Mobilização histórica. Dezembro de 2019 superior a 1995! Os números #Grevede5dedezembro #GreveGeral

Marselha – 16h. Trens, metrôs, ônibus, RER parado (trens regionais), 7 de 8 refinarias em greve renovável, 3/4 professores universitários e de escolas secundárias em greve, metade das escolas primárias fechadas, 1 terço dos funcionários públicos em greve, milhares de greves no setor privado … A greve é geral em 5 de dezembro. Ao meio-dia, a SNCF (Société Nationale des Chemins de fer Français = Sociedade Nacional dos Caminhos de Ferro Francesa) e a RATP (Régie Autonome des Transports Parisiens = Empresa Pública Autônoma dos Transportes Parisienses) anunciaram a continuação da greve até segunda-feira inclusive. Martinez, o líder da CGT, afirma “a greve continua”.
E nas ruas as manifestações são enormes, apesar das dificuldades de transporte.
Os números: mais de um milhão de manifestantes!
Segundo nossa contagem parcial em 58 cidades da França, havia pelo menos 1.160.000 manifestantes nas ruas em 5 de dezembro. a contagem completa da CGT conta 1,5 milhão de manifestantes.

  1. Paris : 250 000
  2. Marseille : 180 000 manifestants
  3. Toulouse 100 000
  4. Bordeaux : 50 000
  5. Lille : 40 000
  6. Lyon : 40 000
  7. Rouen 40 000
  8. Limoge 30 000
  9. Nantes : 30 000
  10. Grenoble : 30 000
  11. Le Havre : 25 000
  12. Caen : 20 000
  13. Montpellier 20 000 *
  14. Clermont Ferrand :30 000
  15. Rennes 15 000
  16. Avignon 15000
  17. Perpignan : 13 000
  18. Toulon 15 000
  19. Pau 14 000
  20. Nice 15 000
  21. Brest 15 000
  22. Bayonne : 10 00
  23. Lorient : 10 000
  24. Niort 10 000
  25. Metz 10 000
  26. Strasbourg 10 000
  27. Quimper 10000
  28. Dijon 10000
  29. La Rochelle 10 000
  30. Angers 9200
  31. Besançon 9 000
  32. Amiens 8000
  33. Chateauroux 8000
  34. Périgueux 7500
  35. Tarbes 7 000
  36. Angoulème 7000
  37. Valence 6 500 *
  38. Montauban 6 000
  39. Bézier 5500
  40. Nancy 5000
  41. Compiègne 5000
  42. Saint Denis La Réunion 5000
  43. Arras 4 000
  44. Auch 4 000
  45. Albi 4 000
  46. Carcassonne 4 000
  47. Morlaix 4000
  48. Boulogne sur mer 3500
  49. Troyes 3000
  50. Sète 3000
  51. Vichy 2 500
  52. Gueret : 2500
  53. Mulhouse 2500*
  54. Calais 2 100
  55. Douai 2000
  56. Draguignan 2 000
  57. Montélimar 1700*
  58. Creil 1500
  59. Abbeville 800
  60. Brignoles 700
  61. Muret 500

*cifras da prefeitura
Estimativa parcial e independente do Le Nombre Jaune (O número amarelo, organização que faz estatísticas sobre manifestações públicas): 1 143 450 (de manifestantes).
PRCF (Polo de Renascimento Comunista em França) claramente visível em Paris, circulando na TV BFM.

No jornal das 20H da França 2, todos poderão ver os cartazes da PRCF pedindo para interromper a reforma previdenciária por pontos, apresentados pela PRCF Ile de France. É o resultado (referindo-se aos cartazes) de uma montagem militante maciça.

A presença organizada e sólida da PRCF Ile-de-France também marcou preença na tela da TV BFM na tarde de 5 de dezembro. Não podemos falhar com os camaradas do canal de notícias continuas, as bandeiras vermelhas com os símbolos do PRCF e a faixa vermelha pedindo “toodos juntos ao mesmo tempo”.


Reportagem fotográfica no evento em Marselha
O desfile dos manifestantes começou a se unir no antigo porto da prefeitura e começou a marcha. O cortejo tinha uma extensão de mais de 5 km.


Fonte: https://www.initiative-communiste.fr/articles/luttes/mobilisation-historique-decembre-2019-plus-haut-que-1995-les-chiffres-grevedu5decembre-grevegenerale/
Tradução: Os Internacionalistas

A CRISE NA BOLÍVIA

Por Humberto Carvalho

Depois de uma era de governos progressistas na América Latina (Lula no Brasil, Cristina Kirchner na Argentina, Jose Mujica no Uruguai, etc.), o imperialismo norte-americano entendeu indispensável a recolonização da América do Sul e colocá-la sob o tacão imperialista. Essa recolonização não foi feita de uma vez só, realizou-se aos poucos, não utilizando tropas americanas e também quase não se valendo de militares dos países em que ocorreram golpes. Usaram as instituições civis para os golpes, numa verdadeira lawfare que, como se sabe, é a utilização das leis dos países objeto de golpes como instrumento de guerra.
Aconteceu, então, um golpe de estado em Honduras, com a deposição do Presidente Manuel Zelaya no ano de 2009, por uma lawfare que resultou em seu impeachment.
A seguir, houve a deposição do Presidente Fernando Lugo do Paraguay em 2012. Seu processo de impeachment durou menos de 36 horas.
Depois, foi a vez do Brasil com o processo de impeachment da Presidente Dilma Russeff, em 2016. Pela lei brasileira as irregularidades contábeis cuja prática era a base da acusação contra Dilma não constituem crime de responsabilidade capaz de ensejar um impeachment. Mas, a lawfare se impôs. Então, foi um golpe e não um remédio constitucional como proclamado pela direita brasileira.
Não ocorreu golpe contra a Presidente Cristina Kirchner, na Argentina, porque nas eleições de 2015, seu Partido Justicialista (Peronista) se dividiu, permitindo a vitória do neoliberal Maurício Macri. Imediatamente, Obama, então Presidente dos EUA, apontou Macri como líder da América do Sul.
Em maio de 2018, elegeu-se Presidente do Chile, o também neoliberal Sebastian Piñera.
No Brasil, em 7 de abril de 2018, o ex- Presidente Lula foi preso, em virtude de condenação num processo sem provas, para afastá-lo da candidatura à Presidência nas eleições que ocorreram em outubro e novembro de 2018.
Nessas eleições, em segundo turno, foi vitorioso o fascista Jair Bolsonaro utilizando as mesmas técnicas (como fake news, etc.) que foram utilizadas nas eleições de Trump.
Bolsonaro usou, ainda, o mesmo conselheiro eleitoral de Trump nas eleições brasileiras. Quando assumiu a Presidência, Bolsonaro viajou aos EUA , onde ficou caracterizada a sua submissão vergonhosa aos americanos.

É preciso lembrar, ainda, as tentativas de deposição do Presidente Maduro, da Venezuela, realizadas por Juan Guaidó, com o respaldo do imperialismo e seus agentes como os governos de Bolsonaro do Brasil, de Ivan Duque Marquez da Colômbia, de Sebastián Piñera do Chile, de Mario Abdo Benitez do Paraguai que, nos inícios de 2019, estavam resolvidos a invadir, militarmente, a Venezuela e depor o Presidente Maduro.
Isto não ocorreu devido a garantia da Rússia de dar suporte militar em caso de invasão da Venezuela e do apoio do povo venezuelano ao seu Presidente.
O imperialismo não contava, entretanto, com a eleição de um progressista, Andrés Lopes Obrador, no México, que ficou temporariamente isolado, diante das vitórias eleitorais das elites reacionárias em diversos países da América Latina, com o suporte yankee.
Recentemente, no Uruguai a Frente Ampla foi derrotada nas eleições presidenciais. Por uma margem de 35 mil votos ganhou o conservador Lacalle que já prometeu uma mudança total nas relações do Uruguai com a Venezuela.
Dessa maneira, o cerco imperialista e das direitas na América do sul se fechou, encurralando as forças progressistas no continente.
Mas, preciso voltar à Argentina porque, no meu modo de ver, a Argentina é uma das peças chaves para se entender a crise da Bolívia.
O governo de Maurício Macri, com suas políticas neoliberais, fracassou redondamente.
A dívida externa argentina aumentou, comprometendo grande parcela de seu PIB; a pobreza e a miséria chegaram a patamares inimagináveis para um país opulento, com grandes recursos naturais; o peso, moeda nacional da Argentina, foi desvalorizado como nunca antes tinha ocorrido; Macri se submeteu aos ditames do FMI e levou a economia argentina ao caos, com a desindustrialização e o desemprego.
Nessas circunstâncias, nas eleições presidenciais de 2019, o Partido Justicialista se uniu, por obra de Cristina Kirchner, e obteve uma estrondosa vitória sobre Macri, já no primeiro turno das eleições presidenciais, elegendo o progressista Alberto Fernandez para a Presidência e Cristina Kirchner para a Vice-Presidência.
É nessa vitória que reside uma das chaves para se entender o que acontece na Bolívia. O imperialismo precisa isolar a Argentina (segundo os imperialistas, um péssimo exemplo para a América do Sul). A vitória eleitoral de Evo Morales não deixaria a Argentina isolada, contando ainda com a Venezuela, México e Cuba. O novo governo argentino assumirá suas funções em 10 de dezembro deste ano. E certamente se aproximará da Rússia e da China para sair do caos econômico deixado por Macri. Então, os EUA precisam isolar a Argentina e para isso precisavam derrubar Evo Morales.
A outra chave para se entender o golpe na Bolívia é o lítio, uma das grandes riquezas minerais do país.

A Bolívia, desde os tempos coloniais, é um país onde a mineração tem uma expressiva presença na economia boliviana.
As políticas de Evo Morales entraram em conflito com as empresas multinacionais de mineração. A suspensão de contratos onerosos para o país e o esforço por um controle desse setor econômico levaram a Bolívia a inúmeros processos de arbitragem internacional.
Em 2008, depois de uma tentativa frustrada de golpe, a Bolívia expulsou o embaixador americano, Philip Goldberg, e em 2013, expulsou a USAID (Agencia Americana para o Desenvolvimento Internacional). Assim, caiu vertiginosamente a “ajuda” americana à Bolívia, com exceção ao ano de 2015, coincidindo com os meses que antecederam o referendo constitucional de fevereiro de 2016.
O lítio, como se sabe, é um metal alcalino estratégico para o desenvolvimento tecnológico. E é uma alternativa energética para os meios de transporte. Segundo estudos da empresa americana SRK as reservas de lítio na Bolívia estão em torno de 70% das reservas mundiais. Essas reservas se concentram no Departamento (oblast) de Potosí que faz fronteira com o Chile e a Argentina. E nessa tríplice fronteira estariam 85% das reservas mundiais de lítio. Daí o interesse econômico do imperialismo em controlar essa região.
Embora tenha sido criada uma empresa estatal boliviana para desenvolver a indústria do lítio, grandes inversões de capitais são necessárias. Então, em condições paritárias, a Bolívia fez um acordo com a empresa ACI Systems Alemanha (ACISA) para desenvolver a indústria. Também, fez um acordo com as empresa chinesas TBEA Group e a YLB para extração do lítio. O acordo coma China desagradou ao imperialismo yankee.
Vistas essas questões chaves podemos entender os motivos políticos e econômicos do interesse do EUA num golpe de estado na Bolívia porque o governo de Evo Morales era um obstáculo à voracidade do imperialismo.
A direita boliviana, os governos reacionários da América do Sul e o imperialismo insistem em dizer que Evo Morales renunciou e então o que aconteceu na Bolívia não teria sido um “coup d´état”.
A definição de golpe de estado é a destituição forçada de um chefe de estado. Evo Morales foi forçado pelo exército e pelas forças policiais a renunciar sob pena de uma guerra interna sangrenta e do risco de Evo perder a própria vida. Então, o que ocorreu foi um golpe de estado e não uma simples renúncia. O que prova, também, a ocorrência de um golpe foram as sucessivas renúncias do Vice-Presidente, do Presidente da Câmara e do Presidente do Senado que seriam os sucessores previstos na constituição boliviana em caso de vacância da presidência de Evo Morales. Todos foram forçados a renunciar.

A Bolívia tinha um crescimento econômico superior a 5% ao ano, nos últimos tempos.
O ciclo, que já foi chamado de “milagre econômico boliviano”, começou em 2006, quando Evo Morales chegou ao poder.
Uma das primeiras e principais medidas de Evo Morales foi a nacionalização do petróleo e do gás natural. Parte das empresas privadas foi transferida para as mãos do Estado. As multinacionais tiveram que renegociar os contratos com a estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos para continuarem operando no país e passaram a pagar mais para explorar jazidas.
Multinacionais, empresas privadas e estatais convivem na Bolívia em um modelo de crescimento ancorado na exploração dos recursos do setor de óleo e gás — que, para alguns, vem dando sinais de esgotamento.
A onda do boom de commodities que sustentou o crescimento de parte da América Latina até a crise financeira de 2008 também passou pela Bolívia e trouxe uma melhoria sem precedentes nas condições de vida de milhões de bolivianos.
Esse período de bonança da economia boliviana foi aproveitado, através de uma política fiscal expansionista, para financiar as políticas de transferência de renda e os programas que reduziram a miséria no país quase pela metade. O percentual da população abaixo da linha de pobreza na Bolívia caiu de 63% para 35% entre 2005 e 2018, de acordo com o Banco Mundial.
Apesar desses avanços sociais e econômicos que beneficiaram o país e o povo, ocorreu o golpe.
A crise atual da Bolívia se verificou em dois momentos distintos. O primeiro deles foi a contestação, pela oposição, dos resultados nas eleições presidenciais deste ano, onde Evo foi vitorioso. A oposição dizia ter ocorrido fraude nos resultados e exigia a presença da OEA (Organização dos Estados Americanos) para fiscalizar a recontagem dos votos, a auditoria das eleições. Evo, confiante na inexistência de fraude, aceitou a presença da OEA para esses fins. A OEA, subordinada ao imperialismo americano, afirmou a existência de fraude eleitoral, como era de se esperar. Iniciaram-se, então, conflitos entre as forças do governo de Evo e a militância da oposição que não foram reprimidos de forma violenta. Via-se em vídeos desse período a presença apaziguadora das forças de segurança, enquanto as forças da oposição buscavam a violência e o vandalismo.
Nesse clima de extrema violência, por parte da oposição, dominando as ruas das principais cidades da Bolívia, o general Williams Kaliman, comandante das Forças Armadas da Bolívia, exigiu a renúncia de Evo Morales e dos seus sucessores previstos constitucionalmente. Para evitar derramamento de sangue e garantir sua sobrevivência, Evo renunciou e teve de exilar-se no México.
Kaliman, em 2003, fez o curso de Comando e Estado Maior na Escola das Américas/WHINSEC do exercito americano. Também, foi adido militar na embaixada da Bolívia nos Estados Unidos. Segundo a Wikipedia, Kaliman recebeu um milhão de dólares e um visto de residência permanente nos EUA através do Encarregado de Negócios da Embaixada dos EUA em La Paz, capital da Bolívia, sr. Bruce Willianson.

72 horas após o golpe, Kaliman se transferiu para os EUA, abandonando a Bolívia.
Após as renúncias do Vice- Presidente e dos Presidentes do parlamento, contrariando a constituição boliviana, a segunda secretária do senado boliviano, senadora Jeanine Áñez se auto proclamou Presidente da República. Introduziu de imediato a bíblia no parlamento, misturando política e religião. E passou a perseguir os seguidores de Evo e a controlar o ingresso de estrangeiros que poderiam apoiar as manifestações pro-Evo.
O segundo momento da situação da Bolívia consiste na reação, em especial da população indígena, contra o golpe. Em marcha acelerada pelas estradas, milhares de indígenas tomaram de assalto as ruas de La Paz e entraram em choques com as forças de segurança que reprimiu as manifestações com requintada violência. Ocorreram, então, dezenas de mortes, assassinatos, centenas de pessoas foram feridas, inumeras prisões ilegais, tortura, enfim, toda uma gama de barbárie característica do fascismo.
A considerar, ainda, que atuou no golpe da Bolívia a força de um racismo cultivado como ódio contra a população indígena.
Alvaro García Linera, Vice- Presidente de Evo, denunciou em artigo publicado em jornal argentino que as raízes do golpe de Estado na Bolívia, que forçou Evo Morales a renunciar possuem referências racistas, em especial contra os povos indígenas do país.
Linera ainda ressaltou que todos os 18 mortos e 120 feridos a bala, até então, são indígenas.
O vice de Morales sustenta que o motim policial veio no exato momento em que forças populares passaram a se mobilizar para resistir ao golpe, também recuperando o controle territorial das cidades “com a presença de trabalhadores, mineiros, camponeses, indígenas e colonos urbanos”.
Os confrontos das forças de segurança do atual governo de Jeanine Añez com as massas que se manifestaram contra o golpe fez com que Jeanine anunciasse, para breve, eleições na Bolívia. No entanto, a candidatura de Evo está proibida por lei.
O anúncio das futuras eleições amenizou a reação das massas bolivianas que estão, ainda, vigilantes para que se realizem eleições livres.

Andrey Kotchetov fala do protagonismo sindical na República Popular de Lugansk

Entrevistado é secretário-geral da Federação dos Sindicatos de território que declarou independência da Ucrânia

Katia Marko e Fabiana Reinholz

Brasil de Fato | Porto Alegre (RS)

O Brasil de Fato conversou com Andrey em sua vinda a Porto Alegre para falar da luta do seu povo - Créditos: Fotos: Marcelo Ferreira
O Brasil de Fato conversou com Andrey em sua vinda a Porto Alegre para falar da luta do seu povo / Fotos: Marcelo Ferreira

Em 2014, Donetsk e Lugansk, províncias ao leste da Ucrânia, declaram independência do país, a primeira no dia 7, a segunda no dia 27 de abril, tornando-se Repúblicas Populares. Após referendo em que mais 80% da população afirmou sua intenção de não fazer mais parte do país, a independência veio em 12 de maio. A partir de então, as repúblicas, que ficam cerca de 700 quilômetros de Kiev, capital da Ucrânia, foram marcadas por bombardeios e conflitos.

“Conviviam vários povos, várias nacionalidades nessa região, e até o fim de 2014 não havia problema nenhum, todo mundo vivia bem, tranquilo, em paz, não se falava em nacionalismo, mas depois do golpe do estado de 2015, o governo ucraniano, esse novo que assumiu, que é nazista, começou a falar que a Ucrânia é só para os ucranianos. Então foi impossível conviver com esse tipo de mentalidade. Assim mesmo, ninguém pensava em guerra contra o governo central, mesmo com essa ameaça ‘nacionalista’. Achamos que poderíamos conviver, que iam nos respeitar, nos deixar quietos”, afirma Andrey Kotchetov, secretário-geral da Federação dos Sindicatos da República Popular de Lugansk, esteve semana passada em Porto Alegre e conversou com o Brasil de Fato RS.

De acordo com ele, o golpe de 2015 teve apoio dos Estados Unidos, que há anos mira a região. “Grupos nazistas chegaram ao poder no governo central da Ucrânia. Desde 25 anos para cá, praticamente depois da dissolução da antiga União Soviética, os Estados Unidos aproveitaram essa brecha para colocar muito dinheiro e ajudar os grupos de extrema-direita a recuperar o poder”.

Antes da ascensão do partido de extrema-direita, Donetsk e Lugansk, que fazem fronteira com a Rússia, tinham uma população de oito milhões. Com o golpe, veio o bloqueio e as bombas, e a população, em busca de novas alternativas, caiu quase pela metade. Além de expor a situação atual da região, Andrey falou também sobre a importância do movimento sindical no processo de independência. Seguindo a máxima da Karl Marx, “trabalhadores do mundo, uni-vos!”, a Federação congrega 38 sindicatos de diversas categorias.

A conversa com Andrey, que fez a sua segunda visita ao país – a primeira foi em 2015, em São Paulo, no Congresso das Federações Internacionais de Sindicatos – foi acompanhada por Luciano Vieira, médico da saúde da família; Nubem Medeiros, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); e Cláudio Luís Caminha de Souza Ribeiro, maestro e antropólogo, que foi o tradutor da conversa.

A seguir a entrevista completa:

Brasil de Fato RS: Andrey, gostaria que nos contasse um pouco a história da onde tu vens e toda a questão da independência e os ataques da Ucrânia.

Andrey Kotchetov: Vim da República Popular de Lugansk, que está situada ao lado leste da Ucrânia. Até antes de 2015, estávamos bem, felizes, e a Ucrânia a nossa mãe. Era um país ótimo e bonito e cheio de paz. Mas em 2015, houve um golpe de estado na capital da Ucrânia, Kiev, e grupos nazistas chegaram ao poder. Desde 25 anos para cá, praticamente depois da dissolução da antiga União Soviética, os Estados Unidos aproveitaram essa brecha para colocar muito dinheiro e ajudar os grupos de extrema-direita a recuperar o poder.

O principal propósito dessa apropriação, invasão colonial norte-americana no território ucraniano, foi reescrever a história do país do jeito que eles queriam. Para a população dos dois países que se separaram, Lugansk e Donetsk, foi impossível aceitar essa nova forma de governo e essa tentativa de reescrever a história.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o povo russo perdeu 27 milhões de pessoas, incluídas nessa cifra cidadãos e cidadãs da Ucrânia. Os avós, bisavós e mesmo os pais dessas pessoas que hoje estão aqui também foram mortos nesse pacote da Segunda Guerra. Com toda essa história, com essa carga de pessoas que lutaram contra o nazismo, contra o eixo, eles não poderiam aceitar que agora nos Estados Unidos e a direita ucraniana reescrevessem a história quase desconhecendo o que aconteceu. Esse grupo que se infiltrou, que queria reescrever a história, começou a acusar dizendo que entre esses 27 milhões de pessoas estavam incluídas a maldade dos comunistas e a crueldade do governo soviético.

O leste da Ucrânia é uma região multiétnica, onde vivem várias pessoas de diversas nacionalidades. A região de onde venho foi muito industrializada durante o período da União Soviética e convidamos muitas pessoas que quisessem ir, já que estava se desenvolvendo. Então muitas nacionalidades estão vivendo nessa região de Donbass. Até o fim de 2014, não havia problema nenhum, todo mundo vivia bem, tranquilo, em paz, não se falava em nacionalismo, mas depois do golpe do estado de 2015, o governo ucraniano, esse novo que assumiu, que é nazista, começou a falar que a Ucrânia é só para os ucranianos. Então foi impossível conviver com esse tipo de mentalidade. Assim mesmo, ninguém pensava em guerra contra o governo central, mesmo com essa ameaça “nacionalista”. Achamos que poderíamos conviver, que iam nos respeitar, nos deixar quietos.

Organizamos um referendo nacional nas duas províncias, Lugansk e Donetsk, para ver se as pessoas queriam ou não conviver com o nazismo do governo central. Cerca de 80% das pessoas disseram “não, não queremos conviver com o nazismo”. Então a partir desse referendo, pedimos para o governo central para sermos considerados como uma nova Federação, não afinada com o governo central.

É bom lembrar que foi tudo democrático, antes desse referendo, houve protestos, as pessoas estavam mostrando sua desaprovação ao regime. Como apareceu esse desgosto com o governo central, realizamos esse referendo, não foi imposto. Novos líderes do povo apareceram nesse momento, e foram eles que propuseram o referendo, que, como falei, foi muito democrático.

“Foi tudo democrático, antes desse referendo, houve protestos, as pessoas estavam mostrando sua desaprovação ao regime”

A partir desse referendo, o governo central cortou o diálogo e começou a bombardear essa região. Helicópteros sobrevoaram a capital da República Popular de Donetsk e lançaram bombas em 27 de maio de 2015. Em 2 de junho, o mesmo grupo do governo central bombardeou a sede central da administração da República Popular de Lugansk.

Existem vídeos no YouTube que mostram os primeiros momentos desse bombardeio, que matou, de saída, 80 pessoas. O que tu achas que a mídia ucraniana publicou a respeito desse episódio?

Eles disseram em claro e bom tom para o mundo inteiro que essa explosão foi o problema em um ar-condicionado. Além do exército da própria Ucrânia – imagine toda a alta Ucrânia e duas províncias pequenas – a oligarquia poderosa organizou e financiou batalhões especiais para lutar contra nós. Muitos soldados da Ucrânia não queriam matar “irmãos”. Então para conter essa pequena rebelião, a própria oligarquia (pessoal da grana) contratava batalhões especiais para suprir essa possível vontade de não ferir irmãos.

Antes do ataque de 2015, tínhamos uma população de oito milhões de pessoas (somando as duas repúblicas). Atualmente temos cerca de quatro milhões e meio. Os outros três milhões e meio que deixaram as duas repúblicas, uma parte foi para Ucrânia e a outra parte para a Rússia, fugindo da guerra, das bombas. Como a partir desse momento o governo terminou o diálogo, eles fizeram um bloqueio, as pessoas passaram a perder os empregos, não tinham mais dinheiro.

Os que ficaram, que não fugiram, começaram a construir um novo momento. Começamos a reconstruir o parlamento, reconstruir as vidas. Mas Kiev continua a dizer que não existe guerra nenhuma, que não existe guerra civil. E eles continuam atacando, não o tempo inteiro, mas armam ataques programados, em um dia destroem um edifício, passam uns dias derrubam uma estátua. Automaticamente todos aqueles que não se afinam com a ordem central são considerados terroristas, então fomos considerados como região terrorista.

Então, para o mundo inteiro, se conseguiu passar essa imagem de que o governo central da Ucrânia estava lutando contra terroristas e não pessoas civis como nós. De 2015 para cá, mas de 10 mil pessoas foram mortas pelo governo central. Depois dos últimos cinco anos, eles disseram que estariam lutando contra o exército russo, fizeram investigações e ninguém descobriu sobre a existência de exército russo, mas o governo continua afirmando isso. E o ex-presidente Petro Poroshenko foi para Europa dizer que eles estavam defendendo a Europa do ataque russo. E não é isso, pelo contrário.

“Governo terminou o diálogo, eles fizeram um bloqueio, as pessoas passaram a perder os empregos, não tinham mais dinheiro”

BdFRS: Fale sobre a organização sindical nas repúblicas populares.

Andrey: Meu cargo é de secretário-geral de uma parte da secretário-geral da Federação dos Sindicatos. Essa parte se chama Sindicato para Inovação do Desenvolvimento. Esse sindicato trata de projetos inovadores, representa cinco mil pessoas. Ao mesmo tempo, sou membro da Federação que reúne todos os sindicatos da República Popular de Lugansk. O Sindicato que integro reúne várias categorias, vários campos de atividade. Apesar de estarmos todos juntos nisso, fica difícil especificar quem está em projetos inovadores e quem não está ainda.

Em 2014, um colega e eu escrevemos o Estatuto. Nessa Federação que engloba todos os sindicatos, propusemos que ficássemos todos dentro do mesmo guarda-chuva, e o artigo 1 diz que é proibido sindicatos independentes, porque isso divide, não soma. E a tática do outro lado sempre foi o contrário, dividir para governar.

Dentro da Federação tem 38 sindicatos que reúne categorias como agricultura, cultura, metalúrgicos, mineiros e assim por diante, todos dentro da Federação.

Um exemplo simples, como disse Marx: “trabalhadores do mundo, uni-vos”. Esse foi o slogam da União Soviética e os imperialistas continuam com medo dessa frase. Não fizemos nada de novo, essa foi uma experiência anteriormente praticada.

BdFRS: E qual a força da Federação na sociedade?

Andrey: Pergunta interessante. Antes dessa guerra, e acho que até por isso ela aconteceu, o governo central da Ucrânia tinha recebido uma ordem do governo americano de destruir todos os sindicatos. Era, na verdade, um “recadinho” para que as pessoas se organizassem em sindicatos independentes, para dar uma ideia de democracia, quando na verdade era para dividir o movimento. Então eles diziam que essa era uma maneira de democratizar e aí então, com essa ordem, começaram a surgir grande número de sindicatos. Eles queriam que se esfacelasse, que se destruísse o movimento sindical realmente forte. Então muitos desses chamados líderes sindicais acabaram sendo, na verdade, representantes do comércio, banqueiros, cuja única tarefa era dizer “pague os sindicatos”. Quando houve esse bloqueio e a invasão, os líderes sindicais que estavam ligados a esse movimento de desfacelamento fugiram para a Ucrânia junto com os banqueiros.

O povo atualmente respeita muito a Federação, e esse movimento que conseguimos construir de união dos sindicatos ficou bem visto pela população, pela transparência dos 38 sindicatos que estão dentro da Federação. Tanto que 14 líderes desses sindicatos estão dentro do parlamento, são deputados. A Federação, a partir dessa concepção sindical e da participação da sociedade, pode-se dizer que está sendo fundamental na execução das próprias leis que a sociedade vai usufruir. Está partindo dos trabalhadores então as decisões do que se vai se cumprir na nação.

“Está partindo dos trabalhadores então as decisões do que se vai se cumprir na nação”

BdFRS: Com o fim da União Soviética, a população não passou simplesmente a ser capitalista. Como foi essa transição? E esse sentimento ainda está muito vivo?

Andrey: Foi como um conto de fadas, uma ilusão, quando o governo de Mikhail Gorbachev (último líder da União Soviética) disse “agora cada um de vocês poderá ser muito rico, terão muito trabalho, e ficarão felizes da vida com dinheiro, agora vamos organizar o sistema capitalista e todo mundo vai ficar muito rico”. Na verdade, isso foi uma grande falsidade, porque sabemos que o capitalismo deixou muita gente pobre, mas infelizmente muitas pessoas ainda acreditam em conto de fadas.

Agora, todo mundo está dizendo “estamos até aqui (saturados) com o capitalismo” e realmente estão sentindo falta da União Soviética. Claro que na antiga União Soviética era difícil, por exemplo, uma família comprar um carro, mas era possível. Agora é muito fácil fazer isso, só que você fica pagando na verdade, o grande mercado.

Um exemplo simples de como o povo está se dando conta é o caso dos Países do Báltico (Estônia, Letônia e Lituânia). Os capitalistas do oeste não precisaram ser convidados pelos exércitos desses países. Eles apenas constroem grandes supermercados para vender refrigeradores, televisores, freezer, e aí colocam bancos nesses supermercados. Então quando as pessoas simples, pobres, entram nesses grandes supermercados e veem aqueles produtos, querem comprar tudo. “Se vocês quiserem comprar, nós financiamos, podem usar o sistema, simplesmente hipotequem suas terras ou seus bens, que a gente financia”, dizem os bancos. Depois de 20 anos, esses Países Bálticos ficaram chocados porque descobriram que, por causa disso, os donos das terras dos Países Bálticos eram ingleses, alemães, suíços etc e não mais as pessoas da terra.

E aí os socialistas desse lugar disseram: “estamos sob uma ocupação suave, porque não tem tanque”. Então o pessoal começou a ver a importância da União Soviética, está sentindo falta de algumas coisas. Estão sentido falta dessa paz mundial porque na União Soviética todas as nações que conviviam ali dentro estavam bem. Por exemplo, quando eu servi no exército russo, tinha um grupo de diferentes pessoas. O grupo tinha 34 pessoas, sendo 15 de diferentes nacionalidades como Cazaquistão, Uzbequistão, Armênia, Ucrânia. Inclusive, mesmo depois de tudo que aconteceu, continuamos mantendo contato. Como a gente não vai sentir falta disso?

O pessoal que vivia então no tempo da União Soviética, cada ano tinha dias livres, durante 22 dias, tinham medicina livre, sem pagamento, quando as mulheres davam à luz, podiam ficar três anos recebendo pagamento do governo. Então as pessoas começaram a se lembrar disso e estão sentindo falta do velho Stalin. Por quê? Porque Stalin disse, depois da Segunda Guerra Mundial, que o mundo anglo-saxónico seria o inimigo para sempre, que quando o dinheiro norte-americano entrasse dentro da Federação Russa, nos tornaríamos escravos do sistema financeiro ocidental. E o interesse do imperialismo era dividir a Rússia, não deixá-la junta e sugar a riqueza de cada pedaço de terra. E agora estão se dando conta que isso era verdade. O Stalin falou isso há 70 anos atrás e as pessoas estão vendo que era verdade, que ele tinha razão.

BdFRS: Estamos vendo isso no mundo, Brasil, América Latina em ebulição, parece que estamos vivendo uma nova Guerra Fria.

Andrey: Queria relembrar que não foi o Stalin que começou a guerra fria. Foi o Winston Churchill, na famosa palestra de Fulton (Missouri, Estados Unidos, em 1946), que disse que temos que colocar um muro de ferro em frente à União Soviética. A mesma coisa que estão dizendo agora do Vladimir Putin, que é um monstro, cruel. Eles diziam as mesmas palavras de Stalin, agora serve para o Putin, nada mudou.

BdFRS: Gostaria que tu falasse da influência da igreja, principalmente a neopentecostal, se lá tem influência como se observa em outros lugares do mundo.

Andrey: A religião tradicional é a Igreja Ortodoxa, e ela é muito conservadora. Essa igreja faz orações diárias, grandes círculos, sempre modificando a oração. Também tem muçulmanos ortodoxos e judeus. Lá está proibida a organização de novas igrejas norte-americanas, porque eles sabem que através dessas igrejas, com as quais entra muito dinheiro e organização, se dominam as pessoas, controlam as pessoas. Então por isso que não tem esse movimento como aqui no ocidente, dessas igrejas.

Cláudio Luís Caminha de Souza Ribeiro: Um ano atrás, na Bolívia, o governo de Evo Morales baixou uma lei que não permitia doutrinação de mais nenhuma igreja, e vocês viram quem fez o golpe no país.

Andrey: Isso aconteceu na Chechênia, há alguns anos atrás, onde foi municiado o movimento muçulmano super extremista.

BdFRS: Como tu enxergas a máxima: Socialismo ou Barbárie, da Rosa de Luxemburgo?

Andrey: Não é possível comparar. A grande diferença justamente é que como cidadãs e cidadãos, nascidos nesse espírito soviético, sentimos que o governo realmente se importa com as pessoas. Quanto mais eu convivo com a chamada democracia do oeste, mais eu me aproximo do socialismo.

BdFRS: Falando um pouco a visita à Porto Alegre, quem a organizou, qual o objetivo?

Andrey: Essa pergunta meus amigos podem responder.

Cláudio Luís Caminha de Souza Ribeiro: Quem organizou a visita foram a Fundação Dinarco Reis, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) que através da sua célula internacionalista convidou o Andrey, e tivemos o apoio da Associação dos Pós-Graduandos Gaúchos (APGs), do Sindicato dos Servidores de Nível Superior do Poder Executivo do Estado do Rio Grande do Sul (Sintergs), da Assembleia Legislativa, através da figura do ex-deputado Pedro Ruas, da Associação dos Servidores da UFRGS e UFSCPA (Assufrgs), do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), da Federação dos Empregados no Comércio de Bens e Serviços do RGS (Fecosul), e da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB).

Cláudio foi o tradutor da entrevista

O Andrey veio compartilhar com trabalhadoras e trabalhadoras dessas e de outras entidades o protagonismo do movimento sindical em um governo de coalizão e a experiência da República Popular de Lugansk. E conhecer a realidade do Sul do Brasil.

Nubem, Humberto Carvalho e eu estivemos ano passado em Lugansk, como observadores internacionais do processo eleitoral de lá. E conhecemos as universidades, estivemos em várias cidades, fizemos conferências. Nossa impressão foi a melhor possível, fomos recebidos com grande carinho, fraternidade, solidariedade, com uma agenda bem movimentada. Visitamos museus, vimos cidades destruídas, bombas intactas fincadas na terra, monumento às pessoas falecidas, sobretudo as crianças, mortas nos bombardeios.

Edição: Marcelo Ferreira

A SURPREENDENTE LONGA MARCHA DA REPÚBLICA POPULAR DA CHINA

Se nos questionarmos quais são as revoluções mais importantes na história da libertação dos povos, certamente teremos a Revolução Francesa (1789), a Revolução Russa (1917) nas primeiras colocações e, em terceiro lugar, a Revolução Chinesa que culminou na proclamação da República Popular da China em 1º de outubro de 1949, há 70 anos, e continua.
Este ano, também se comemora os 100 anos da criação, em 1919, da IIIª Internacional, obra de Lênin que vislumbrou a necessidade da luta contra o imperialismo e o colonialismo, unificando trabalhadores e povos oprimidos. A esse respeito, é bom lembrar um trecho do texto de Ho Chi Min, por ocasião dos funerais de Lênin, publicado no Pravda, em 27 de janeiro de 1924: “…este grande líder, depois de haver libertado seu próprio povo, desejou libertar outros povos. Ele convocou os povos para colaborarem com os asiáticos e com os africanos para libertá-los do jugo de seus agressores estrangeiros, de todas as potências ocupantes, dos Governadores Gerais, etc. E para atingir esta meta, ele delineou um programa definitivo”.
Foi Lênin quem asseverou o direito inalienável à autodeterminação das nações oprimidas e conclamou os povos oprimidos a se levantarem contra o jugo do colonialismo e do imperialismo. Desse modo, os movimentos de libertação nacional, desde então, passaram a contar com o apoio decidido do primeiro Estado socialista e dos jovens partidos comunistas que foram se formando, inclusive nos países imperialistas.
A revolução chinesa se caracterizou por ser antiimperialista, contra o colonialismo, de libertação nacional e socialista.
Não pretendo aqui fazer um relato da Revolução Chinesa, complexa, longa, com muitas etapas marcantes na História, como a Longa Marcha. Mas, sim, dizer que essa Marcha prossegue. Iniciada com um exército proletário e de camponeses em luta contra os “nacionalistas” de Chiang Kai Shek e dos senhores da guerra, trazendo esperança e liberdade entre os pobres e os trabalhadores à medida que avançavam, transformou-se, hoje, na marcha para fazer da China a maior potência econômica do Mundo.
Não podemos esquecer o que era a China, antes da Revolução: composta por 90% dos agricultores famintos, a população tinha o padrão de vida mais baixo do planeta. Era inferior ao da antiga África britânica e subsaariana da Índia. Nesta terra onde a vida estava pendurada por um fio, a expectativa de vida era entre 36 e 40 anos. Abandonada à ignorância, apesar da riqueza de uma civilização de mil anos, 80% da população chinesa era analfabeta.

Hoje, a economia chinesa responde por 18% do PIB global em paridade de poder de compra e superou a economia dos EUA. A China é a principal potência exportadora do mundo. Sua força industrial é duas vezes a dos Estados Unidos e quatro vezes a do Japão.
Esse desenvolvimento econômico melhorou drasticamente as condições de vida do
povo chinês. A expectativa de vida aumentou de 40 para 64 anos sob Mao (de 1950 para 1975) e agora se aproxima de 77 anos (contra 82 na França, 80 em Cuba, 79 nos EUA e 68 na Índia) . A taxa de mortalidade infantil é de 7% contra 30% na Índia e 6% nos Estados Unidos. O analfabetismo está praticamente erradicado.
Ainda mais significativo, a taxa de pobreza, de acordo com o Banco Mundial, passou de 95% em 1980 para 17% em 2010 e 3,1% em 2017. Xi Jinping prometeu sua erradicação até 2020.
A China de Mao se beneficiou primeiro da assistência da URSS, mas foi interrompida em 1960 durante o cisma sino-soviético. Foi para resolver esse problema crucial que Deng Xiaoping organizou em 1979 a abertura gradual da economia chinesa ao capital externo: em troca dos lucros obtidos na China, as empresas estrangeiras realizariam transferências de tecnologia para as empresas chinesas.
Como órgão governante do país desde 1949, o Partido Comunista Chinês sabe que o menor desvio da linha de bem-estar coletivo seria mal compreendido e provocaria sua queda. Acostumados a pensar que a democracia se baseia no ritual eleitoral, os ocidentais não entendem esse sistema. Além disso, eles nem vêem que sua “democracia” acomoda uma designação de presidente pelos bancos, enquanto na China os bancos obedecem ao presidente.
Para impulsionar o desenvolvimento do país, os comunistas chineses construíram uma economia mista impulsionada por um estado forte. Seu principal objetivo é o crescimento, apoiado desde as reformas de 1979 na modernização das empresas estatais que dominam os principais setores, construindo um setor privado forte, e a transferência de tecnologia de países mais avançados. Ao contrário do que às vezes é dito, foi o próprio Mao Tse Tung quem iniciou esse processo em 1972, quando restabeleceu as relações com os Estados Unidos.
Nenhum país capitalista alcançou o elevado nível de desenvolvimento, em 70 anos, da China. E isso é um feito grandioso do Partido Comunista Chinês.
Muitos falam que a China é um país capitalista, de estado, ou não, que mistura mercado e socialismo e por aí vai…
Mas, esquecem que, na Rússia Soviética, após a Guerra Civil, em 1921, Lênin aplicou a NEP (Nova Política Econômica), com traços capitalistas, para a formação de um capital social inicial que seria utilizado na construção do socialismo. Um censo de 1897 afirmava que a população russa era de 128 200 000 habitantes. Era preciso alimentar essa população. A NEP findou com o Iº Plano Quinquenal, em 1928, visando uma rápida industrialização da já URSS (que foi fundada em 1922).

Vejo o atual período de crescimento da China, como uma espécie de NEP chinesa para alimentar uma população de 1.394.550.000 habitantes. E devido a esse bilionário número, talvez a “NEP” chinesa tenha de durar mais tempo do que a soviética.
A experiência histórica da República Popular da China é única: é o sucesso de uma
estratégia de saída do subdesenvolvimento em uma escala sem precedentes e sob a
liderança exclusiva de um partido comunista, no rumo do socialismo.

Humberto Carvalho

LA BESTIA SALE DEL VALLE DE LOS CAIDOS

Escrito por Secretariado Político

Cuarenta y cuatro años después de su muerte, y por decisión de quiénes se apoyaron en sus crímenes para restituir la monarquía de los Borbones y garantizar la continuidad de la dictadura del capital en España, sale del Valle de los Caídos la momia del mayor asesino de la historia de este país.
En ningún caso, en ninguno de los países que se puedan asimilar al nuestro, se produjo nunca en la historia un genocidio tan brutal como el que los militares fascistas españoles, dirigidos por el sanguinario Francisco Franco, realizaron contra su mismo pueblo.
No fue una guerra de intervención en otro país, fue una guerra contra la clase obrera y contra el pueblo, y los crímenes cometidos no tienen comparación en la historia.
Asesinatos en masa, la sangre corriendo a ríos por las calles de Badajoz, el bombardeo de Guernika, las trece rosas, las desapariciones, los paseos, las ejecuciones al amanecer,115.000 personas en cunetas y fosas comunes, 500.000 exiliados y exiliadas, 200.000 sentencias de muerte en los años siguientes al fin de la guerra, prisiones masificadas y hambreadas, campos de concentración, represalias y torturas de todo tipo.
Sobre ese criminal episodio histórico, y sin que ninguno de sus protagonistas haya
pagado con un solo día de cárcel, se construyó la monarquía parlamentaria española.
El criminal y genocida Franco sale del Valle de los Caídos, pero se mantiene la
impunidad del franquismo y sus criminales, los juicios sumarísimos, el no
reconocimiento jurídico de las víctimas. Sale la bestia y se conserva el símbolo del
mayor monumento de exaltación al fascismo y de culto ultracatólico de honra a los
verdugos y humillación a las víctimas del fascismo, con la gran cruz que simboliza al nacional-catolicismo y la tumba del fascista José Antonio Primo de Rivera.
Asistimos a toda una campaña propagandística de exhumación de la momia como acto final de su llamado “cierre del círculo democrático” , campaña que realmente esconde tras de sí la complicidad y consenso de los partidos del régimen y sus órganos de legalidad burguesa, para seguir manteniendo la impunidad del franquismo y los pilares que lo sustentaron.
No es ninguna heroicidad sacar a la bestia de su monumento cuarenta y cuatro años
después. Ante la crisis desesperada del bloque de poder burgués, y como parte de su podrida campaña electoral, sacan la momia para trasladarla a otro enterramiento
privilegiado. Mientras, en Catalunya, los cuerpos represivos aplican a golpe de porras y pelotas de goma la misma vieja política represiva del bloque histórico de poder. La misma política que siempre fracasó y se demostró una vía inútil y sin salida. Como fracasará también en esta ocasión.

Secretariado Político del Comité Central del PCPE
23 de octubre de 2019

Na contracorrente: as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk

Quem diria!

Em pleno século XXI, quando tudo indica, ao menos nestes inícios do século, um predomínio neoliberal, aliado, em vários países, a um ressurgimento de forças da extrema direita, surgem duas repúblicas populares! Quem diria!

Isso ocorre numa importante região mineradora e industrial, conhecida como a Região do Donbass (bacia do rio Don, na realidade uma sub bacia, denominada Rio Donest, um afluente do Rio Don), no leste da Ucrânia, nos “oblasti”[i] (regiões político-administrativas, equivalentes, numa federação, a estados-membros)de Donetsk e Lugansk.

A independência de Donbass surgiu como uma reação ao golpe oligárquico e neonazista ocorrido em Kiev e, em grande medida, incentivado pelas células locais do Partido Comunista e do Partido Socialista Progressista, ambos da Ucrânia, derrotando o Partido da Região que apoiava o golpe de estado perpetrado em Kiev.

Formou-se um amplo espectro de forças sócio-políticas, unido pela rejeição comum ao neonazismo, à burocratização, ao rigoroso centralismo, à corrupção e à ditadura oligárquica. Esse espectro é formado por socialistas, nacionalistas, comunistas, progressistas e outros.

Em 7 de abril de 2014, foi instalado o Conselho do Povo, proclamado como a maior autoridade da República Popular de Donetsk.

Os deputados do Conselho do Povo realizaram a parte principal do trabalho de redação da Constituição da RPD (República Popular de Donetsk) e prepararam o referendo sobre a independência. Em 7 de abril de 2014, o Conselho emitiu a Declaração de Soberania da República Popular de Donetsk e a Lei sobre a Independência do Estado dessa República.

O referendo, movimentos e medidas.

Apesar do aumento das pressões e provocações políticas, midiáticas e militares, realizou-se um referendo nas regiões de Donetsk e Lugansk, que fez a pergunta: “Você apoia a Lei sobre a Independência do RPD/RPL?”

Em Donetsk, 89,7%dos eleitores disseram “sim”, enquanto que, em Lugansk, o “sim” atingiu 96,2% dos eleitores.

As propriedades dos oligarcas foram nacionalizadas e criado um imposto incidente sobre cidadãos ucranianos residentes na região e de seus bens que se destina a financiar as milícias populares em luta contra as forças de Kiev, apoiadas pelo imperialismo.

Inobstante a forte influência de ideias socialistas e a tomada de medidas socializantes, em Donetskformaram-se dois grandes movimentos políticos, verdadeiras frentes:  o Movimento Social da República de Donetsk, que foi fundado por Andrey Purgin que, atualmente, é chefiado pelo líder da RPD, Alexander Zakharchenko, e pelo presidente do Conselho do Povo, Denis Pushilin. O outro movimento, ou frente, é oFreeDonbass (Donbass Livre). As diferenças programáticas entre os dois movimentos representados no Conselho Popular do DPR são mínimas. Diga-se, por importante, que o único partido registrado oficialmente, na RPD, é o Partido Comunista da República Popular de Donestk.

Também em Luganskformaram-se dois fronts: o Movimento pela Paz em Lugansk, liderado por Igor Plotnitsky, membro do parlamento, e a União Econômica de Lugansk. Segundo seus líderes, em especial o Movimento pela Paz, esses partidos têm como objetivos lutar contra o fascismo e fazerem parte da Rússia.No momento, os partidos e movimentos sociais e políticos estão unidos em virtude da guerra.

Mas, diante dessas forças políticas, e movimentos, uma pergunta se impõe: uma vez afirmada a independência, vencida a guerra em que se encontram, para onde irá o sistema sócio-econômico deDonbass? Para um capitalismo nacional? Para o retorno do capitalismo oligárquico, ainda que profundamente reformado?  Ou para o socialismo?

A resposta depende, em boa parte, da solidariedade internacional às repúblicas populares de Donetsk e Lugansk. Os progressistas daquela região e o largo apoio popular que possuem não podem ser abandonados, seja pela indiferença, seja por uma postura de aguardar os acontecimentos. É preciso criar formas de apoio aos nossos camaradas, desde já, e uma delas, como exemplo, pode ser a verdadeira ajuda humanitária. Outro exemplo, é a necessária solidariedade aos combatentes do Donbass presos pelo regime neonazista da Ucrânia.

Donbass e Rússia

É verdade que os separatistas de Donbass são a favor de uma aproximação com a Rússia. Quando as repúblicas populares se uniram num pais, em 2014, este passou a se chamar  Новороссия(transliteração – Novorassia) que significa Nova Rússia.

Mas por que querem se aproximar da Rússia? Existem inegáveis razões culturais e históricas. Basta lembrar que a Rússia nasce, como país, em Kiev, hoje capital da Ucrânia, o que revela os seculares laços de união entre Ucrânia e Rússia. Ademais, há uma importante questão política e econômica. A Ucrânia se encontrava num dilema: ingressar na União Europeia para receber financiamentos, empréstimos, ou fazê-los com a Rússia. O então presidente Viktor Yanukovich preferiu pedir um empréstimo à Rússia e não ingressar na União Europeia. Enquanto isso, principalmente em Kiev, havia o movimento Maidan, ou Euromaidan, favorável ao ingresso da Ucrânia na UE, que acabou derrubando Yanukovich. Quando se consolidou o novo governo na Ucrânia, começou o movimento separatista de Donbass porque eles eram e são contrários às políticas de austeridade e de restrições de direitos da União Europeia e por isso, fundamentalmente, preferem se aproximar da União Alfandegária da Eurásia, sob a hegemonia da Rússia.

A professora de Ciência Política da Universidade da Colúmbia, Elise Giuliano, escreveu um texto, sobre o assunto, intitulado The OriginsofSeparatism: Popular Grievances in DonetskandLuhansk  (As origens do separatismo: queixas populares em Donetsk e Lugansk). O texto se encontra em

A certa altura do texto, ela diz:

“Eu identifico uma série de razões pelas quais as pessoas comuns começaram a apoiar o separatismo examinando queixas em Donetsk e Luhansk no final de 2013 e início de 2014. A análise ultrapassa a compreensão unidimensional dos separatistas como pró-rússia, motivada unicamente por uma orientação duradoura à Rússia que não mudou com o tempo, seja por identidade étnica ou linguística, seja por lealdade política”.

E mais adiante, falando sobre os temas que vai desenvolver, diz:

“No entanto, para outros no Donbass, o apoio ao separatismo não era principalmente a adesão à Rússia, mas foi motivado por várias formas de interesse material, ou por uma sensação de traição por Kiev e do resto do país inspirado nos eventos da Euromaidan. Em termos de interesse material, examino dois tipos de queixas:

1) queixas de redistribuição discriminatória na Ucrânia; e

2) percepções do efeito negativo da potencial adesão da UE ao bem-estar econômico, devido a políticas de austeridade, ou o comércio com a Rússia e a União Aduaneira Eurasiática” (grifos do signatário).

Já, o dr. Eduardo Popov afirma: “A proclamação das repúblicas populares de Donbass foi uma reação lógica ao desmantelamento do estado ucraniano, tal como se formou no âmbito da República Socialista Soviética da Ucrânia”

Reação do Ocidente

Essa “ligação” de Donbass com a Rússia, acrescida da anexação da Crimeia, justificou, no Ocidente, um enorme acúmulo militar norte-americano e da OTAN ao longo das fronteiras russas. As forças da OTAN se estabeleceram nos estados bálticos, exercícios militares foram ou ainda estão sendo realizados no Mar Negro, a Polônia está sendo preparada para a guerra com a Rússia e o possível uso de armas nucleares é quase rotineiro em relação a dissuadir a alegada agressão russa.

Совет(soviete, conselho)

As principais indústrias da região de Donbass foram estatizadas. Depois disso, começou a guerra e o socialismo (que se pretende criar) só pode ser construído na paz. O exemplo histórico da URSS nos ensina que, durante a guerra civil e contra as forças estrangeiras que cercaram a então incipiente URSS, havia o “comunismo de guerra”, isto é, um verdadeiro confisco da produção que praticamente não existia e, depois da guerra, Lênin estabeleceu a NEP para criar um capital inicial e desenvolver a economia para construir o socialismo.

O Conselho do Povo é a maior autoridade da Região e conselho em russo, como se sabe, é “soviet” (совет), como também em ucraniano.

O parlamento da RPD é o Conselho do Povo (ou Conselho Popular) que foi presidido por Boris Litvinov que é, ou foi, o SG do Partido Comunista da República Popular de Donetsk, sucessor do Partido Comunista da Ucrânia, na região, mantendo o mesmo programa do PC da Ucrânia. O PC da RPD faz parte de uma frente política intitulada “República de Donetsk” e apoiou a eleição do atual Primeiro Ministro da RPD, Alexander Zakharchenko.

O Conselho do Povo tem 100 cadeiras e pelo resultado das eleições de 2014, a frente “República de Donetsk” fez 68 cadeiras, sendo 11 destas do PC da RPD e a outra frente política “FreeDonbass” fez 32 cadeiras, sendo que 19 delas pertencem ao “Partido Nova Rússia”.

O Partido Socialista Progressista da Ucrânia, uma dissidência do Partido Socialista da Ucrânia, liderado por NataliyaVitrenko que foi candidata à Presidência da Ucrânia em 1996, não participou, como partido, das eleições de 2014, mas pode ter representantes eleitos pela “República de Donetsk”.

A luta

As novas repúblicas populares estão sendo bem-sucedidas, apesar das difíceis condições, na luta contra o neonazismo ucraniano.

É bom lembrar que no século XX, o primeiro país a lutar, com armas, contra o então nazi-fascismo, foi a República da Espanha e que após o término da Guerra Civil Espanhola, com a lamentável vitória de Franco, em 1939, iniciou a Segunda Guerra Mundial.

As Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk uniram-se e formaram um novo país que é o primeiro, neste século, a lutar, com armas, contra o neonazismo.

Do ponto de vista militar e geopolítico, é importante para a Nova Rússia tomar a cidade portuária de Mariupol que lhe daria uma comunicação marítima, a oeste, com a Rússia e lhe permitiria, pelo Mar de Azov, chegar ao Mar Negro, ao Mar de Mármara, ao Mar Egeu e ao Mar Mediterrâneo e daí, dirigindo-se ao leste, atingir o Oceano Atlântico, ou, dirigindo-se ao sul, pelo Canal de Suez, chegar ao Mar Arábico e ao Oceano Pacífico. Embora Mariupol faça parte da região de Donestk, após vários combates, permanece, ainda, nas mãos militares da Ucrânia.

A luta ideológica interna da Nova Rússia não deve ser intensa devido à guerra, mas certamente se acirrará ao final da mesma.

A Rússia de Putin é o principal apoio internacional à Nova Rússia, mas os defensores, os simpatizantes do socialismo não podem esquecer que a Rússia é capitalista, apesar da profunda luta interimperialista, e, certamente, não apoiará a construção do socialismo em Donbass. Por isso é necessário a solidariedade internacional dos trabalhadores e dos progressistas à classe trabalhadora e aos progressistas da Nova Rússia.

No mundo de hoje, algumas regiões, como o Oriente Médio, a península coreana, como tambémDonbass, podem se transformar em estopins de uma nova guerra mundial.

O apoio a Donbass significa, nos dias de hoje, lutar pela paz e o apoio aos progressistas da Nova Rússia significa a luta pelo socialismo.

Recentemente a VerkhovnaRada, o parlamento ucraniano, aprovou uma lei de reintegração do território de Donbass à Ucrânia, autorizando o Presidente Poroshenko a utilizar as forças militares ucranianas, sem uma declaração formal de guerra, para retomar o território de Donbass. Ao mesmo tempo, acontece uma grande remessa de armas americanas para a Ucrânia. Tudo isso contraria os Acordos de Minsk e aponta para um inevitável recrudescimento da luta entre Ucrânia e Donbass, podendo envolver diretamente a Rússia nos eventos militares, após o esgotamento dos meios diplomáticos, o que levará a OTAN a apoiar a Ucrânia e, assim, certamente, estaríamos diante de uma terceira e, talvez, última, guerra mundial. Esse possível recrudescimento da guerra deverá ocorrer na primavera da região que, hoje enfrenta, um inverno rigoroso, dificultando manobras militares. Ou poderá ocorrer em março de 2018, quando estão previstas as eleições presidenciais na Rússia, criando as dificuldades inerentes ao recrudescimento da guerra, mas visando, também, desmoralizar a política de Putin em relação à Nova Rússia e, assim, influenciar nos resultados daquela eleição.

A separação de Donbass da Ucrânia e as medidas imperialistas tomadas a partir desse evento, demonstram não só a intranquilidade do imperialismo em relação à independência da Nova Rússia, mas o profundo tratamento desigual às situações iguais ou similares.

Dois pesos, duas medidas

É muito irônico, mas não é surpreendente, que o imperialismo use regras e medidas diferentes, no caso do conflito entre Ucrânia e Nova Rússia, daquelas utilizadas em outros países e situações, gerando, para dizer o mínimo, uma insegurança jurídica e políticano que diz respeito ao direito internacional.

Veja-se que, por exemplo, a Croácia, a Eslovênia, a Macedônia e todas as outras então repúblicas iugoslavas foram permitidas, encorajadas e auxiliadas a deixar a Iugoslávia.

A Bósnia tornou-se um estado federal(na verdade em dois estados separados em tudo, menos no nome!).

O Kosovo foi ajudado a deixar a Sérvia depois de uma longa guerra e a Checoslováquia foi dividida em dois países, pacificamente.

A Catalunha tem o seu próprio idioma e uma grande autonomia na Espanha, a província de Quebec tem a mesma situação no Canadá e a Escócia possui uma grande autonomia dentro da Grã-Bretanha.

No Iraque, na Líbia, no Afeganistão, o Ocidente, vale dizer, o imperialismo, nem sequer seguiu nenhuma regra, eles apenas criaram algumas acusações falsas, escandalosas mentiras, para atender seus objetivos de domínio!

Qualquer um daqueles arranjos poderia ter sido aplicado à Nova Rússia em relação à Ucrânia. Mas não, neste caso, o imperialismo não acolhe nada além de uma rendição total da Nova Rússia. Por quê?

Uns respondem que é inaceitável a Nova Rússia, separada em definitivo da Ucrânia, hoje neonazista, porque isso fortaleceria a Rússia e desequilibraria a balança do poder imperialista na região.

Certamente essa reposta é verdade, mas pessoalmente, prefiro acreditar e responder a essa inquietante pergunta, dizendo que Donestk e Lugansk, exercendo o direito de autodeterminação dos povos, declararam-se independentes e se tornaram repúblicas populares, dando um passo inicial, mas significativo, em direção ao socialismo e com isto, definitivamente, o imperialismo não pode concordar. Então, a saída imperialista é o recrudescimento da guerra e a saída progressista é a luta pela paz e a solidariedade internacional à Nova Rússia.

[i] Plural, em russo e ucraniano, de oblast, (em cirilicoобласть) significando região, província.

Brasileiros, sim! Mas, cidadãos do Mundo, também!

Segundo alguns, nacionalismo e internacionalismo seriam conflitantes entre si. Para essa visão paradoxal, nenhuma pessoa ou organização poderia ser, ao mesmo tempo, nacionalista e internacionalista.

Nesta época de neoliberalismo feroz e dominante, essa aparente incompatibilidade se encaixa como uma luva, na medida em que o neoliberalismo é, em última análise, a supervalorização do individualismo, negando a característica solidária do ser humano. Para os neoliberais o indivíduo é naturalmente egocêntrico e para se realizar, de forma plena, precisa ter mais e mais, sempre em detrimento dos outros e hipocritamente chamam essa visão egoística de “liberdade”, de “livre empreendedorismo”, etc.

Esse modo de ver os seres humanos e todas as coisas se aplica aos países, pelos neoliberais ou neoconservadores. Vejam, por exemplo, a “doutrina” de Trump expressa na palavra de ordem “America first” (os Estados Unidos primeiro). Ela se coaduna com os princípios neoliberais cuja prática levam aos conflitos intermináveis entre indivíduos, grupos sociais e guerras entre países. Por isso, a “doutrina” Trump e o neoliberalismo estão sempre a ameaçar direitos individuais, sociais e internacionais. Essa “doutrina” quer subjugar outros países a seus interesses e nós chamamos isso de imperialismo.

Não negamos que somos indivíduos, mas não esquecemos que não bastamos a nós mesmos. Isto é, precisamos do “outro” para nos realizarmos como seres humanos e não como bestas. Basta lembrar que, embora indivíduos, nascemos e nos desenvolvemos no seio de uma família, sem a qual não sobreviveríamos. Então, o homem é um “ser social” e não pura e simplesmente um indivíduo.

Se ser “nacionalista” é defender os interesses de uma nação, perguntamos se, do ponto de vista político, quanto do ponto de vista econômico, os interesses da nossa nação estão sendo observados? Na economia os lucros recordes do capital financeiro e a manutenção do modelo agroexportador que remonta ao Brasil-Colônia não são contrariados; na política, todos os políticos importantes (seja do legislativo, executivo e outras figuras públicas) são financiados, em suas campanhas eleitorais, por esses mesmos setores ligados diretamente ou indiretamente a interesses transnacionais que chamamos de imperialismo.

No Brasil, temos, entre vários, o exemplo da “reforma” trabalhista que para dar muito mais a uns poucos tira direitos de muitos.

Outros países, como o nosso, são subjugados por esse imperialismo. Com esses países em situação similar à do Brasil somos solidários e a isso denominamos internacionalismo.

Então, nacionalismo e internacionalismo não se excluem, ao contrário se complementam e cumprem a natureza solidária do homem.

Por isso, dizemos, com orgulho, somos BRASILEIROS, SIM! MAS, CIDADÃOS DO MUNDO, TAMBÉM!