo de impedir a continuação da atividade política do Partido Comunista.

A primeira proibição do Partido Comunista ocorreu em 1991 e nós lutamos por 10 anos no Tribunal Constitucional para derrubar a proibição ilegal do Partido Comunista da Ucrânia.

O processo de banimento do Partido Comunista foi seguido por uma nova onda de reações a partir de 2014. E essa reação é determinada pelos novos objetivos que o capital internacional, as corporações transnacionais estão tentando definir e resolver no território do Ucrânia.

Como um primeiro passo, de 1991 a 2014, a questão da separação da Ucrânia e da Rússia foi implementada. A restauração do capitalismo estava em andamento, eles precisavam se apoderar desse território para resolver seus problemas, principalmente relacionados a mercados e mão de obra barata.

Nesse período, eles tiveram sucesso. Hoje, desde 2014, a Ucrânia tornou-se um trampolim para os interesses das corporações transnacionais, principalmente na crise que começou em 2008 e as novas condições da crise. Se antes disséssemos que a crise se devia a um descompasso entre oferta e demanda (ou seja, era sobre produção real), hoje as condições da crise são formadas por diversas pirâmides financeiras, que se inflam de ar, sem produzir nada.

Assim, a partir de 2008, surgiu a questão de que no prolongado período da crise seria necessário excluir a possibilidade de se organizar a classe trabalhadora para lutar por seus direitos. Descarta a possibilidade de que os sindicatos sejam um dos organizadores desse movimento pelos direitos sociais.

Assim, a partir de 2008, surgiu a questão de que no prolongado período da crise seria necessário excluir a possibilidade de se organizar a classe trabalhadora para lutar por seus direitos. Descarta a possibilidade de que os sindicatos sejam um dos organizadores desse movimento pelos direitos sociais.

Em 2014, a política estatal de renascimento do neofascismo na Ucrânia desde 2004, sob o presidente Yushchenko e a fascização da sociedade ucraniana se manifestou no retorno à glorificação de “heróis” que serviram aos interesses das estruturas hitleristas e Nazistas. Mas, como a Ucrânia, por sua composição em regiões, igualou os interesses das regiões ocidentais, que estavam sob o controle de organizações neofascistas, essa provocação foi planejada com a contra-revolução de 2014 – conhecida como Maidan. Graças a este Maidan, oligarcas, neofascistas e o crime organizado chegaram ao poder. Ou seja, eles estão trabalhando juntos hoje.

Seu objetivo é cumprir a tarefa de formar a Ucrânia como uma cabeça de ponte contra a Rússia. É um ponto quente no lado europeu, assim como o que está acontecendo no Oriente Médio, no Norte da África e em outras partes do mundo. A política de interesses do Ocidente, representado pelos Estados Unidos da América, é imposta.

Portanto, foi essa situação que levou a um novo nível de reação e agudeza. O que aconteceu desde 2014? Em primeiro lugar, um governo totalmente fantoche e uma gestão externa da Ucrânia. Na verdade, todas as questões de pessoal, política econômica, política social e política regional, ou seja, são impostas do exterior. Primeiro, sob o ditame dos representantes americanos.

Em segundo lugar, levou ao fato da Ucrânia hoje, ao assinar o Acordo de Associação com a Europa, ter sido conduzida para um caminho de destruição do seu potencial. Além disso, os oligarcas dominantes, os neofascistas e o crime organizado introduziram, na política de estado, a fascização da sociedade como uma ideologia de estado.

Do que estou falando? Daqueles que serviram aos interesses de Hitler durante a guerra na Ucrânia e daqueles que continuam com essas ideias hoje e têm a ideologia do nacionalismo integral no coração. Esta ideologia é considerada integral, porque une o nazismo alemão e o fascismo italiano.

A. M.: Sim, também na França essa ideia de nacionalismo integral é a mesma que foi defendida pelos fascistas franceses, como Charles Maurras.

P. S.: Aymeric, apoio seu relato e a afirmação deste problema porque você e todos nós temos as mesmas crenças. O que você quer dizer é que o capital, o capital transnacional entre outros, está usando grupos neofascistas como estruturas de controle do poder para impedir a luta organizada dos trabalhadores por seus interesses.

Foi o que aconteceu em nosso país. Portanto, agora na Ucrânia, depois de 2014, métodos de violência organizada, largamente utilizados, tornam-se  ou são elevados ao patamar de lei na Ucrânia. Tais como a lei da descomunização, que prevê a proibição da ideologia, do uso de símbolos do movimento operário: o martelo e a foice, a estrela, tudo é proibido. As proibições foram introduzidas precisamente para garantir que a reação tenha mecanismos para reprimir nossa luta, para nos responsabilizar criminalmente, pois, você vê, estamos usando esses símbolos.

Atualmente, existem mais de 400 processos penais contra meus companheiros de partido por participarem nas eleições de 2014, em particular por quererem ajudar os cidadãos ucranianos a exprimir a sua vontade, ou seja, a organizar referendos locais.

Tudo isso leva ao fato de que o Serviço de Segurança, o Ministério Público, a Polícia têm suas próprias estruturas neofascistas, que são financiadas em nível estadual, usam a forma de órgãos do Estado, em particular o sistema de execução da lei, e em nome desse sistema de aplicação da lei, como em nome do estado, efetivam essa supressão (de direitos). Ou seja, métodos terroristas no gerenciamento de processos estatais são aplicados.

Uma tendência muito perigosa após 2014 é que a gestão externa da Ucrânia agora prevê, principalmente por meio do Fundo Monetário Internacional, exercer enorme pressão sobre a política interna.

O parlamento ucraniano só aprova leis ditadas pelo FMI. E isso está ligado a problemas sociais específicos de provisão para idosos, de reforma da saúde pública.

Hoje, com o coronavírus e a pandemia, assistimos de fato à destruição do sistema de saúde criado durante a era soviética e que é reconhecido em todo o mundo como o mais eficaz.

Além disso, vimos na China que o sistema de que estamos falando, sob a liderança do Partido Comunista, resolveu rapidamente o problema. Por quê ? Porque originalmente o sistema de saúde foi projetado para ajudar as pessoas, enquanto o sistema atual, nas relações capitalistas, permite que outros se enriqueçam com a saúde de nossos cidadãos. Esses são, é claro, interesses diametralmente opostos.

É por isso que todos esses problemas fazem parte da vida na Ucrânia.

O que resultou disso? Depois de 2014, a Ucrânia é reconhecida na Europa como o país  com o maior nível de criminalidade.

Hoje a Ucrânia ameaça a Europa nas seguintes áreas: tráfico de seres humanos, tráfico de drogas, comércio ilegal de armas, e pela retirada das finanças da Ucrânia. Nos últimos três anos, de 2017 a 2020, US $ 25 bilhões foram sacados da Ucrânia e colocados em várias empresas offshore para pessoas físicas e jurídicas. E tudo isso, é claro, piora significativamente a situação em termos de tensão social e de soberania econômica de nosso país.

Portanto, tornou-se evidente que a Ucrânia de fato perdeu sua soberania econômica, sua soberania política. Isso porque, como um Estado fraco, está completamente sob controle americano.

A. M.: Já discutimos isso juntos em uma entrevista escrita da Bielo-Rússia. E foi postado em nosso site da Iniciativa Comunista. Você me disse que esteve presente nas eleições. Você pode nos contar o que aconteceu na Bielorússia em agosto e como  está a situção hoje?

P. S.: A questão da Bielorrússia é, infelizmente, um processo lógico de promoção dos interesses americanos no espaço pós-soviético.

E é claro que a única entre as ex-repúblicas da União – a Bielorússia – permaneceu comprometida com a realização de um princípio fundamental do ponto de vista das funções do Estado – o princípio da justiça.

Na Ucrânia, as reformas impostas externamente apenas pioram o quadro social e muitas pessoas estão agora na pobreza, os cidadãos estão com a renda insuficiente para sustentar suas famílias. E na Bielorússia, a política do governo é proteger e melhorar as condições de vida em nome do estado.

Participei de várias eleições na Bielorússia, quase todas as eleições, onde Lukashenko venceu. A convite da gestão presidencial, participei da preparação das eleições, ou seja, falei perante os coletivos de trabalho, falei perante outros públicos, e expus o que me parecia necessário como comunista, tendo a análise das consequências das reformas que foram impostas à Ucrânia. Avisei meus camaradas comunistas e os cidadãos da Bielorússia contra a repetição dos erros da Ucrânia.

E tenho avisado repetidamente meus colegas e camaradas em todos os fóruns que temos realizado dentro da União dos Partidos Comunistas: “Caros colegas do partido, na Ucrânia, desenvolveram mecanismos para suprimir a vontade dos cidadãos da ex-União Soviética, inclusive na Bielorússia, de uma soberania real e de melhorias reais nas condições de vida.

Então, tudo aconteceu na Ucrânia. E foi implementação através da “quinta coluna”, sua formação e os diferentes fundos de subvenção. Temos muitos deles, e lá, na Bielo-Rússia, começaram a subsidiar fundações para a formação e preparação de pessoas, principalmente jovens, que não têm nenhuma ligação com a experiência histórica de seus avós e ancestrais. Hoje eles não se preocupam em analisar em que condições esses problemas foram resolvidos. Hoje, sob os slogans de democracia, liberdade, etc., estão a fazer coisas que vão contra os interesses do povo bielorrusso.

Além disso, também avisei a Rússia. Eu disse que depois da Ucrânia virá a Bielorrússia, e depois da Bielorrússia será a sua vez.

Também na Rússia as consequências podem ser ainda mais graves, porque as suas características nacionais e confessionais, tal como na Ucrânia, podem reforçar as contradições e tendências centrífugas existentes.

Eu vi as condições em que a campanha presidencial de Lukashenko se desenrolou. Ele a construiu com base nas decisões políticas que tomou, no que realmente aconteceu, que é a política real. E toda a sua campanha eleitoral foi uma explicação do porquê, das decisões que ele tomou e como a vida dos cidadãos bielorrussos mudou.

E o que foi construído pela chamada oposição foi baseado em “slogans democráticos” comuns e em duas questões principais: os 26 anos de Lukashenko no poder e o fato de que, ao que parece, sua posição não se conformaria com os Valores europeus. Mas tudo isso é um absurdo.

Em primeiro lugar, gostaria de salientar o seguinte: Eu pessoalmente observei que as eleições foram realizadas em condições objetivas de possibilidade de os cidadãos da Bielorrússia expressarem a sua vontade e não houve violência. 

Depois, o espaço de informação, considerando que não existem canais de televisão oligárquicos na Bielorrússia, foi submetido a uma coisa: por favor, cidadãos, falem, discutam. E eles tiveram a oportunidade de se expressar. Como e o que foi feito é outra questão, mas eu pessoalmente vi que existem essas oportunidades de falar.

Quanto aos coletivos de trabalho, e ao uso de coletivos de trabalho. Basicamente, foi Lukashenko quem reuniu todos esses coletivos de trabalhadores após 1994. Na verdade, as reformas impostas em toda a ex-União Soviética, e em particular quando Shushkevich estava à frente da Bielorússia, resultaram apenas em apenas uma coisa – o declínio da Bielorrússia. O senhor deputado Lukashenko mencionou tudo. Claro, isso não é compreendido pela Europa, com seus padrões duplos.

É claro que eles precisam aproveitar uma cabeça de ponte também para uma base da OTAN; é claro que devemos completar a criação de um arco de confronto. O Mar Báltico e o Arco do Mar Negro – das repúblicas bálticas à Polônia, Ucrânia, Moldávia, Azerbaijão e Geórgia, a cabeça de ponte do confronto. Este arco é muito perigoso devido ao fato de que há uma guerra civil em curso na Ucrânia. E isso é transferido para o nível interestadual com a ajuda do Ocidente, porque então esse incêndio será mais fácil de incitar e criará perigo para toda a Europa.

A. M.: A esse respeito, entendi que você tem um forte senso de solidariedade para com outras ex-repúblicas soviéticas e que é membro, como Partido Comunista da Ucrânia, do PCUS. Como está progredindo a questão de unificar suas forças?

P. S.: Depois de 1991 e da destruição da URSS, tivemos de procurar um modelo adequado para ter em conta a legislação nacional, como na Ucrânia. Estamos proibidos de criar centros supranacionais, neste caso centros políticos.

É por isso que escolhemos o caminho que cada Partido Comunista, usando a experiência do período soviético, e no período soviético houve o Partido Comunista da Ucrânia, houve o Partido Comunista da Bielorússia, lá teve o Partido Comunista da Federação Russa (durante a última etapa) e o mesmo vale para os outros Partidos Comunistas das repúblicas soviéticas.

Por isso seguimos este caminho e criamos a СКП–КПСС, a União dos Partidos Comunistas, na qual somos independentes do ponto de vista organizacional, e submetemos nossas atividades comuns ao estudo da experiência, à organização das ações de acordo com os interesses de cada país e a coordenação das nossas ações.

Por exemplo, em 2008 organizamos uma das ações conjuntas no território da República Autônoma da Crimeia na Ucrânia, quando lutamos contra as manobras conjuntas com a OTAN. Não permitimos que navios de guerra estrangeiros ficassem estacionados lá.

Coordenação, desenvolvimento científico, troca de experiências – e tudo isso no âmbito da União dos Partidos Comunistas.

Quero sublinhar que também prestamos especial atenção à cooperação no âmbito da Iniciativa Internacional dos Partidos Comunistas e Operários (de que o PRCF é membro), no âmbito da esquerda na Europa.

A principal tarefa hoje na luta contra a usurpação dos globalistas e aquela ligada aos interesses do capital transnacional, contra a ameaça de fascização da sociedade, é unir nossos esforços.

A. M.: Nossa entrevista é conduzida em russo, mas é claro, ao visitar seu site, vi que você era muito a favor de aceitar a questão do idioma em toda sua diversidade, o que é a política soviética clássica. Qual é a situação linguística atual na Ucrânia?

P. S.: A situação linguística na Ucrânia é determinada pelo fato de que eles estão tentando fazer do país um território onde a Ucrânia é apenas para ucranianos. Você pode imaginar o quão perigoso é. 

Somos um estado multinacional, com 130 nações  e povos (etnias) vivendo no território da Ucrânia. Por isso, nos primeiros anos do regime soviético, em 1918-1920, a primeira coisa que fizemos foi organizar as estruturas relevantes para a erradicação do analfabetismo e a ucranização da população. Por outras palavras, criamos condições que permitem às pessoas que vivem no território da Ucrânia conhecer a língua e a cultura ucranianas e poder ler e escrever no idioma ucraniano.

Fizemos de tudo para desenvolver o idioma ucraniano. Mas tínhamos uma política clara: nos tempos soviéticos, havia duas línguas oficiais na Ucrânia. Isso se deve ao fato de a língua russa ser usada nas relações internacionais. Além disso, muitos dos nossos cidadãos falam russo em casa e no trabalho. E a língua ucraniana foi definitivamente usada, ninguém se opôs a ela. E achamos que era justo que isso ocorresse.

A partir de nossa independência após 1991,o idioma não foi objeto de uma unificação, mas de uma divisão na Ucrânia. Foi o problema do idioma que levou os nacionalistas ucranianos, que agora degeneraram em estruturas neofascistas, a dividir a sociedade ucraniana. Este é um primeiro fator.

O segundo é que eles usaram a questão  do idioma para afastar a Ucrânia da Rússia.

E hoje eles usam o problema da linguagem, entre outras coisas, para uma divisão religiosa, ou seja, a destruição da ortodoxia como a principal confissão religiosa na Ucrânia.

Portanto, o problema da linguagem, hoje, leva à alienação das pessoas e é um instrumento de violência. Eles proíbem  transmissões em russo, proíbem o ingresso de artistas russos, proíbem a exibição de filmes russos sob o pretexto de que atores foram filmados no Estado inimigo. É uma estrada que não leva a lugar nenhum.

Mas, após a aprovação da lei sobre o uso da língua ucraniana, temos outro problema, que aumenta as tensões nas fronteiras externas da Ucrânia.

Você conhece o problema de usar a língua húngara na Transcarpátia. E Orbán, o primeiro-ministro húngaro, também o está usando ativamente agora para consolidar primeiro a parte húngara da população da Ucrânia no território da região da Transcarpátia.

Este problema nas fronteiras da Ucrânia surgiu porque a lei sobre o uso da língua ucraniana exige que as crianças estudem exclusivamente em língua ucraniana.

Mas, afinal, costumávamos estudar certas matérias em línguas nacionais, mas agora isso praticamente só é permitido nas séries primárias, e nos estudos mais avançados não é permitido.

Além disso, em muitos casos, as bases da cultura são destruídas regionalmente e as pessoas são privadas da oportunidade de atender às suas necessidades culturais, inclusive linguísticas.

Portanto, esta questão hoje só leva ao fato de que através da violência limitamos as possibilidades do ensino superior, criamos contradições nas fronteiras e limitamos as possibilidades de formação no ensino médio nos respectivos programas. Tudo está interligado.

Por um lado, estamos destruindo um sistema educacional que foi reconhecido como um dos melhores em todo o mundo, o sistema educacional soviético. Isso também leva ao fato de que temos um enorme problema de recursos humanos.

Quase não temos mais formação profissional. E a educação funciona independentemente dos interesses do Estado. Tudo isto levou ao fato de mais de 50% dos jovens ucranianos não associarem o seu futuro à Ucrânia porque pretendem ir para o estrangeiro.

A. M.: Obrigado pelas tuas respostas, querido camarada.

P. S.: Não vá embora, quero apresentá-lo a Adam Martynyuk, Segundo Secretário Nacional do Partido Comunista da Ucrânia e ex-parlamentar. Adam, este é nosso amigo francês Aymeric Monville, por favor, não hesite em responder às perguntas.

Aymeric Monville: Prazer em lhe conhecer. O camarada Piotr Nikolaevich já me explicou o contexto geral. Quanto a você, como vê a situação atual?

Adam Martynyuk: A situação na Ucrânia é extremamente difícil. Isso se deve à gravidade da vida socioeconômica do estado. Infelizmente, a elite dominante muda constantemente, mas não muda em seus objetivos, embora chegue ao poder com as mesmas promessas num dia, e no segundo dia as esqueça.

E temos outro paradoxo. Todos nós, incluindo o nosso Partido Comunista, defendemos a restauração do poder dos Conselhos (Soviets). Porque oficialmente os “soviets” governam a Ucrânia. Mas esses conselhos não representam os interesses da classe trabalhadora, do campesinato e da intelectualidade operária. O conteúdo dos atuais conselhos é pró-capitalista e oligárquico. As últimas eleições autárquicas, onde houve uma luta muito séria pelo poder local, são a prova disso. Como ninguém, exceto um pequeno grupo de oligarcas, tem acesso ao orçamento do estado central, a luta pelos orçamentos locais tem sido travada entre as elites locais.

O  cerne do poder reside, portanto, nos soviets, que estão nas mãos da oligarqui, dos empresários  e dos “czares” locais, que compram pessoas dando-lhes empregos e fazendo com que votem num determinado sentido.

A situação econômica é extremamente difícil, apesar do fato de que a Ucrânia teve enormes oportunidades. Na época do colapso da União Soviética, era um dos dez países mais desenvolvidos do mundo.

Infelizmente, não conseguiu usar esse antecedente e agora voltou ao status de um dos países mais pobres da Europa. Apesar do potencial econômico criado por nossos antecessores, termos as melhores terras, grande número de minerais e recursos de trabalho, a mediocridade de nossos políticos, seguindo o mesmo caminho, fez com que a Ucrânia afundasse deste jeito.

Para encontrar, como se costuma dizer, um partido responsável, um bode expiatório, foi propagandeado primeiro que foram o governo soviético e o Partido Comunista, então no poder, que conduziram a esta situação e que a corrigiriam. No entanto, três décadas se passaram e não apenas a situação não melhorou, como se tornou catastrófica. Passados 30 anos, nos encontramos com 60-70% do produto interno bruto do que tínhamos sob o Partido Comunista no poder.

Houve um golpe de estado na Ucrânia em 2014, quando o poder foi ilegalmente tomado por representantes de organizações nacionalistas de extrema direita. Eles deram uma direção diferente para o país e baniram o Partido Comunista da Ucrânia.

Ou seja, o Partido Comunista existe formal e legalmente, mas na verdade, por decisão do Ministério da Justiça, contrariando a Constituição, é proibida a participação do Partido em eleições. Não podíamos participar em eleições parlamentares, presidenciais ou locais. Isso é um absurdo, uma novidade puramente ucraniana.

O partido não está legalmente proibido, mas seus direitos políticos são violados. E as autoridades estão aproveitando, arrastam os processos na Justiça, percebendo que não há motivo para banir o partido com base na Constituição. Mas estão felizes com uma situação em que o Ministério da Justiça não permite que participemos de campanhas eleitorais.

Provavelmente, não há outro país na Europa, como a Ucrânia, que seria quase igualmente dividido em duas partes: por mentalidade, por idioma, por religião. Uma vez que uma parte é ortodoxa e os ortodoxos têm laços estreitos com a Igreja Ortodoxa Russa, a outra parte é católica, unida e subordinada a Roma.

Todos esses problemas que se acumularam ao longo dos anos da chamada independência levaram a uma violenta guerra civil na parte oriental do país. Porque o Donbass resistiu a tal formulação da questão e deseja que sejam levados em consideração sua mentalidade, sua cultura, etc. 

Em outras palavras, a situação é extremamente complicada e, naturalmente, afeta a atividade do Partido Comunista.

Aymeric Monville: Precisamente, como você vê o futuro?

Adam Martynyuk: Mas olhamos para o futuro com otimismo. Mais cedo ou mais tarde, chegará a hora de ficar sóbrio dessa embriaguez fascista. 

Infelizmente, várias gerações de jovens já passaram e não se lembram do que é socialismo e de como viveram seus ancestrais; as pessoas que deram tudo de si para criar essa sociedade socialista estão desaparecendo. De alguma forma, no futuro, vai haver uma revelação  porque os jovens e os de meia idade estão, atualmente, felizes com a política de permissividade por enquanto, porque você pode trabalhar,  porque você não pode trabalhar, porque você pode estudar, porque você não pode estudar. E sob o socialismo, havia contabilidade estrita.  Lá lhe perguntavam se você não estivesse trabalhando: por que você não está trabalhando? Agora você pode.

Hoje é a política da permissividade, a violação da lei. Na prática, a lei não funciona, principalmente no que diz respeito às organizações de direita. Eles são tão arrogantes que nem mesmo têm controle sobre eles e têm medo de serem atingidos (pela lei).

De qualquer maneira, a consciência virá. E esperamos que os jovens percebam o quanto a política atual é prejudicial e que entendam que precisamos mudar de rumo. E vamos ajudá-los a fazer isso acontecer. É por isso que, literalmente, na última reunião do Presidium, que teve lugar na quinta-feira, decidimos melhorar radicalmente a informação política para os cidadãos. É verdade que as novas gerações estão muito, muito longe de saber o que é o socialismo, ou o sabem apenas pelo que os atuais inimigos do socialismo lhes dizem.

Aymeric Monville: Desejamos a vocês muito sucesso.

Adam Martynyuk: Nós esperamos muita solidariedade internacional, em particular por parte dos comunistas franceses. Nós conhecemos a experiência de vocês na luta politica muito similar à nossa. Nós a estudamos, nós envidamos esforços para seguir o exemplo de vocês na luta contra o capitalismo.


 Fonte: https://www.initiative-communiste.fr/articles/europe-capital/video-ukraine-un-danger-pour-leurope-entiere-entretien-exclusif-avec-piotr-simonenko-secretaire-national-du-parti-communiste-dukraine/

Andrey Vladmirovich Kochetov, membro do Governo de Lugansk, comenta briefing da porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, sobre aprovação de Resolução da ONU contra a glorificação do nazismo, adotada pelo Terceiro Comitê da 75ª sessão da AG da ONU.

Tradução – Humberto Carvalho

Em 18 de novembro, em Nova York, o Terceiro Comitê da 75ª sessão da Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução patrocinada pela Rússia sobre o combate ao ressurgimento do nazismo, o crescente avanço do neonazismo e de outros extremismos de direita que contribuem para alimentar formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância racial.

Junto com a Rússia, o documento foi co-patrocinado por 58 países de todas as regiões do mundo. A resolução foi apoiada por 122 países, ou a maioria absoluta dos estados membros da ONU. Mais uma vez, teve a oposição de apenas dois países – os Estados Unidos e a Ucrânia, enquanto 53 delegações, incluindo Estados-Membros da UE, se abstiveram.

A resolução dá uma contribuição significativa para a luta contra a glorificação do nazismo e do neonazismo, para a preservação da memória histórica das lições da Segunda Guerra Mundial e para a erradicação do racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância ideológica relacionada.

Estamos profundamente desapontados com a forma como a delegação dos EUA votou neste importante documento no ano do 75º aniversário da Vitória sobre o Nazismo e do estabelecimento dos Julgamentos de Nuremberg. Quem teria pensado que, depois de tantos anos, alguns membros das Nações Unidas citariam preocupações rebuscadas sobre a liberdade de expressão para se opor aos esforços para combater o ressurgimento do e a  glorificação do nazismo, do neonazismo, da ideologia da superioridade racial e outras formas de intolerância, desconsiderando suas obrigações nos termos dos principais acordos de direitos humanos, incluindo o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e a Convenção Internacional para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial.

Nesse contexto, o apoio amplo e inabalável à iniciativa russa por parte dos Estados comprometidos com a luta contra a glorificação do nazismo é encorajador.

A resolução ganhou relevância particular nos últimos anos porque tem havido um rápido aumento no número de ataques e atos de violência contra pessoas de diferentes origens étnicas ou afiliação linguística ou religiosa; o preconceito por raça e cor de pele está aumentando, e migrantes e refugiados encontram cada vez mais rejeição.

Membros do movimento nazistas como ex-membros da SS, incluindo a Waffen-S.  estão cada vez mais sendo considerados heróis. Aqueles que colaboraram com os nazistas são proclamados paladinos nacionais e membros de movimentos de libertação nacional. Monumentos e memoriais estão sendo inaugurados em sua homenagem, e procissões com tochas são realizadas. Ao mesmo tempo, uma guerra em grande escala está sendo travada contra monumentos que comemoram os lutadores contra o nazismo, e livros de história estão sendo reescritos para atender a interesses políticos momentâneos. Alguns países introduzem proibições legislativas sobre o uso de símbolos da Vitória sobre o Nazismo, o que também é uma tendência alarmante.

Todas essas preocupações estão refletidas na resolução, que, como acreditamos, fortemente, deve ser uma diretriz para todos os estados membros da ONU em sua luta contra a glorificação do nazismo, neonazismo e outras práticas que contribuem para alimentar o racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância.

70 anos da chacina do Parque Internacional

Ruínas do Frigorífico Armour em Santana do Livramento

*por Marlon Aseff

A noite de 24 de setembro de 1950 ficaria marcada na história da fronteira de Santana do Livramento e Rivera devido ao assassinato de quatro militantes comunistas, reunidos em frente ao Parque Internacional, na linha divisória que separa Brasil e Uruguai. O ato, de panfletagem e pichação, seria de afronta ao governo Dutra, de apoio aos candidatos apoiados pelos comunistas às eleições que se avizinhavam, de rechaço ao fascismo e contra o imperialismo, reforçando o teor da linha adotada pelo Partido Comunista Brasileiro, especialmente após o Manifesto de Agosto. Conhecido posteriormente como a chacina dos quatro As – o nome dos mortos iniciavam todos sob a letra A (Aladim Rosales, Ary Kulmann, Aristides Ferrão Corrêa Leite e Abdias da Rocha), o crime teve a participação ativa de policiais, pistoleiros e representantes de latifundiários, que faziam parte do grupo que chegou atirando, conforme a versão dos comunistas. À frente do bando agressor estavam o comandante da Brigada Militar em Santana do Livramento, Eleú Gomes da Silva; o comandante do Exército, Ciro de Abreu, o delegado da polícia civil, Miguel Zacarias, o advogado Mário Cunha e o inspetor de polícia Ário Castilhos, entre outros. [1] Ao final de menos de 15 minutos de confronto, jaziam os corpos dos quatro militantes assassinados, e um saldo de pelo menos mais oito feridos, entre eles o secretário do partido, Lúcio Soares Neto. 

A primeira investigação consistente sobre a chacina surgiu em 2006, através da dissertação de mestrado da historiadora Liane Chipollino Aseff.[2] A pesquisadora enfoca especialmente a vida cultural na fronteira de Santana do Livramento e Rivera entre as décadas de 1930 e 1960, e embora não fosse seu objetivo inicial, registra o crime do Parque Internacional como uma marca da violência que imperava no ambiente político de Santana, onde desde o início do século não era incomum a pistolagem, a mando de políticos e grandes proprietários de terras. Talvez o grande mérito da abordagem seja a construção dessa fronteira ao mesmo tempo envolta em jogos, cabarés e uma vida noturna repleta de atrações, contrastando com um setor subalterno da população, trabalhadores da fábrica ou dos campos, dependentes dos grandes mandatários, fossem fazendeiros, comerciantes ou políticos. Uma fronteira caracterizada como excludente àqueles que não possuíam poder ou riqueza, surge em depoimentos orais que assinalam por primeira vez o protagonismo de personagens que iriam ser abordados nas pesquisas seguintes. Conforme veremos, as causas do confronto recaem ora para a irresponsabilidade da direção do partido, que teria instado o ato, mesmo sob o clima aberto de conflito com as forças policiais e econômicas da cidade, ora a uma cilada armada deliberadamente por setores ligados ao Frigorífico, composta por forças policiais e pistoleiros.

O ex-operário do Frigorífico Armour, Hugo Nequesauert, fez questão de absolver a direção do partido em Santana, afirmando ter presenciado o telefonema em que Lúcio Soares Neto é instado a levar à frente o ato político pela direção do comitê estadual do PCB, então na clandestinidade. 

Em 1950, quando aconteceu a chacina eu não estava mais no Armour. Já tinha sido botado para a rua, por causa da greve que fizemos.  Havian sindicalistas,  casi  todos, mas era el partido que estava determinando os acontecimentos. Era época de eleição,  se supo que la policía ia tomar  represálias, e se consultó a Porto Alegre e yo era uno, solo yo,  que estava com Lúcio quando recibió ordenes de que podian hacer pichamento legalmente, que estava todo determinado de que no ia passar nada. Entonces aí se resolvió hacer, se convoco a la gente toda e se fez, se começo a pichar, quando vê, somos surpreendidos pela polícia. E chegou atirando, insultando e atirando e matando. E matou quatro!  Havia 15 o 17  personas quando mucho, no havia más…Unos dirigian el trabajo e otros executavan el trabajo. Estavam completamente desprevenidos, a arma deles era o pincel e a cal. [3]

Embora Hugo reforce a ideia de que o grupo estava desprevenido, relata a existência de uma retaguarda armada, que ficou encarregada da segurança. O iminente enfrentamento com a polícia e as forças mais conservadoras da cidade é usualmente relegado a um plano secundário, talvez para abrandar a responsabilidade pelo confronto que poderia ser imputado aos líderes comunistas, especialmente a Lúcio Soares Neto, que dirigia o ato. De fato, entre militantes comunistas remanescentes, como Jorge Ferrão, há uma velada culpabilidade a direção do partido pela atitude extrema do ato em frente ao parque, pois já existiria uma advertência, do chefe de polícia, de que não seriam toleradas manifestações do grupo comunista a uma semana das eleições. Lúcio ficaria com a imagem desgastada perante uma parte dos militantes, como Ferrão, que levantaram a versão de que ele próprio teria buscado abrigo atrás de um dos militantes, morto pela polícia, conforme versão que correu especialmente quando do julgamento dos envolvidos na chacina. Posteriormente, como veremos, foi descartada essa hipótese, embora persistam ainda hoje nos relatos orais uma reprimenda a atitude do secretário do partido, que por muito pouco escapou de ser morto no combate. Uma versão recorrente em outras narrativas[4], culpabiliza o delegado Miguel Zacarias de promover o confronto devido ao fato de estar disputando uma mesma mulher com Lúcio, hipótese passional que se demonstraria inverossímil, ao tentar isentar, ao menos sob essa alegação, o líder comunista das consequências de promover o ato ou não perceber que jogava os militantes em um enfrentamento aberto e previamente anunciado. Pouco antes do confronto, a escassos metros do local, em solo uruguaio, o pecuarista e militante Perseverando Santana e seu tio, Sona Santana, acompanhavam os preparativos de um pirão de cola, que seria usado para afixar cartazes nos tapumes que protegiam a obra do edifício Palácio do Comércio, ponto comercial que estava sendo construído bem em frente ao parque. Estavam no restaurante Doña Maria, de propriedade de Ari Kulmann, que seria assassinado logo em seguida. Conforme depoimento de Perseverando Santana, o clima de enfrentamento era de conhecimento de todos. Talvez por isso tenha se posicionado contra o ato, muito embora vencido pela direção local.

(…) sentados em uma das mesas do restaurante Doña Maria, Persevarando, Sona e Ari Kulmann, que não estava escalado para a pixação, conversavam e aguardavam. Perseverando lembra que, em meio a um ambiente tenso, o companheiro Ari disse: “Tchê, vocês não tem um revólver? Sim, porque hoje vai se dar alguma coisa”. Kullman decidiu então participar das pixações e “tomou” o pincel de Magalhães, que estava já preparado para o serviço. Na praça estavam escalados para dar segurança ao grupo os companheiros  Holmos, Lucio Soares Neto, Hugo Nequesauert, Doralino Trindade, Pedro Perez, Santos Rodrigues e Amaro Gusmão.[5]

Entre os militantes da linha de frente, dois candidatos às eleições que se avizinhavam encabeçavam o ato: o vereador Solon Pereira Neto, ex pessedista convertido à causa comunista, jornalista incendiário e par de Lúcio Soares Neto nas causas operárias defendidas na Câmara Municipal, candidato a deputado estadual pelo Partido Republicano; e Aladim Rosales, reconhecido líder dos trabalhadores do frigorífico, demitido na greve do ano anterior, candidato a deputado federal. A versão de Perseverando Santana remete ao local do crime, por voltas das 22h. Conforme ele, o primeiro a ser baleado pelos policiais, que teriam chegado insultando e provocando o conflito foi Ari Kulmann.  Hélio Santana Alves levou um tiro nas nádegas. Aristides Corrêa foi baleado no peito. Santos Rodrigues também baleado, nas pernas, sobreviveu. Abdias foi atingido na boca e caiu mortalmente ferido dentro do Café Tupinambá, tradicional cafeteria localizada no Largo, exatamente em frente à calçada onde se deu o conflito. Aladim Rosales também morreria no local, com um tiro à queima roupa. Ari Kulmann ainda seria levado ao hospital, mas não resistiria. Finalmente, entre o grupo comunista, Lúcio Soares Neto escaparia ferido por entre o Parque, buscando refúgio na casa de Francisco Cabeda, localizada a poucos metros do conflito, no “lado uruguaio” da linha divisória.

Perseverando Santana rememorou, 64 anos depois dos acontecimentos, o contexto em que se deu o crime, afastando o partido de alguma responsabilidade pelas ações de confronto aberto, mas reforçando nas entrelinhas a culpabilidade de setores mais conservadores da cidade, especialmente os ruralistas e a direção do frigorífico, que não aceitavam os desdobramentos da organização dos trabalhadores, especialmente após a greve do ano anterior.

O partido foi cassado em 1947, depois cassaram os representantes do partido em 1948, entraram na clandestinidade partidária, então se usava as legendas de outro partido. Partido Socialista, Partido Republicano, e quando se aproximavama as eleições para presidente da república e o governo do estado,  em 1950,  lançamos pelo Partido Republicano o Solon Pereira Neto. Mas anterior a isso, a greve de 1949 no Armour teve grande repercussão, e os dirigentes dessa greve foram presos e até o Exército os levou para o quartel, o que não podia, e depois soltaram. Daí formou-se um clima muito grande sobre a atuação do partido, e o Armour tinha um poder muito grande, econômico, onde 50% dos impostos da cidade eram do Armour. E houve uma reunião na casa do Lúcio Soares Neto, que era o secretário naquela época, e de lá do comitê estadual veio a ordem, pode pintar que é legal. E era legal mesmo, era o Partido Republicano…Mas a polícia sabia que era o partido….ora…e tinha algumas opiniões, tava o Mário (Santana), e outros, inclusive parece que o Heron (Canabarro) também, que achavam que era provocar a polícia, que havia perigo. [6]

Hugo Nequesauert narrou sua versão do conflito, desabonando o clima de enfrentamento aberto que existia como consenso entre os militantes momentos antes do embate. Preferiu enfatizar uma situação de emboscada e legítima defesa.

Nós estávamos tranquilos, os três num acento no Parque, eu estava no meio, o Lúcio no lado uruguaio, mas no Brasil, e o Amaro (Gusmão) no lado de Santana. Todos aí tranquilos, e numa dessas o Lucio me diz, que é isso? Mas que é isso, barbaridade! E eu não entendia, até que me olhei para os lado e me dei conta e vi aquele grupo tremendo de gente, todos armados, bancando o valente, alguns com o chapéu bem requintado, pra frente, dispostos a brigar. E insultando. Comiunistas filhos deste, comunistas filhos daquilo..de tudo que é maldade diziam. E eu digo, são eles! E o Lúcio me diz, mas eles quem? E digo, eles, a polícia hombre (risos). Aí ele entendeu, se levantou, puxou o revólver, e marchou pela calçada. Eu fiquei no mesmo lugar, mas na calçada, onde eles iam passar. E “ansim” foi. O Lúcio se pegou a tiro com um policia lá adiante. Eu não vi nada disso, absolutamente nada dessa parte. Mas chegou a minha. Porque seguiram invadindo. Chegou a minha. E eu já estou atirando na montoeira, tirando vantagem. E não importa em quem pegue, que pegue em qualquer um deles tá bem pegado. Mas se terminaram as balas rápido, eram seis balitas. E eu tinha mais no bolso, porque eu sempre usava mais. Carreguei. Mas quando eu tô carregando o revólver dô uma olhada não?, porque tem que estar olhando. E o Solon vem com um boletim do pichamento, insultando a um polícia. Chamando de facista, disso e de aquilo, de corrupto, de todo lo que cabe. E eu baixei a cabeça pra carregar de novo. Porque cambiei de idéia. Digo, vou atrás do Solon…vão matar. Bem essas foram as minhas palavras. Termino de carregar, e olho e o Solon tá caído. Derrubaram ele à bala. Então eu cambiei de rumbo, eu ia prum lado, e resolvi passar a rua e acudir o Solon, que tava morrendo ou baleado, pelo menos tava caído…e atravessei a rua no meio das bala, brigando. [7]

Perseverando reforça o caráter arbitrário da ação e a prisão ilegal de Solon. Prefere retirar a responsabilidade de Lúcio Soares Neto pelo ato. Tampouco faz uma autocrítica sobre o rumo de radicalização extrema pela qual passava o partido naquele momento. 

O Solon ali tava fazendo propaganda. Não tava armado. Se ele tivesse armado… tava fazendo propaganda como candidato. E quando veio a polícia, que esparramou, ele com um maço de jornais disse, vocês não respeitam, fascistas… e tal, como ele era,  temperamental bárbaro, o Solon. Ali ele recebeu uma pancada na cabeça e caiu… e quando vinha o policial para dar um tiro, qualquer coisa, o Hugo Nequesauert me disse, deu o tiro e feriu na perna, o Caetano. Compreendeu? E levantaram, o Solon foi preso. E colocaram ele no presídio. Ele era vereador. Mas sem partido, porque ele aderiu ao partido comunista… que foi outro erro. Como o Santos disse, ele não tinha que sair do partido, o PSD, ele tinha que ficar lá dentro. Mas, naquele sectarismo.[8]

Hugo não relata o suposto tiro no soldado Caetano. A partir do momento em que narra o momento no qual acode Solon,  leva o depoimento para a ocasião em que estaria no Parque, em meio a uma possível fuga, quando se encontra com o advogado Mário Cunha.

Me paro aí perto do Solon, e olho para a esquina de lá, e por lá só pode vim … bem pela linha, tem um parquezinho ali que é metade Brasil, metade Uruguai, na mesma rua. E apareceu aquele homem grande gritando, em manga de camisa…(imita grunhidos de gritos), aqueles grito fantástico…reconheci…e chegou e me viu. E eu tô me retirando, dale… que que ia fazer.  E me apontou. E aí eu reconheço que era o Mário Cunha, e digo, vai me atirar…e não demorou nada, chegou perto, mas perto não?, relativamente cinco ou seis metros. E me começou a atirar. Mas mal, atirava. Eu notava, ele me apontava…eu tô aí, ele apontava aqui. E me olhava e atirava como se fosse em mim. Errado todo. Então eu calmei. Esperei que tirasse seis tiro. Quando ele tirou seis tiro eu avancei nele. Teria duas três bala ao máximo, capaz que no tuviera. Avancei nele para dar bem de pertinho, porque já nem sabia bem quantas bala tenia. E nos juntamos como el grando lua (?)  (risos), e quando ele viu o revólver, pequeno, 31, quando ele viu ele fez isso… com os braços levantou e me deu as costas…e eu ia dá-lhe igual, que cosa….(risos) e se desesperou, gritou…e o negro Ventura me grita do auto, não mate o homem seu, não mate. E eu vi que era a voz de um companheiro, grande companheiro, e obedeci.[9]

Assim como nos momentos decisivos que deflagraram a greve de 1949 no frigorífico, o ano de 1950 e especialmente os meses que antecederam a chacina ficariam marcados pelo tom das críticas comunistas sobre a ação deletéria do imperialismo, com os frigoríficos estrangeiros estabelecendo verdadeiro terror sobre a economia nacional.  O aumento crescente do preço da carne e a escassez do produto no mercado nacional, ofertado de maneira precária e de má qualidade, denunciava o jornal Voz Operária, estaria diretamente atrelado à ação nefasta dos grandes frigoríficos, que penalizavam os pequenos produtores e destinavam o melhor da produção a um esforço de guerra norte-americano na Coréia e a outros países sob ditaduras.

*Este texto é uma versão reduzida e adaptada de parte de um capítulo da tese de doutorado defendida na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, intitulada “No portão da fábrica –  trabalho e militância política na fronteira (1945-1954)”.

*foto: Ruínas do Frigorífico Armour em Santana do Livramento

Fonte: http://jogosdamemoria.blogspot.com/2020/09/ha-70-anos-da-chacina-do-parque.html


[1] Depoimento de Perseverando Santana concedido a Marlon Aseff em 22 de janeiro de 2012. Santana do Livramento.

[2] CHIPOLLINO ASEFF, Liane. Op.Cit. Pgs. 164-175.

[3] Hugo Nequesauert. Entrevista a Marlon Aseff em 23 de agosto de 2011, Santana do Livramento.

[4] VARGAS DE SOUSA. Oneider. As lutas operárias na fronteira: a chacina dos quatro “As” (Livramento – RS/1950). Dissertação de Mestrado. UFSM. 2014.

[5] ASEFF. Marlon. Retratos do exílio: experiências, solidariedade e militância política de esquerda na fronteira Livramento/Rivera (1964-1974). Dissertação de Mestrado. UFSC. 2008.Pg

[6] Perseverando Santana. Depoimento ao autor em Conversas com Perseverando, documentário, 2013.

[7] Hugo Nequesauert. Depoimento ao autor em Conversas com Perseverando, documentário, 2013.

[8] Perseverando Santana. Depoimento citado.

[9] Hugo Nequesauert. Depoimento citado.