Alienação, Ideologia e o camarada: uma autocrítica

Por Suzi Berni

“I, too, sing America.                                          

                                               I am the darker brother.                                      

                                               They send me to eat in the kitchen

                                               When company comes,

                                               But I laugh,

                                               And eat well,

                                               And grow Strong.

                                               Tomorrow,

                                               I’ll be at the table

                                               When company comes.

                                               Nobody’ll dare

                                               Say to me,

                                               “Eat in the kitchen”,

                                               Then.

                                               Besides,

                                               They’ll see how beautiful I am

                                               And be ashamed –

                                               I, too, am America.”

Lendo o “Camarada” de Jodi Dean, me deparei com uma nota do editor que faz referência à ‘Renascença do Harlem’, que me trouxe à memória meus tempos de professora de inglês no Julinho. Na tentativa de ‘cooptar’ a maior quantidade possível de alunos para dentro da sala de aula, resolvi propor ‘um estudo do rap’. Com este pretexto, e mostrando que a tarefa de compreender suas letras ia muito além do conhecimento que os alunos tinham da língua, levei-os a focar na seguinte pergunta: o que leva um negro estadunidense hoje (1994, vinte e sete anos atrás) a carregar tanta violência, tanto ódio, tanta revolta para sua música? Com isto, propus voltarmos na história e rastrear alguns exemplares de escrita de vários autores que, além de mais simples, indicassem este caminho. Acrescentei ao trabalho que começava com IceT a leitura de dois poemas de Langston Hughes, grande representante da Renascença do Harlem, um dos quais introduz esta reflexão. O poema traz uma linguagem simples e direta, com um ritmo que se move de fraco a forte e a fraco novamente. Mas quando ele volta, o ritmo fraco expressa a força da determinação do narrador de se fazer ver e ouvir.

                E aqui chegamos onde eu queria: como foi possível que eu propusesse estudar o racismo estadunidense e não tivesse alcançado a dimensão real do racismo, tanto lá como aqui? Segui sendo racista sem saber! Todos nós (os alunos e eu) ficamos com muita pena dos negros americanos, mas uma parcela bem recortada de ‘americanos’, só dos estadunidenses. E ficamos muito revoltados com o ‘inimigo branco’, que era, também, ‘americano’. Sentimos vergonha de sermos brancos mas não muita, porque, afinal, eram só os ‘americanos’ os malvados. Por quê?

                Voltemos, então, ao poema, para começar. O que é que Langston Hughes está reivindicando, quando conclui o poema com a afirmação de ser, também, americano? Igualdade? O narrador passa, primeiro, pela humilhação de ser mandado para a cozinha. Foi lá, no lugar subalterno, que ele aprendeu a rir da desgraça e a crescer, aprendeu que precisava ficar forte. Tão forte que ninguém mais ousasse humilhá-lo, pois era e reivindicava ser “o irmão mais escuro”. Mas aí ele esbarra em algo. E com uma única palavra, uma referência ao futuro (Então.) ele transforma e desfigura toda a luta. Deste momento em diante, a luta perdeu o sentido e ele se voltou para dentro: como sou bonito. E, não vendo saída na própria argumentação, se declara: eu também sou a América. A mesma América de meu irmão branco. Hoje, me pergunto qual América? Aquela imperialista, hegemônica, patriarcal, branca?

Minha compreensão de hoje é que Langston Hughes não encontrou o caminho para o sucesso da luta. Ao contrário, assimilou partes da sociedade branca. O inesquecível Louis Armstrong, outro representante do referido renascimento, encontrou o caminho da ‘América’ rica, a ‘América’ que dançava em casa enquanto seu exército matava, torturava, perseguia, explodia prédios e pessoas pelo mundo afora. Com toda sua história, sua carga de opressão, escravização, injustiça e massacres sucessivos, sobrevivendo a organizações como a Ku-Klux-Klan, muitos pensadores e artistas desta época apenas responderam a algo que pairava acima disso tudo, algo que não tinha nome, não tinha rosto, não tinha um defensor declarado.

 Hughes, e Armstrong, e meus alunos e eu demos voz a uma ideologia. Para nós, aqui no Brasil, América se referia aos Estados Unidos da América. Nós éramos apenas ‘latinos’. Meus alunos e eu não havíamos superado o estranhamento produzido pela alienação, que só pode ser superada se superadas as condições que produzem tal estranhamento, resumidamente, o modo de produção capitalista. Vivemos em uma realidade cindida em que as ideias apenas expressam a inversão presente na materialidade que lhes serve de base, como incansavelmente Mauro Iasi afirma. Exatamente por isso, assimilamos e damos voz à ideologia capitalista, este conjunto de representações, de símbolos e significados que evidentemente representam a visão ideal deste mundo e que tem caminho livre para internalização em nossos cérebros desde a formação de nosso superego.

Terry Eagleton didaticamente elencou seis atributos de uma ideologia. Primeiro, há uma identidade unitária para representar um todo, que por isto mesmo será heterogênea e inconsistente, como se verifica ao considerar o último atributo. Depois, terá de ser orientada para a ação e para isto oferecerá motivações, prescrições e metas a serem atingidas. Então, o sujeito ideológico passa pelo processo de racionalização, em que motivações inconscientes e inconfessadas encontram seu modo de expressão. É o terreno ideal do ressentimento e o solo fértil para a proliferação do fascismo. Ainda, é preciso legitimar estas ideias em um ambiente propício para sua anuência tácita. “Estes maloqueiros são um bando de vagabundos que não querem trabalhar.” O quinto atributo é o da universalização da ideologia, em que um interesse se transforma em o interesse, como se não pudesse haver contraponto. “A China vai dominar o mundo. Vai ser o fim da democracia.” Por último, é a sua naturalização, em que a ideologia alcança o senso comum, este mar de incongruências e inconsistências em todos os níveis, do pragmático ao conceitual. “O mundo é assim. Manda quem pode e obedece quem precisa. Pobre vai ser pobre a vida inteira.” É a reificação da vida social, uma segunda natureza da história, aparentemente espontânea, inevitável e inalterável. Soa familiar? Bem, deveria ser, porque anteriormente a Eagleton, Marx já havia desenvolvido a teoria da alienação.

Voltemos pela última vez ao poema: eles sentirão vergonha. Eles, quem? O homem branco que o manda comer na cozinha jamais sentirá vergonha, pena ou arrependimento pela simples razão de que ele não percebe que não é a sua voz que se faz ouvir e sim os interesses do capital. Estamos falando de uma por uma das camadas da ideologia. Estamos falando do mascaramento da luta de classes. O homem que manda o homem comer na cozinha realmente acredita que é superior e que tem direito de comer na sala de jantar e de ser o dono da fábrica onde outros negros trabalham em condições ainda piores do que o ‘escravo de dentro’. Se e quando o homem (e a mulher e os gays e as lésbicas e os e as trans e assexuados e os negros e indígenas e asiáticos e judeus e todos que nascerem, ai, que mar de minorias…) superar o modo de produção capitalista, estará tremendamente ocupado – ao lado do ‘irmão mais escuro’ – construindo uma nova sociedade que produzirá uma nova ideologia e um novo modo de compreender e viver no mundo.

Jodi Dean, no acima citado Camarada, resenha a história e as funções do mesmo, e eu posso me valer de seu trabalho para resgatar as lutas de todos os poetas e saxofonistas (e trompetistas…), dos guerrilheiros e guerreiros, dos Othellos[1] da vida; dos saraus aos Mauros Iasi, que labutaram no passado e no presente por trás e por fora dos véus do senso comum, sua naturalização; desde o processo de racionalização, da legitimação e universalização, para demonstrar que as ideologias podem ser ultrapassadas. Ao ultrapassar a ideologia capitalista é o processo da consciência de classe que pode ter início e a compreensão da luta de classes que se ilumina e que abre o caminho para a luta pela construção do socialismo. E eis que surge a figura do Camarada, figura de pertencimento político, forma de tratamento e o portador de expectativas para a ação. É o sujeito do outro. É aquele que não precisa ser teu amigo e nem mesmo teu conhecido, mas terá de ser alguém que divide uma utopia, que projeta o mesmo ideal transformador. O Camarada pode ser qualquer um, mas nem todo mundo. O espaço ontológico do camarada não é o de “um sujeito fiel, mas uma relação política fiel ao povo dividido como sujeito de uma política igualitária emancipatória”, pois o que hoje liga um camarada a outro é a fidelidade à ideia da construção do socialismo (o eu ideal superado pelo ideal do eu). É, a propósito, o espaço onde a ênfase marxista-leninista da unidade entre teoria e prática encontra seu campo. O indivíduo solitário não pode exercer fidelidade nem à verdade e nem à política, porque o sujeito necessita um corpo. E este é dado pelo Partido.                

Não fosse a matéria bruta do Colégio Estadual Júlio de Castilhos; Langston Hughes, Louis Armstrong, Jodi Dean e tantos outros que fornecem valiosa munição; e Mauro Iasi, ensinando a procurar as determinações do real; o Partido Comunista Brasileiro, corpo igualitário e emancipatório deste ideal do eu; e meus camaradas da Célula Internacionalista, minha luta estaria inevitavelmente perdida. Espero ter tempo ainda de refazer meus passos.[2]


[1] Para além da crítica que vê em Othello (Shakespeare, 1604) uma trágica história de ciúme, vejo também um homem negro preso à ideologia de seu tempo que mascarava as intenções expansionistas do Estado apresentando o exército como o mais alto depositário da honra e da glória que um indivíduo podia almejar. Othello ascendeu socialmente servindo a um exército que não o representava e que vergonhosamente o discriminou, condenou sua pretensão de casar-se com uma nobre branca e finalmente o descartou. Foi nada menos que sua fragmentação que o enfraqueceu e o levou a cair presa do maior exemplo de improvisação oportunista de um gênio do mal, seu inimigo mortal, ressentido e vingativo, Iago.

[2]  Escrevi este texto ao longo da última semana e no sábado 21 de agosto, após alguns tropeços digitais, participei do curso on line de Iniciação Partidária. Quero deixar registrado meu profundo respeito e a mais sincera gratidão a alguém que nem sonha que eu existo, Jones Manoel. O Youtube me apresentou ao Jones após eu ter assistido a um ou dois vídeos do Tese Onze, de Sabrina Fernandes e uma Rita von Hunty. Adeus Ritas, adeus Sabrinas… Não foram necessários muitos vídeos (apesar de ainda hoje eu esperar pelo domingo, quando entra mais um) para que começasse brotar a curiosidade e o impulso de procurar o PCB. Aqui estou; é com a mais genuína alegria que te saúdo, Camarada Jones Manoel.

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