ENTREVISTA COM PIOTR NIKOLAEVICH SIMONENKO,SECRETÁRIO GERAL DO PARTIDO COMUNISTA DA UCRÂNIAE COM ADAM MARTYNIOUK, SEGUNDO SECRETÁRIO NACIONAL , REALIZADA EM 14 DE DEZEMBRO DE 2020 POR AYMERIC MONVILLE, PARA O INICIATIVE COMMUNISTE.

Tradução: Humberto Carvalho

Aymeric Monville: Temos o prazer de falar com Piotr Simonenko, Secretário Nacional do Partido Comunista da Ucrânia. Bom dia, estamos honrados com este encontro, obrigado por sua disponibilidade. Nós, franceses, temos um grande respeito pelos comunistas ucranianos, especialmente nesta difícil situação. Vamos traduzir e publicar esta entrevista em francês. Na França, todos estão cientes das duras repressões anticomunistas em seu país, do que aconteceu na Casa dos Sindicatos 1 , das ameaças que vocês mesmos enfrentam. Você poderia falar sobre a situação atual na Ucrânia, para o público francês e francófono, pelo menos desde 2014 ou mesmo antes?

1  Refere-se ao incêndio provocado por neonazistas no edifício dos sindicatos, em Odessa, em março de 2014.Morreram carbonizados mais de 30 sindicalistas. O Google, no Brasil, retirou os vídeos do incêndio sob o pretexto de “ofensa a grupos” (neonazistas). Mas, você pode ver aqui (versão russa) https://www.youtube.com/watch?v=f7duBZFfTs4

Piotr Simonenko: Dou as boas-vindas a todos os nossos amigos e camaradas da França, especialmente dentro do movimento comunista. E, claro, compartilho a necessidade de trocar informações, para que possamos identificar corretamente os objetivos estratégicos e táticos da unificação do movimento comunista na luta contra as forças da reação.

E, em resposta à sua pergunta, gostaria de enfatizar que o período de reação na Ucrânia começou após o colapso da União Soviética. Quero dizer, essa reação é essencialmente uma tentativa da classe burguesa emergente e dos oligarcas de destruir politicamente o movimento comunista na Ucrânia, ou seja, o Partido Comunista da Ucrânia.

A partir de 1991, após o golpe de estado anti-socialista, iniciou-se uma reação crescente com o objetivo de impedir a continuação da atividade política do Partido Comunista.

A primeira proibição do Partido Comunista ocorreu em 1991 e nós lutamos por 10 anos no Tribunal Constitucional para derrubar a proibição ilegal do Partido Comunista da Ucrânia.

O processo de banimento do Partido Comunista foi seguido por uma nova onda de reações a partir de 2014. E essa reação é determinada pelos novos objetivos que o capital internacional, as corporações transnacionais estão tentando definir e resolver no território do Ucrânia.

Como um primeiro passo, de 1991 a 2014, a questão da separação da Ucrânia e da Rússia foi implementada. A restauração do capitalismo estava em andamento, eles precisavam se apoderar desse território para resolver seus problemas, principalmente relacionados a mercados e mão de obra barata.

Nesse período, eles tiveram sucesso. Hoje, desde 2014, a Ucrânia tornou-se um trampolim para os interesses das corporações transnacionais, principalmente na crise que começou em 2008 e as novas condições da crise. Se antes disséssemos que a crise se devia a um descompasso entre oferta e demanda (ou seja, era sobre produção real), hoje as condições da crise são formadas por diversas pirâmides financeiras, que se inflam de ar, sem produzir nada.

Assim, a partir de 2008, surgiu a questão de que no prolongado período da crise seria necessário excluir a possibilidade de se organizar a classe trabalhadora para lutar por seus direitos. Descarta a possibilidade de que os sindicatos sejam um dos organizadores desse movimento pelos direitos sociais.

Assim, a partir de 2008, surgiu a questão de que no prolongado período da crise seria necessário excluir a possibilidade de se organizar a classe trabalhadora para lutar por seus direitos. Descarta a possibilidade de que os sindicatos sejam um dos organizadores desse movimento pelos direitos sociais.

Em 2014, a política estatal de renascimento do neofascismo na Ucrânia desde 2004, sob o presidente Yushchenko e a fascização da sociedade ucraniana se manifestou no retorno à glorificação de “heróis” que serviram aos interesses das estruturas hitleristas e Nazistas. Mas, como a Ucrânia, por sua composição em regiões, igualou os interesses das regiões ocidentais, que estavam sob o controle de organizações neofascistas, essa provocação foi planejada com a contra-revolução de 2014 – conhecida como Maidan. Graças a este Maidan, oligarcas, neofascistas e o crime organizado chegaram ao poder. Ou seja, eles estão trabalhando juntos hoje.

Seu objetivo é cumprir a tarefa de formar a Ucrânia como uma cabeça de ponte contra a Rússia. É um ponto quente no lado europeu, assim como o que está acontecendo no Oriente Médio, no Norte da África e em outras partes do mundo. A política de interesses do Ocidente, representado pelos Estados Unidos da América, é imposta.

Portanto, foi essa situação que levou a um novo nível de reação e agudeza. O que aconteceu desde 2014? Em primeiro lugar, um governo totalmente fantoche e uma gestão externa da Ucrânia. Na verdade, todas as questões de pessoal, política econômica, política social e política regional, ou seja, são impostas do exterior. Primeiro, sob o ditame dos representantes americanos.

Em segundo lugar, levou ao fato da Ucrânia hoje, ao assinar o Acordo de Associação com a Europa, ter sido conduzida para um caminho de destruição do seu potencial. Além disso, os oligarcas dominantes, os neofascistas e o crime organizado introduziram, na política de estado, a fascização da sociedade como uma ideologia de estado.

Do que estou falando? Daqueles que serviram aos interesses de Hitler durante a guerra na Ucrânia e daqueles que continuam com essas ideias hoje e têm a ideologia do nacionalismo integral no coração. Esta ideologia é considerada integral, porque une o nazismo alemão e o fascismo italiano.

A. M.: Sim, também na França essa ideia de nacionalismo integral é a mesma que foi defendida pelos fascistas franceses, como Charles Maurras.

P. S.: Aymeric, apoio seu relato e a afirmação deste problema porque você e todos nós temos as mesmas crenças. O que você quer dizer é que o capital, o capital transnacional entre outros, está usando grupos neofascistas como estruturas de controle do poder para impedir a luta organizada dos trabalhadores por seus interesses.

Foi o que aconteceu em nosso país. Portanto, agora na Ucrânia, depois de 2014, métodos de violência organizada, largamente utilizados, tornam-se  ou são elevados ao patamar de lei na Ucrânia. Tais como a lei da descomunização, que prevê a proibição da ideologia, do uso de símbolos do movimento operário: o martelo e a foice, a estrela, tudo é proibido. As proibições foram introduzidas precisamente para garantir que a reação tenha mecanismos para reprimir nossa luta, para nos responsabilizar criminalmente, pois, você vê, estamos usando esses símbolos.

Atualmente, existem mais de 400 processos penais contra meus companheiros de partido por participarem nas eleições de 2014, em particular por quererem ajudar os cidadãos ucranianos a exprimir a sua vontade, ou seja, a organizar referendos locais.

Tudo isso leva ao fato de que o Serviço de Segurança, o Ministério Público, a Polícia têm suas próprias estruturas neofascistas, que são financiadas em nível estadual, usam a forma de órgãos do Estado, em particular o sistema de execução da lei, e em nome desse sistema de aplicação da lei, como em nome do estado, efetivam essa supressão (de direitos). Ou seja, métodos terroristas no gerenciamento de processos estatais são aplicados.

Uma tendência muito perigosa após 2014 é que a gestão externa da Ucrânia agora prevê, principalmente por meio do Fundo Monetário Internacional, exercer enorme pressão sobre a política interna.

O parlamento ucraniano só aprova leis ditadas pelo FMI. E isso está ligado a problemas sociais específicos de provisão para idosos, de reforma da saúde pública.

Hoje, com o coronavírus e a pandemia, assistimos de fato à destruição do sistema de saúde criado durante a era soviética e que é reconhecido em todo o mundo como o mais eficaz.

Além disso, vimos na China que o sistema de que estamos falando, sob a liderança do Partido Comunista, resolveu rapidamente o problema. Por quê ? Porque originalmente o sistema de saúde foi projetado para ajudar as pessoas, enquanto o sistema atual, nas relações capitalistas, permite que outros se enriqueçam com a saúde de nossos cidadãos. Esses são, é claro, interesses diametralmente opostos.

É por isso que todos esses problemas fazem parte da vida na Ucrânia.

O que resultou disso? Depois de 2014, a Ucrânia é reconhecida na Europa como o país  com o maior nível de criminalidade.

Hoje a Ucrânia ameaça a Europa nas seguintes áreas: tráfico de seres humanos, tráfico de drogas, comércio ilegal de armas, e pela retirada das finanças da Ucrânia. Nos últimos três anos, de 2017 a 2020, US $ 25 bilhões foram sacados da Ucrânia e colocados em várias empresas offshore para pessoas físicas e jurídicas. E tudo isso, é claro, piora significativamente a situação em termos de tensão social e de soberania econômica de nosso país.

Portanto, tornou-se evidente que a Ucrânia de fato perdeu sua soberania econômica, sua soberania política. Isso porque, como um Estado fraco, está completamente sob controle americano.

A. M.: Já discutimos isso juntos em uma entrevista escrita da Bielo-Rússia. E foi postado em nosso site da Iniciativa Comunista. Você me disse que esteve presente nas eleições. Você pode nos contar o que aconteceu na Bielorússia em agosto e como  está a situção hoje?

P. S.: A questão da Bielorrússia é, infelizmente, um processo lógico de promoção dos interesses americanos no espaço pós-soviético.

E é claro que a única entre as ex-repúblicas da União – a Bielorússia – permaneceu comprometida com a realização de um princípio fundamental do ponto de vista das funções do Estado – o princípio da justiça.

Na Ucrânia, as reformas impostas externamente apenas pioram o quadro social e muitas pessoas estão agora na pobreza, os cidadãos estão com a renda insuficiente para sustentar suas famílias. E na Bielorússia, a política do governo é proteger e melhorar as condições de vida em nome do estado.

Participei de várias eleições na Bielorússia, quase todas as eleições, onde Lukashenko venceu. A convite da gestão presidencial, participei da preparação das eleições, ou seja, falei perante os coletivos de trabalho, falei perante outros públicos, e expus o que me parecia necessário como comunista, tendo a análise das consequências das reformas que foram impostas à Ucrânia. Avisei meus camaradas comunistas e os cidadãos da Bielorússia contra a repetição dos erros da Ucrânia.

E tenho avisado repetidamente meus colegas e camaradas em todos os fóruns que temos realizado dentro da União dos Partidos Comunistas: “Caros colegas do partido, na Ucrânia, desenvolveram mecanismos para suprimir a vontade dos cidadãos da ex-União Soviética, inclusive na Bielorússia, de uma soberania real e de melhorias reais nas condições de vida.

Então, tudo aconteceu na Ucrânia. E foi implementação através da “quinta coluna”, sua formação e os diferentes fundos de subvenção. Temos muitos deles, e lá, na Bielo-Rússia, começaram a subsidiar fundações para a formação e preparação de pessoas, principalmente jovens, que não têm nenhuma ligação com a experiência histórica de seus avós e ancestrais. Hoje eles não se preocupam em analisar em que condições esses problemas foram resolvidos. Hoje, sob os slogans de democracia, liberdade, etc., estão a fazer coisas que vão contra os interesses do povo bielorrusso.

Além disso, também avisei a Rússia. Eu disse que depois da Ucrânia virá a Bielorrússia, e depois da Bielorrússia será a sua vez.

Também na Rússia as consequências podem ser ainda mais graves, porque as suas características nacionais e confessionais, tal como na Ucrânia, podem reforçar as contradições e tendências centrífugas existentes.

Eu vi as condições em que a campanha presidencial de Lukashenko se desenrolou. Ele a construiu com base nas decisões políticas que tomou, no que realmente aconteceu, que é a política real. E toda a sua campanha eleitoral foi uma explicação do porquê, das decisões que ele tomou e como a vida dos cidadãos bielorrussos mudou.

E o que foi construído pela chamada oposição foi baseado em “slogans democráticos” comuns e em duas questões principais: os 26 anos de Lukashenko no poder e o fato de que, ao que parece, sua posição não se conformaria com os Valores europeus. Mas tudo isso é um absurdo.

Em primeiro lugar, gostaria de salientar o seguinte: Eu pessoalmente observei que as eleições foram realizadas em condições objetivas de possibilidade de os cidadãos da Bielorrússia expressarem a sua vontade e não houve violência. 

Depois, o espaço de informação, considerando que não existem canais de televisão oligárquicos na Bielorrússia, foi submetido a uma coisa: por favor, cidadãos, falem, discutam. E eles tiveram a oportunidade de se expressar. Como e o que foi feito é outra questão, mas eu pessoalmente vi que existem essas oportunidades de falar.

Quanto aos coletivos de trabalho, e ao uso de coletivos de trabalho. Basicamente, foi Lukashenko quem reuniu todos esses coletivos de trabalhadores após 1994. Na verdade, as reformas impostas em toda a ex-União Soviética, e em particular quando Shushkevich estava à frente da Bielorússia, resultaram apenas em apenas uma coisa – o declínio da Bielorrússia. O senhor deputado Lukashenko mencionou tudo. Claro, isso não é compreendido pela Europa, com seus padrões duplos.

É claro que eles precisam aproveitar uma cabeça de ponte também para uma base da OTAN; é claro que devemos completar a criação de um arco de confronto. O Mar Báltico e o Arco do Mar Negro – das repúblicas bálticas à Polônia, Ucrânia, Moldávia, Azerbaijão e Geórgia, a cabeça de ponte do confronto. Este arco é muito perigoso devido ao fato de que há uma guerra civil em curso na Ucrânia. E isso é transferido para o nível interestadual com a ajuda do Ocidente, porque então esse incêndio será mais fácil de incitar e criará perigo para toda a Europa.

A. M.: A esse respeito, entendi que você tem um forte senso de solidariedade para com outras ex-repúblicas soviéticas e que é membro, como Partido Comunista da Ucrânia, do PCUS. Como está progredindo a questão de unificar suas forças?

P. S.: Depois de 1991 e da destruição da URSS, tivemos de procurar um modelo adequado para ter em conta a legislação nacional, como na Ucrânia. Estamos proibidos de criar centros supranacionais, neste caso centros políticos.

É por isso que escolhemos o caminho que cada Partido Comunista, usando a experiência do período soviético, e no período soviético houve o Partido Comunista da Ucrânia, houve o Partido Comunista da Bielorússia, lá teve o Partido Comunista da Federação Russa (durante a última etapa) e o mesmo vale para os outros Partidos Comunistas das repúblicas soviéticas.

Por isso seguimos este caminho e criamos a СКП–КПСС, a União dos Partidos Comunistas, na qual somos independentes do ponto de vista organizacional, e submetemos nossas atividades comuns ao estudo da experiência, à organização das ações de acordo com os interesses de cada país e a coordenação das nossas ações.

Por exemplo, em 2008 organizamos uma das ações conjuntas no território da República Autônoma da Crimeia na Ucrânia, quando lutamos contra as manobras conjuntas com a OTAN. Não permitimos que navios de guerra estrangeiros ficassem estacionados lá.

Coordenação, desenvolvimento científico, troca de experiências – e tudo isso no âmbito da União dos Partidos Comunistas.

Quero sublinhar que também prestamos especial atenção à cooperação no âmbito da Iniciativa Internacional dos Partidos Comunistas e Operários (de que o PRCF é membro), no âmbito da esquerda na Europa.

A principal tarefa hoje na luta contra a usurpação dos globalistas e aquela ligada aos interesses do capital transnacional, contra a ameaça de fascização da sociedade, é unir nossos esforços.

A. M.: Nossa entrevista é conduzida em russo, mas é claro, ao visitar seu site, vi que você era muito a favor de aceitar a questão do idioma em toda sua diversidade, o que é a política soviética clássica. Qual é a situação linguística atual na Ucrânia?

P. S.: A situação linguística na Ucrânia é determinada pelo fato de que eles estão tentando fazer do país um território onde a Ucrânia é apenas para ucranianos. Você pode imaginar o quão perigoso é. 

Somos um estado multinacional, com 130 nações  e povos (etnias) vivendo no território da Ucrânia. Por isso, nos primeiros anos do regime soviético, em 1918-1920, a primeira coisa que fizemos foi organizar as estruturas relevantes para a erradicação do analfabetismo e a ucranização da população. Por outras palavras, criamos condições que permitem às pessoas que vivem no território da Ucrânia conhecer a língua e a cultura ucranianas e poder ler e escrever no idioma ucraniano.

Fizemos de tudo para desenvolver o idioma ucraniano. Mas tínhamos uma política clara: nos tempos soviéticos, havia duas línguas oficiais na Ucrânia. Isso se deve ao fato de a língua russa ser usada nas relações internacionais. Além disso, muitos dos nossos cidadãos falam russo em casa e no trabalho. E a língua ucraniana foi definitivamente usada, ninguém se opôs a ela. E achamos que era justo que isso ocorresse.

A partir de nossa independência após 1991,o idioma não foi objeto de uma unificação, mas de uma divisão na Ucrânia. Foi o problema do idioma que levou os nacionalistas ucranianos, que agora degeneraram em estruturas neofascistas, a dividir a sociedade ucraniana. Este é um primeiro fator.

O segundo é que eles usaram a questão  do idioma para afastar a Ucrânia da Rússia.

E hoje eles usam o problema da linguagem, entre outras coisas, para uma divisão religiosa, ou seja, a destruição da ortodoxia como a principal confissão religiosa na Ucrânia.

Portanto, o problema da linguagem, hoje, leva à alienação das pessoas e é um instrumento de violência. Eles proíbem  transmissões em russo, proíbem o ingresso de artistas russos, proíbem a exibição de filmes russos sob o pretexto de que atores foram filmados no Estado inimigo. É uma estrada que não leva a lugar nenhum.

Mas, após a aprovação da lei sobre o uso da língua ucraniana, temos outro problema, que aumenta as tensões nas fronteiras externas da Ucrânia.

Você conhece o problema de usar a língua húngara na Transcarpátia. E Orbán, o primeiro-ministro húngaro, também o está usando ativamente agora para consolidar primeiro a parte húngara da população da Ucrânia no território da região da Transcarpátia.

Este problema nas fronteiras da Ucrânia surgiu porque a lei sobre o uso da língua ucraniana exige que as crianças estudem exclusivamente em língua ucraniana.

Mas, afinal, costumávamos estudar certas matérias em línguas nacionais, mas agora isso praticamente só é permitido nas séries primárias, e nos estudos mais avançados não é permitido.

Além disso, em muitos casos, as bases da cultura são destruídas regionalmente e as pessoas são privadas da oportunidade de atender às suas necessidades culturais, inclusive linguísticas.

Portanto, esta questão hoje só leva ao fato de que através da violência limitamos as possibilidades do ensino superior, criamos contradições nas fronteiras e limitamos as possibilidades de formação no ensino médio nos respectivos programas. Tudo está interligado.

Por um lado, estamos destruindo um sistema educacional que foi reconhecido como um dos melhores em todo o mundo, o sistema educacional soviético. Isso também leva ao fato de que temos um enorme problema de recursos humanos.

Quase não temos mais formação profissional. E a educação funciona independentemente dos interesses do Estado. Tudo isto levou ao fato de mais de 50% dos jovens ucranianos não associarem o seu futuro à Ucrânia porque pretendem ir para o estrangeiro.

A. M.: Obrigado pelas tuas respostas, querido camarada.

P. S.: Não vá embora, quero apresentá-lo a Adam Martynyuk, Segundo Secretário Nacional do Partido Comunista da Ucrânia e ex-parlamentar. Adam, este é nosso amigo francês Aymeric Monville, por favor, não hesite em responder às perguntas.

Aymeric Monville: Prazer em lhe conhecer. O camarada Piotr Nikolaevich já me explicou o contexto geral. Quanto a você, como vê a situação atual?

Adam Martynyuk: A situação na Ucrânia é extremamente difícil. Isso se deve à gravidade da vida socioeconômica do estado. Infelizmente, a elite dominante muda constantemente, mas não muda em seus objetivos, embora chegue ao poder com as mesmas promessas num dia, e no segundo dia as esqueça.

E temos outro paradoxo. Todos nós, incluindo o nosso Partido Comunista, defendemos a restauração do poder dos Conselhos (Soviets). Porque oficialmente os “soviets” governam a Ucrânia. Mas esses conselhos não representam os interesses da classe trabalhadora, do campesinato e da intelectualidade operária. O conteúdo dos atuais conselhos é pró-capitalista e oligárquico. As últimas eleições autárquicas, onde houve uma luta muito séria pelo poder local, são a prova disso. Como ninguém, exceto um pequeno grupo de oligarcas, tem acesso ao orçamento do estado central, a luta pelos orçamentos locais tem sido travada entre as elites locais.

O  cerne do poder reside, portanto, nos soviets, que estão nas mãos da oligarqui, dos empresários  e dos “czares” locais, que compram pessoas dando-lhes empregos e fazendo com que votem num determinado sentido.

A situação econômica é extremamente difícil, apesar do fato de que a Ucrânia teve enormes oportunidades. Na época do colapso da União Soviética, era um dos dez países mais desenvolvidos do mundo.

Infelizmente, não conseguiu usar esse antecedente e agora voltou ao status de um dos países mais pobres da Europa. Apesar do potencial econômico criado por nossos antecessores, termos as melhores terras, grande número de minerais e recursos de trabalho, a mediocridade de nossos políticos, seguindo o mesmo caminho, fez com que a Ucrânia afundasse deste jeito.

Para encontrar, como se costuma dizer, um partido responsável, um bode expiatório, foi propagandeado primeiro que foram o governo soviético e o Partido Comunista, então no poder, que conduziram a esta situação e que a corrigiriam. No entanto, três décadas se passaram e não apenas a situação não melhorou, como se tornou catastrófica. Passados 30 anos, nos encontramos com 60-70% do produto interno bruto do que tínhamos sob o Partido Comunista no poder.

Houve um golpe de estado na Ucrânia em 2014, quando o poder foi ilegalmente tomado por representantes de organizações nacionalistas de extrema direita. Eles deram uma direção diferente para o país e baniram o Partido Comunista da Ucrânia.

Ou seja, o Partido Comunista existe formal e legalmente, mas na verdade, por decisão do Ministério da Justiça, contrariando a Constituição, é proibida a participação do Partido em eleições. Não podíamos participar em eleições parlamentares, presidenciais ou locais. Isso é um absurdo, uma novidade puramente ucraniana.

O partido não está legalmente proibido, mas seus direitos políticos são violados. E as autoridades estão aproveitando, arrastam os processos na Justiça, percebendo que não há motivo para banir o partido com base na Constituição. Mas estão felizes com uma situação em que o Ministério da Justiça não permite que participemos de campanhas eleitorais.

Provavelmente, não há outro país na Europa, como a Ucrânia, que seria quase igualmente dividido em duas partes: por mentalidade, por idioma, por religião. Uma vez que uma parte é ortodoxa e os ortodoxos têm laços estreitos com a Igreja Ortodoxa Russa, a outra parte é católica, unida e subordinada a Roma.

Todos esses problemas que se acumularam ao longo dos anos da chamada independência levaram a uma violenta guerra civil na parte oriental do país. Porque o Donbass resistiu a tal formulação da questão e deseja que sejam levados em consideração sua mentalidade, sua cultura, etc. 

Em outras palavras, a situação é extremamente complicada e, naturalmente, afeta a atividade do Partido Comunista.

Aymeric Monville: Precisamente, como você vê o futuro?

Adam Martynyuk: Mas olhamos para o futuro com otimismo. Mais cedo ou mais tarde, chegará a hora de ficar sóbrio dessa embriaguez fascista. 

Infelizmente, várias gerações de jovens já passaram e não se lembram do que é socialismo e de como viveram seus ancestrais; as pessoas que deram tudo de si para criar essa sociedade socialista estão desaparecendo. De alguma forma, no futuro, vai haver uma revelação  porque os jovens e os de meia idade estão, atualmente, felizes com a política de permissividade por enquanto, porque você pode trabalhar,  porque você não pode trabalhar, porque você pode estudar, porque você não pode estudar. E sob o socialismo, havia contabilidade estrita.  Lá lhe perguntavam se você não estivesse trabalhando: por que você não está trabalhando? Agora você pode.

Hoje é a política da permissividade, a violação da lei. Na prática, a lei não funciona, principalmente no que diz respeito às organizações de direita. Eles são tão arrogantes que nem mesmo têm controle sobre eles e têm medo de serem atingidos (pela lei).

De qualquer maneira, a consciência virá. E esperamos que os jovens percebam o quanto a política atual é prejudicial e que entendam que precisamos mudar de rumo. E vamos ajudá-los a fazer isso acontecer. É por isso que, literalmente, na última reunião do Presidium, que teve lugar na quinta-feira, decidimos melhorar radicalmente a informação política para os cidadãos. É verdade que as novas gerações estão muito, muito longe de saber o que é o socialismo, ou o sabem apenas pelo que os atuais inimigos do socialismo lhes dizem.

Aymeric Monville: Desejamos a vocês muito sucesso.

Adam Martynyuk: Nós esperamos muita solidariedade internacional, em particular por parte dos comunistas franceses. Nós conhecemos a experiência de vocês na luta politica muito similar à nossa. Nós a estudamos, nós envidamos esforços para seguir o exemplo de vocês na luta contra o capitalismo.


 Fonte: https://www.initiative-communiste.fr/articles/europe-capital/video-ukraine-un-danger-pour-leurope-entiere-entretien-exclusif-avec-piotr-simonenko-secretaire-national-du-parti-communiste-dukraine/

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